Manter a esperança em tempos de crise

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Analisando minha experiência missionária nos Camarões depois de quatro anos, posso dizer que duas realidades me marcaram profundamente. De um lado a violência causada pelo grupo terroriste Boko Haram, de outro lado os recentes conflitos na região anglófona do país que desencadeou uma verdadeira guerra civil. Resumindo, a experiência em um país em guerra tem marcado profundamente minha experiência missionária.

Como vivo na capital do país, Yaoundé, posso dizer que não sinto minha vida ameaçada, porém, é impossível não perceber que vivemos tempos difíceis por aqui. Os grandes impacatos são visíveis na relação com as pessoas, sobretudo quando as partilhas de vida são carregadas de tristeza, medo e insegurança. De outro lado, as estruturas mostram o impacto da guerra sobre o país. Como consequência, temos o paradoxo entre a riqueza e a pobreza, entre a beleza e a destruição e entre a vida e a morte.

IMG 4564Entre angústias e tristezas, as lições de vida do povo camaronês enchem meu coração de alegria, sobretudo quando a esperança se torna a grande motivação para continuar lutando e acreditando em dias melhores. Mesmo com todos os problemas causados pelos conflitos, percebemos uma vontade de viver que faz a vida renascer a cada dia. São simples gestos, porém carregados de amor, que nos encoraja e nos fortalece a continuar nossa missão sempre com alegria e entusiasmo.

Depois de quatro anos, percebi o valor do sorriso de uma criança que vem me abraçar para dizer obrigado. Depois de quatro anos aprendi a valorizar o alimento de cada dia sabendo que a maioria das pessoas por aqui se alimentam uma vez por dia. Depois de quatro anos aprendi a importância da solidariedade descobrindo que por aqui todos partilham, mesmo não tendo quase nada. Depois de quatro anos muita coisa mudou, sobretudo a maneira de olhar o mundo que agora é mais cheia de amor, de esperança e acima de tudo de gratidão.

Nesse ano de 2019 tenho vivido uma experiência muito profunda nos trabalhos pastorais que realizo. Nas quartas-feiras me encontro com uma comunidade eclesial de base onde partilhamos o Evangelho e as experiências vividas durante a semana. São momentos fortes de escuta e de aprendizado. Nos sábados trabalho em uma casa de acolhida para adolescentes em situação de risco. Oferecemos uma formação humana e espiritual com o objetivo de ajudá-los a se reinserirem novamente na sociedade. No domingo participo da missa na prisão central de Yaoundé e depois aproveito para visitar os vários pavilhões da penitenciária, sobretudo onde estão os doentes. Confesso que é mesmo difícil de descrever as realidades que encontro cada domingo, realidades que provocam emoções, frustrações e acima de tudo muita dor.07 Die sheng le symbole supreme et representatif de la chefferie et du peuple Bandjoun

Por outro lado, a diversidade cultural e as belezas naturais dos Camarões encantam, porém falta muita boa vontade para mudar a situação atual que o país se encontra.Vivemos uma ditadura camuflada de democracia e a exploração continua sendo uma ferida aberta que prejudica o desenvolvimento do país e o futuro das pessoas, principalmente dos jovens.

Mesmo com a independência dos países africanos, percebemos que a África continua enrriquecendo alguns países enquanto o seu povo vive situações dramáticas e angustiantes. Os países que continuam explorando o continente são os mesmos que fecham suas fronteiras para não acolherem os imigrantes que vivem situações desumanas para chegarem até a Europa. Isso sem falar dos milhares que já morreram durante o caminho. Talvez a maioria dos imigrantes buscam simplesmente aquilo que um dia foi tirado deles pelos países que continuam o terrível processo de colonização e exploração.  

Mesmo diante de um cenário angustiante, a esperança renasce a cada dia no coração de um povo que está sempre lutando e reinventando, tentando encontrar novas saídas para os tempos de crise. Diante de tudo que já vivi e continuo vivendo, uma certeza renova meu espírito missionário a cada dia: vim evangelizar e acabei sendo evangelizado!

A quatro anos atrás eu começava a descobrir uma nova cultura e a viver um processo de inculturação que não foi tão fácil. Hoje estou muito feliz e também percebo que essa bela experiência está chegando ao fim. Com relação ao futuro, apenas coloco tudo nas mãos de Deus e estarei preparado para partir ou ficar. “Aonde mandar eu irei, seu amor eu não posso ocultar, quero anunciar para o mundo ouvir que Jesus é o nosso Salvador”

Marcelo Ávila, missionário nos Camarões