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Entrevista com dom Claudio Hummes sobre o Sínodo para a Amazônia

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“O modelo de desenvolvimento que está sendo aplicado na Amazônia pelos governos, pelas grandes empresas públicas e pelas iniciativas privadas é prejudicial e devastador para o meio ambiente e para os povos indígenas. A Igreja pode e deve participar do debate sobre estas questões, a partir do Evangelho”.

É assim que o cardeal brasileiro Claudio Hummes – presidente da Rede Eclesial Panamazónica da Igreja Latino-Americana (Repam) e da Comissão Episcopal Brasileira para a Amazônia – explica em uma entrevista à Agência Fides como as igrejas locais estão preparando a assembleia especial do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia, enquanto enfrentam difíceis desafios missionários e sociais todos os dias.

Como a Igreja no Brasil está se preparando para o Sínodo Especial para a Amazônia?

A decisão do Papa Francisco de realizar um Sínodo Especial para a Amazônia e seu anúncio dia 15 de outubro passado, na Praça São Pedro, estão sendo motivos de muita exultação e sinais de gratidão da parte dos católicos do Brasil, especialmente dos da Amazônia. Esta animada acolhida é, da nossa parte, o primeiro passo para a preparação do sínodo. Além disso, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (Cnbb) tem uma Comissão Episcopal para a Amazônia e o Celam (Conferência Episcopal Latino-Americana e do Caribe) sedia a Rede Eclesial Pan-amazônica (Repam). Obviamente, estes organismos, juntamente com as dioceses e outras jurisdições eclesiásticas da Amazônia estão mais diretamente encarregados de contribuir para a preparação do sínodo. Há já uma grande movimentação, em termos de encontros na região. Certamente, a visita do Papa à região amazônica peruana, em Puerto Maldonado, dia 19 de janeiro, e seu encontro ali com centenas de indígenas e com os bispos representando os 9 países da Pan-amazônia, será um forte impulso inicial nesta preparação.

Qual será o papel dos leigos nesta preparação?

Trata-se de um Sínodo dos Bispos, mas a Igreja toda é sempre convidada a participar da preparação de qualquer sínodo. Clero, religiosos e leigos. Para isto a Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos, do Vaticano, prepara um grande questionário sobre o tema do respectivo sínodo, o envia aos bispos e através dos bispos para as comunidades locais. Além dos bispos, também estas são convidadas a responder ao questionário. É um primeiro e importante momento em que todos os leigos podem participar. Mas também ao ser composto o quadro dos que vão participar do sínodo, ao lado dos bispos delegados, sempre há padres, religiosos, leigos e leigas  convidados pelo Papa como auditores, que podem participar da discussão, mas não têm voto. Só os bispos sinodais votam. Assim será também neste sínodo. Com certeza, o Papa convidará representantes indígenas a participar como auditores. Mas durante a preparação, sobretudo através do questionário, queremos trabalhar para que o maior número possível de comunidades indígenas tenha acesso a este questionário para opinar e fazer propostas.

Quais são os problemas que mais preocupam o senhor a respeito da Amazônia?

O Papa Francisco, durante a Jornada Mundial dos Jovens, em 2013, no Rio de Janeiro, num discurso aos bispos brasileiros, afirmou que a Igreja na Amazônia precisa ter “um rosto amazônico” e “clero autóctone”, e estimulou os bispos, acrescentando: “Sobre isso, peço, por favor, para serem corajosos, para terem ousadia!”. Ao mesmo tempo sublinhou que “a Amazônia é um teste decisivo, banco de prova para a Igreja e a sociedade brasileira”. Acentuou ainda que “desde o início (da colonização), a Igreja está presente na Amazônia com missionários, congregações religiosas, sacerdotes, leigos e bispos, e lá continua presente e determinante no futuro daquela região”. No mesmo discurso, falou também do risco de degradação e devastação da natureza na Amazônia, com “forte apelo ao respeito e à salvaguarda de toda a criação que Deus confiou ao homem, não para que a explorasse rudemente, mas para que a tornasse um jardim”. Esses são os problemas que mais preocupam a respeito da Amazônia. Com certeza, a questão da presença missionária e evangelizadora da Igreja se conjuga com sua preocupação pelo meio-ambiente na Amazônia, como bem demonstrou a encíclica Laudato si’. O Papa, ao anunciar o sínodo, também definiu seu objetivo, que é “encontrar novos caminhos” para enfrentar todas estas questões seja missionárias seja socio-ambientais da Amazônia.

          Certamente o que preocupa de modo particular no campo missionário é a grave carência de missionários e missionárias, o que dificulta uma presença física, próxima e permanente da Igreja junto às populações mais pobres e afastadas da Amazônia. Além disso, a falta de sacerdotes faz com que estas populações interioranas e da selva fiquem privadas dos sacramentos da vida cotidiana dos católicos, isto é, os sacramentos da eucaristia, da confissão sacramental e da unção dos enfermos. Isso as torna frágeis e com sensação de abandonadas. Como desenvolver um clero autóctone e indígena suficiente para esta missão? Isso também tornaria mais viável uma verdadeira inculturação da fé cristã nas culturas destes povos.

O Sínodo poderá ajudar a ser luz para os problemas na Pan-amazônia?

amazCom certeza. A Igreja, diante de questões tão importantes como “procurar novos caminhos de evangelização”, contando com o apoio de um sínodo, se sentirá muito mais encorajada a traçar tais caminhos.

Como a Igreja pode ajudar na reflexão e proposição no cuidado com a Casa Comum e o Bem-viver – fundamento da ética dos povos indígenas – diante dos projetos de desenvolvimento para a Amazônia como a extração de madeira, a construção de hidrelétricas, a mineração, o agronegócio que se opõem a este estilo de vida?

De fato, o modelo de desenvolvimento que está sendo implantado na Amazônia pelos governos e pelas grandes empresas públicas ou da iniciativa privada, segundo o novo sistema econômico-financeiro mundial, será profundamente danoso e devastador para a realidade ambiental e para as populações originárias e tradicionais da região. A Igreja pode e deve participar do debate destas questões, a partir do Evangelho, em solidariedade para com tantas pessoas e comunidades que estão sendo afetadas, descartadas, atropeladas e despojadas de sua dignidade, de suas terras, de sua cultura e direitos, e em defesa da “nossa casa comum” que dependerá muito do modo como a Amazônia será preservada. Só para falar do desmatamento, sabe-se hoje que a floresta em pé pode trazer muito mais riqueza do que se a região for desmatada.

Diante da proposta do Papa Francisco de uma Igreja em saída, como as Igrejas locais podem efetivamente comprometer-se?

Primeiro, participando substancialmente na preparação do Sínodo, para fazer chegar sua visão e suas propostas sobre a missão na Amazônia. Depois, acolher com alegria e ardor, as orientações do Papa, a partir das conclusões sinodais. Isso exigirá não ter medo do novo e não permanecer parado no tempo e no espaço, mas com ânimo, no vigor do Espírito, arregaçar as mangas e decidir-se a ir às periferias, ali anunciar o Evangelho “com novo ardor missionário, novos métodos e novas expressões” (João Paulo II) e praticar a misericórdia.

O senhor pode explicar o papel da Rede Eclesial Pan-amazonica (Repam), que você preside, a favor da região?

A Repam foi criada em 2014, em Brasília, num encontro de bispos e outras lideranças da região Pan-amazônica. Foi preparada por muitos encontros e iniciativas anteriores no sentido de desenvolver uma pastoral de conjunto em toda a área. São quatro as entidades fundadoras: o Departamento de Justiça e Solidariedade, do Conselho Episcopal Latino-americano (Celam); a Comissão Episcopal para a Amazônia, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (Cnbb); a Conferência Latino-americana dos Religiosos (Clar); e o Secretariado Latino-americano e do Caribe de Cáritas (Selacc).

          A Repam, sendo uma rede, pretende contribuir para articular as dioceses, prelazias, vicariatos, missões da Igreja, juntamente com as organizações das comunidades locais do interior, as comunidades de indígenas, de ribeirinhos, quilombolas e sobretudo as comunidades dos mais pobres, esquecidos e isolados, bem como as instituições, iniciativas, programas , que atuam na evangelização e na preservação ambiental da Amazônia. Contribuir na construção desta rede e fazê-la atuar como rede, é o objetivo da Repan. Assim, as comunidades, sobretudo no interior do território pan-amazônico, se sentirão menos sozinhas e isoladas na imensa floresta, menos sozinhas com seus projetos, seus sonhos e problemas, mas saberão que há uma rede de solidariedade e de comunhão que une a todos. Para melhor funcionar, a Repan trabalha com alguns eixos, que tem cada um seu próprio comitê de animação e trabalho.

          Os eixos são oito: os povos indígenas; os direitos humanos; formação e métodos pastorais; comunicação; mapeamento da realidade pan-amazônica; Igrejas de fronteira; novos modelos de desenvolvimento e crise climática; agências internacionais de ajuda e assessoria. Essa forma de trabalhar em rede e com eixos específicos tornou possível abarcar de algum modo esta gigantesca realidade que é a Pan-amazônia. Penso poder dizer que a Repam hoje é uma organização muito viva, dinâmica e ativa em todo o território.


Fonte: http://repam.org.br/noticias

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