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Amazônia: última página do Gênesis

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“Realmente, a Amazônia é a última página, ainda a escrever-se, do Gênesis”, escutamos da voz de Euclides da Cunha. Ele traça um fio entre a Amazônia e o Gênesis, texto que para nós cristãs e cristão é Texto Sagrado.  Isso nos leva a uma primeira reflexão. O Texto Sagrado nasce de constantes releituras da experiência fundante do povo de Israel, isto é, da libertação da opressão do Egito. Releituras provocadas pelo contexto histórico, pela situação existencial que o povo vivia e que exigia uma constante atualização da Palavra, a fim de que falasse para os novos tempos. Isso vale para o Primeiro Testamento, como para o Segundo Testamento.

O texto bíblico nos faz pensar em tecido, uma grande colcha de retalhos tecida a partir de um retalho fundamental. O texto fundante que tem um padrão inicial e com o tempo vai se alargando, enriquecendo. O padrão inicial inspira novos trançados, repetindo, inovando, introduzindo novos desenhos, símbolos. Texto, tecido que articula a experiência da fé como resposta humana aos desafios históricos.

Texto fundante que reconhecemos na experiência do Êxodo, que identificamos como experiência de libertação. O Êxodo, a fé no Deus libertador, é a semente que desabrocha, floresce, frutifica nas múltiplas experiências do povo ao longo da história. É luz que ilumina histórias antigas e as relê na variedade de nomes com que o povo vai identificar o Senhor, ao longo de sua historia. Que reencontramos na experiência de Jesus de Nazaré e das primeiras Comunidades.

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A rigor, esta experiência nos convida a ir além, pois o Deus do êxodo é libertador porque é o Deus da vida, o Deus presente na vida, é Deus-Vida. A Vida é o fio condutor. Voltando à imagem do texto-tecido, a vida é o fio-cor que perpassa toda trama do desenho, toda a colcha de retalhos. A cor-vida é o fio condutor de toda releitura, é o padrão que compõe o nosso Texto Sagrado.

 Texto Sagrado que consideramos Palavra de Deus. Texto Sagrado que não é livro fechado, mas que se esparrama na história, que se esparrama na Amazônia. A colcha de retalhos que não está concluída, pois a estamos ainda tecendo, a estamos ainda escrevendo.

Norman Myers afirma: “Não compreenderemos inteiramente a vida enquanto não compreendermos as florestas tropicais”. As florestas tropicais estão entre os mais antigos ecossistemas terrestres. Isso vale por excelência para a Amazônia onde a vida se manifesta na riqueza de biomas, nos milhares de inter-relações entre as espécies, nos gratificando com sua explosão vital. A Amazônia tem a sua vocação nitidamente florestal. Por isso, temos que encará-la como fonte inesgotável de vida, luz, renascimento, regeneração e amor. Um milagre em cada amanhecer.

O que você, eu, nós queremos da Amazônia? O que será da Amazônia daqui a 50 anos, se continuarmos a ignorar a grave situação dos trezentos mil índios e dos seis milhões de habitantes do interior da floresta? Deixaremos que o desmatamento alcance as margens do grande rio? O impacto de Belo Monte e das inúmeras barragens projetadas? A pobreza concentrada na periferia das cidades da região como iremos enfrentá-la? A dilapidação do patrimônio genético? A maior reserva de madeiras duras do planeta? Que Amazônia queremos legar às próximas gerações?

Fritjof Capra, em seu livro O Ponto de Mutação, afirma com palavras proféticas: “A nova visão da realidade… baseia-se na consciência do estado de inter-relações e interdependência essencial de todos os fenômenos – físicos, biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Esta nova visão transcende as atuais fronteiras disciplinares e conceituais”.

O pensamento ecológico nos convida a viver a vida como uma rede de relações, rede que forma o ecossistema. O pensamento ecológico aponta para elaboração de novos paradigmas. Entre estes a hermenêutica bíblica que se sente desafiada a reler as primeiras páginas do nosso Texto Sagrado.

Reler Gênesis 1 e 2. O relato bíblico da criação é releitura de mitos da criação dos povos entre os quais o povo de Israel vivia. Hoje, é patrimônio adquirido que os dois relatos são reflexão de fé a partir de contextos existenciais de lugares e épocas diferentes.

Nós cristãos reconhecemos, e disto precisamos pedir perdão, que estes textos, sobretudo Gênesis 1,26-28, foram lidos e interpretados para legitimar e construção de uma mitologia do poder, dominação e exploração indiscriminada sobre a natureza. Na civilização ocidental foram a legitimação de uma antropologia homocêntrica origem do capitalismo e das doutrinas geradoras das atuais posturas de uso e abuso sobre as pessoas, os povos e a natureza.

 Gn 1 e 2, embora escritos em épocas diferentes (VI e X séculos), chegam a nós, um em continuidade do outro. Isto aponta a necessidade de uma leitura própria para cada texto, mas também a necessidade de perceber que um é o complemento do outro, um esclarece o outro. Então, se Gn 1,28 traz os verbos kabash = pisar na terra, subjugar, e radah = dominar. Por sua vez, Gn 2,15 nos fala que o ser humano deve cultivar = ‘abad e guardar o solo = shamar. Cuidar, cultivar o solo para vida se multiplicar e ser fecunda. A vocação humana inscrita nesses textos nos recorda que o ser humano é imagem e semelhança, quer dizer, é presença no universo da Divindade-Vida.  Divindade que ao colocar em harmonia os elementos do caos (trevas, deserto, águas) origina o processo relacional de explosão da vida.

As palavras de Leonardo Boff ecoam carregadas dessa realidade: “Tudo o que existe deve ser cuidado para continuar a existir. A essência humana reside na capacidade de tomar este cuidado. Talvez seja este, o maior desafio da capacidade inventiva do ser humano, despertar a sensibilidade e a responsabilidade com os cuidados da terra... A missão do ser humano não é estar sobre as coisas, dominando-as, mas ficar ao seu lado, cuidando delas, pois ele é parte responsável da imensa comunidade terrenal e cósmica”.

Parafraseando Abraham Heschel, podemos dizer: “Não se pode construir outra imagem do Todo-poderoso além desta: nossa própria vida como representação de Sua vontade. Homem e Mulher, criados à Sua imagem, devem imitar Sua misericórdia. Ele delegou à humanidade o poder de agir em Seu lugar. Somos seus representantes quando aliviamos o sofrimento e trazemos alegria.” O Todo-amoroso nos criou à Sua imagem e semelhança, para sermos no universo a continuação de Sua presença criadora e fecunda, para cultivar e cuidar da vida.

Paulo sentiu profundamente a inter-relação e interdependência que há entre tudo que existe. Em sua Carta aos Romanos associa o gemido que sai da terra cativa ao gemido que abriga o ser humano. Gemido causado pela prepotência e abusos do Império Romano. Paulo, anima-nos ao dizer que, ao nosso gemido, o Espírito vem em socorro, pois não sabemos escutar os gemidos que sobem do universo, não sabemos gemer (Rm 8,18-27).

 Deixar-nos levar pelo Espírito, que une seu gemido ao nosso, é acolher os novos paradigmas que estão sendo elaborados, é usá-los como instrumentos para reler nosso Texto Sagrado. Deixar-nos conduzir pelo Espírito, que faz seu o gemido nosso e da natureza, é permitir que Ele nos leve ao encontro das pessoas cristãs e não cristãs que já estão, há anos, buscando estas luzes, iluminar nossa fé, nosso agir e responder às interpelações de Deus na nossa história hoje. E, assim permitir que o Espírito faça penetrar em nós o gemido da natureza que anseia por libertação. O universo libertado se tornará a oikos, casa comum de todos os seres vivos e do próprio Deus.

Tempo atrás, pediram-me uma reflexão cujo tema era: Leitura Bíblia a partir da Amazônia. Desenvolvi minha reflexão sugerindo silenciar para ouvir as vozes que saem desta terra amada que é a Amazônia. As retomo sinteticamente esta noite.

  • Silenciar e sentir a brisa que sopra da floresta, o frescor que vem das águas, a pluriforma beleza que brota do ecossistema. Que mensagem nos é anunciada? Que desafios o ecossistema nos está lançando?
  • Silenciar e ouvir o canto dos povos amazônicos, povos remanescentes, povos ressurgentes. O que estes povos estão cantando? Que desafios seu canto nos está lançando?
  • Silenciar e escutar a voz do povo amazônida, povo nascido de uma história sofrida, povo da terra, povo dos rios. O que o povo amazônida nos está falando? Que desafios sua fala nos está lançando?
  • Silenciar e perceber os cheiros que emanam das cidades antigas e novas, das periferias. Estes cheiros o que revelam? Que desafios estes cheiros nos estão lançando?
  • Silenciar, tirar as sandálias, pois estamos pisando em terra sagrada, o chão da religiosidade popular, povo místico que resistiu e resiste. Que fé este povo místico nos transmite? Que desafios a religiosidade popular nos está lançando?Estabelecer uma relação amorosa, afetiva que transmita nosso desejo que ela continue existindo através de ações concretas no nosso cotidiano. Convocando outras pessoas para que se juntem a nós na defesa da Amazônia. Interpretar a natureza amazônica agradecendo sua generosa e exuberante beleza e todos os recursos que ela nos oferece: remédios, folhas, raízes, frutas, madeiras, alimentos, beleza a ser mantida, cultura a ser preservada.Ser humildes, pedir perdão por tanto desconhecimento, ingratidão e maldade. Ser humildes é estar de mente e coração abertos para se aproximar e conhecer de perto. E, depois, querer mudar.Estamos diante de um mundo novo que mal começamos a conhecer. Michael Gonlding acena para nós um caminho ao dizer: “A bacia Amazônica é, acima de tudo, a nossa maior celebração de diversidade do Planeta”.Concluo minha reflexão com as palavras de Eduardo Galeano: “A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar".
  • Reflexão para abertura do Sínodo da Igreja Anglicana do Brasil – Diocese da Amazônia Belém 14 de março de 2014
  • Celebrar é sentir, é se comprometer: como povo, como terra, floresta da Amazônia. Assim como nos sentimos Povo de Deus, nos sentimos Povo universal. A Amazônia nos fala de uma realidade que ultrapassa os limites do Brasil, do Continente Latino-Americano ... Ao nos sentirmos cidadão e cidadãs planetárias desafiadas a aprender, buscar alternativas para fazer renascer constantemente a vida. Vida que renasce das cinzas que viram adubo fertilizando a terra.
  • Ter um novo olhar para a Amazônia. Adotar uma atitude de reconhecimento, gratidão e compromisso com sua preservação, com o fio da vida, protestando contra os verdes que estão sendo mortos, contra os criminosos que ateiam fogo nas selvas, poluem os rios e lagos, exterminam a fauna e matam seus legítimos filhos e filhas.
  • Confessar nossa ignorância perante esta explosão de vida e a sua complexidade. Enxergar a Amazônia como fonte de prazer, vida, felicidade, alegria. Encarar a Amazônia como herança verdadeira, viva. Você pode não estar interessado/a na Amazônia, mas ela está interessada em você. A trágica realidade que vive a Amazônia hoje desafia cada um/uma de nós a intervir na realidade social, a criar novas relações de cura pessoal, entre as pessoas, a natureza e todo o cosmos.
  • A Amazônia é mais falada que conhecida, mais discutida do que vivida. Mais mito que realidade. Faz-se necessário buscar o significado mítico das águas, florestas, herança da cultura regional e fonte de vida.

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