Experiência missionária no Chade

Entre os meses de julho a setembro tive a alegria de vivenciar uma bela experiência missionária no Chade, país localizado no coração da África. Normalmente, a descoberta de um outro país e de uma outra cultura é sempre algo fascinante e desafiador ao mesmo tempo. Si de um lado nós temos toda beleza representada tanto pela geografia como pela diversidade de povos e culturas, de outro lado essa descoberta revela também nossas fragilidades e limites. É por essa razão que entrar na cultura do outro exige respeito, acolhida e uma grande capacidade de aprendizado.

MARCELO4 copyO Chade é um país localizado no Centro-Norte da África que possui 75% de seu território coberto pelo deserto do Saara. O país possui fronteiras com a Líbia, Níger, Nigéria, Camarões, República Centro-Africana e com o Sudão. Mais de 200 grupos étnicos ocupam o território do país e a principal atividade econômica é a agricultura e a pecuária de subsistência. O país também é rico em petróleo e outros minerais. Como na maioria dos países africanos, a independência aconteceu somente em 1960.

Os missionários xaverianos chegaram no Chade em 1982 trabalhando inicialmente na diocese de Pala. Atualmente, os xaverianos continuam trabalhando na diocese de Pala, na capital do país, N’Djamena, e uma nova missão foi iniciada na prelazia de Mongo, região coberta pelo deserto do Saara.

Vivi minha experiência missionária na paróquia São João Evangelista de Gounou Gaya, região que abriga em sua maior parte a etnia Mussey. Além da etnia Mussey, encontramos também outras etnias que formam um verdadeiro mosaico cultural. No meio de tantos povos, me encantei particularmente pelos Mbororos, povos nômades que vivem na região saariana.MARCELO

Cheguei no Chade no período das chuvas e das cheias dos rios onde visitar as comunidades foi uma verdadeira aventura. Nesse período o trabalho no campo é intenso, sobretudo no cultivo de cereais que serão a base da alimentação no período da seca. Em determinados momentos é impossível chegar até as comunidades isoladas de caminhonete. Às vezes é preciso ir de moto, de bicicleta e mesmo caminhando. Em alguns lugares é preciso entrar na água ou atravessar o rio em pequenas canoas. Isso sem falar dos pequenos acidentes aos quais estamos expostos cada vez que visitamos as comunidades. Com a cheia dos rios aumenta também o risco de ataques de hipopótamos. Mesmo diante de algumas difículdades, existe sempre a preocupação com os povos isolados. Uma vez que as chuvas terminam, a seca se estenderá por um período de oito meses.

A Igreja do Chade é uma Igreja jovem e por essa razão o primeiro anúncio e a catequese são as grandes prioridades pastorais. A convivência com os mulçumanos é outro aspecto importante da pastoral, sobretudo na dimensão do diálogo inter-religioso considerando que a maior parte da população é muçulmana.

A experiência no Chade me ensinou a importância das coisas simples que muitas vezes ignoramos. Um sorriso, um olhar carinhoso, um gesto de acolhida e de respeito podem fazer a diferença. Mesmo falando poucas palavras, consegui me aproximar de culturas que ainda são um pouco fechadas ou isoladas. Foi o que aconteceu com os Mbororos. Pelo simples fato de cumprimentá-los sempre com alegria e respeito, deixei de ser um extrangeiro e me tornei um amigo.MARCELO3 copy

Partilhar a vida simples do povo chadiano encheu meu coração de alegria. A simplicidade, a acolhida calorosa, as celebrações vivas e alegres despertaram ainda mais meu espírito missionário. Foram dois meses vividos com muita intensidade, sobretudo na relação próxima com as pessoas e na disponibilidade de servir e ajudar onde fosse preciso. Quando chegávamos cansados nas comunidades depois de termos percorrido quilômetros, a acolhida das pessoas refletia a alegria de um povo ancioso para ouvir a Palavra de Deus. Nesses momentos o cansaço dava lugar a uma alegria profunda onde era possível contemplar o Evangelho sendo anunciado e acolhido.

Enfim, a vida missionária é cheia de surpresas. A cada nova experiência um novo aprendizado que fica para a vida. No mês em que a Igreja celebra o mês missionário extraordinário, esta experiência partilhada não deixa de ser um convite, sobretudo aos jovens, para não terem medo de responder sim ao chamado de Deus. A messe é grande e os operários são poucos! E a todos os batizados fica o convite para fazerem uma redescoberta fascinante: pelo batismo nós participamos da missão do Cristo, ou seja, somos chamados a sermos discípulos missionários, “batizados e enviados”.

Marcelo Ávila (Missionário Xaveriano).