175 ANOS DO APOSTOLADO DA ORAÇÃO

  • ELIZETE DA APARECIDA TOLEDO
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Em 2019 o Apostolado da Oração completa 175 anos.

 O AO nasceu em 1844, numa casa de formação de jovens jesuítas, em Vals, no sul de França. O P. Francisco Xavier Gautrelet, sj, diretor espiritual destes jovens, propôs‐lhes um modo de ser apóstolos e missionários na sua vida corrente, unindo‐se a Cristo em tudo o que faziam durante o dia. O contexto desta proposta surge a partir de uma situação muito concreta: os sacerdotes que realizavam o seu ministério como missionários em terras longínquas, em particular em Maduré, no sul da Índia, ao regressarem à pátria, em visita, passavam pelo seminário onde se tinham formado. Com naturalidade e entusiasmocontavam aos jesuítas mais jovens os seus trabalhos e aventuras, tantas pessoas e situações necessitadas do Evangelho.

Escutar as narrações de fervor e ação missionária entusiasmava‐ os, mas também causava tristeza e desânimo nos jovens estudantes de Vals, ao constatarem que ainda lhes faltava muito para serem ordenados sacerdotes e receberem uma missão: os estudos tornavam‐se intermináveis, os exames áridos, os tempos de convívio pura perda de tempo, as orações rotina, os apostolados pouca coisa. Buscavam consolação dedicando horas na biblioteca a ler livros sobre a Índia, com o consequente descuido nos estudos. O P. Gautrelet far‐lhes‐á então uma proposta que lhes permitirá encontrar um novo sentido no meio das frustrações que experimentavam. Na missa de 3 de dezembro de 1844, Gautrelet explica que S. Francisco Xavier entregou a sua vida seguindo a Jesus Cristo, e que celebrá‐lo hoje implicava fazer a mesma coisa.

Francisco Xavier chegou até às portas da China e passou muitas tribulações, movido pelo seu amor apaixonado a Jesus. Hoje, nas próprias circunstâncias, cabe realizar a mesma missão cristã mas aqui, na casa de formação de Vals, e não no longínquo Oriente. Era a mesma eleição, o mesmo chamamento de Jesus, o mesmo amor apaixonado, a mesma missão, mas com tempos e formas diferentes. Convidava a todos – estudantes e professores, seus dirigidos ou não – a ser missionários aqui e agora através da simples oferenda a Deus de tudo o que faziam, esforçando‐se por serem disponíveis a Cristo, para cumprir bem as suas obrigações de cada dia. No caso dos jovens, deviam, antes de mais, cumprir bem o seu dever de estudantes. Ao propor‐lhes praticar o que ele chamou um "apostolado da oração", o P. Gautrelet fê‐los entender que mais importante do que aquilo que faziam, era o amor e a dedicação com que o faziam.

Não era fazer muito o que importava, mas sim o amar muito. Deviam oferecer a Deus com amor os seus afazeres diários, disse‐lhes, e uni‐los a Cristo que continuava a oferecer a sua vida pela salvação da humanidade. Fê‐los entender que as suas vidas eram tão válidas e tão úteis para a missão da Igreja quanto as vidas dos missionários mais sacrificados, se eles as viviam com o mesmo amor. As suas vidas seriam tão apostólicas quanto as dos mais fervorosos pregadores, se vivessem cada pequena coisa unidos ao Coração do Senhor. O que importava era a atitude interior de querer renovar o seu amor por Jesus e fazer nova, cada dia, a sua disponibilidade e entrega da vida. Era o amor do Coração de Jesus que os tinha escolhido, dizia‐lhes, e deviam responder‐Lhe estando dispostos a cumprir o que Ele lhes pedia agora e a corresponder com generosidade a tanto bem recebido. A prática concreta que o P. Gautrelet lhes sugeria para manter vivo este espírito era uma oração de oferecimento do dia, ao início da jornada. Declarariam com ela a sua decisão e disposição de que todo o dia fosse para o Senhor. Convidava‐os a ter como centro, cada dia, a disposição da própria vida na vontade divina, depois de tirar de si todas as afeições desordenadas, para a salvação da alma, como tinham aprendido nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio (EE 1). Aquilo que então se chamou o Apostolado da Oração mostrar‐lhes‐ia um caminho que os ajudaria a tornar realidade a ideia de buscar e encontrar a Deus em todas as coisas, mesmo as mais simples e prosaicas, para em tudo amar e servir (EE 233).

Em síntese, o AO propunha‐lhes o exigente e apaixonante caminho de viver em permanente disponibilidade apostólica por amor do Senhor. Renovariam em cada dia o sim que tinham dado ao Senhor nos Exercícios Espirituais, pedindo novamente a graça de responder com toda a generosidade ao chamamento do Rei Eterno. Isto deu aos jovens jesuítas um novo entusiasmo nos afazeres quotidianos que antes lhes causavam aborrecimento. Entenderam que, com os seus esforços e gestos de cada dia, podiam expressar o seu amor terno e pessoal a Jesus e que, através deles, estavam a responder à missão para a qual Ele os chamava. Sentiam‐se dispostos a fazer por Ele qualquer sacrifício.

Queriam de verdade ser bons missionários para o seu Senhor, agora e no futuro. O exercício quotidiano da oração de oferecimento permitiu‐lhes, além disso, entender a unidade desta prática com a oferenda de Jesus ao Pai, que tornavam presente cada manhã na Eucaristia. Compreenderam que a oferenda dos seus corações era, de certo modo, uma oferenda eucarística, como toda a vida de Jesus o fora e misteriosamente continuava a ser. Jesus amou‐os "até ao extremo", dando a vida por eles, e isto tornava a fazer‐se realidade para eles na Eucaristia. Queriam que os seus corações se assemelhassem ao Coração de Jesus, e era precisamente este o conteúdo do que pediam: ter corações eucarísticos como o de Cristo, quer dizer, corações (e vidas) oferecidas a Deus e entregues pelos outros. As suas vidas uniam‐se a esta realidade misteriosa e profunda, ajudados pela simples oração de oferecimento que faziam cada manhã. Entenderam que viver cada dia este modo de oferecer as suas vidas era um verdadeiro apostolado. Sonhavam ser missionários e dar a vida por Jesus. Agora era‐lhes muito claro que não tinham que esperar até ao final da sua formação, da sua ordenação sacerdotal, ou ser enviados para terras longínquas para começar a ser apóstolos e colaboradores da missão de Cristo. A entrega radical por Jesus podiam‐na tornar realidade desde já, na fidelidade às tarefas simples de cada dia, em particular os estudos. Esse era precisamente o seu apostolado, o que lhes cabia nesse momento, como estudantes em formação para o sacerdócio. Um apostolado silencioso, humilde, mas importante e efetivo, pois em Cristo uniam‐se espiritualmente a toda a missão da Igreja e colaboravam, com o seu sacrifício e entrega quotidianos, no sustento dos trabalhos desses missionários espalhados pelo mundo. Os jovens jesuítas também estabeleceram a ligação entre a oração de oferecimento que faziam pela manhã com a sua oração de exame à noite. No final do dia, a oração do exame permitia‐lhes reconhecer e agradecer o que Deus tinha feito nas suas vidas com o que Lhe tinham oferecido pela manhã. Estes dois momentos de oração, de manhã e à noite, tornavam‐nos mais disponíveis à ação de Deus neles, durante todo o dia, e mais atentos a deixar‐se guiar por Ele.

Estas práticas e o nascente Apostolado da Oração difundiram‐se entre os cristãos da região circunvizinha de Vals, começando pelos camponeses que os jovens jesuítas visitavam nos fins de semana. Estes também foram convidados a colaborar na missão de Cristo, vivendo em fidelidade ao Evangelho e oferecendo os seus trabalhos, sofrimentos e a sua oração pela Igreja. Também eles podiam ser apóstolos. Em pouco anos, esta nova proposta de vida tinha‐se difundido em todo o país, e fora dele, chegando a ter milhões de aderentes. Formaram‐se grupos do AO nas paróquias e instituições católicas, criou‐se uma estrutura bem definida de Diretores à cabeça da nova associação em cada Diocese, os bispos encarregavam‐se de assegurar a sua vitalidade.

O AO passou a ter, em muitos lugares, a forma visível e estruturada de um Movimento eclesial. Também se propunha o AO sem necessidade de pertencer a estes grupos específicos, pois todos os cristãos eram convidados a viver o seu espírito e a seguir as suas práticas simples. Estes dois modos de viver o AO estavam presentes desde os seus inícios. Canonicamente foi considerado, pouco tempo depois, uma pia associação de fiéis. A prática do AO dava aos seus seguidores um novo sentido ao esforço e rotina de cada dia. A monótona vida quotidiana podia agora ser oferecida a Deus como um modo de colaboração com Cristo na missão da Igreja. Dito de outro modo, o AO dava‐lhes meios para viver o próprio batismo na simplicidade da vida quotidiana e participar no sacerdócio de toda a Igreja, muito antes que se falasse da vocação batismal ou do sacerdócio comum dos fiéis. No período entre o ano 1890 e 1896, o Papa interessou‐se por fazer sua esta imensa rede de católicos que ofereciam as suas vidas e a sua dedicação para apoiar espiritualmente a missa da Igreja. Assumiu‐a como uma obra própria do Papa e confiou‐a à Companhia de Jesus, na pessoa do Padre Geral. Além disso, desde essa altura começou a confiar ao AO uma intenção mensal de oração que expressava uma preocupação sua e pela qual pedia orações a todos os católicos.

A partir de 1928, acrescentou‐se uma segunda intenção de oração, de modo que o AO receberia do Papa duas intenções de oração para cada mês e se encarregaria de difundi‐las por todo o mundo católico. Foram chamadas Intenção Geral e Intenção Missionária.   Orar com estas intenções por temas mundiais da sociedade e da Igreja, de modo especial pelos chamados “países de missão”, abria os horizontes de todos esses cristãos a dimensões universais. Além disso, fortalecia o seu sentido de pertença à Igreja, sentiam‐se apóstolos escolhidos por Jesus para colaborar com Ele, sentindo que as suas vidas simples se tornavam úteis para sustentar a missão da Igreja. O enunciado dos temas propostos pelo Papa ano após ano evoluiu até aos nossos dias. Hoje verificamos que uma boa parte das intenções de oração manifestam a preocupação da Igreja universal pela paz e pela justiça no mundo. Orar por elas coloca os cristãos, mês a mês, diante dos grandes desafios e necessidades da humanidade, pelos quais são convidados a comprometer as suas vidas em oração e em serviço.

A atualidade das raízes histórias do Apostolado da Oração:

  • O AO é, antes de mais, uma ajuda para concretizar, desenvolver e manter uma atitude diária de disponibilidade apostólica, através do oferecimento da própria vida.
  • O AO é uma proposta que ajuda a unir a vida quotidiana com a missão que Deus tem para cada um, em docilidade ao seu Espírito. É reconhecer que o coração de cada cristão é um terreno fértil para o chamamento e compromisso com a missão de Cristo Ressuscitado.
  • As práticas do AO apontam para o cultivo de uma relação pessoal e afetiva com Jesus através da oração, reconhecendo o dom de Deus e exprimindo o desejo de lhe responder com generosidade.
  • Estas práticas, com o seu caráter simples, são acessíveis a todos, independentemente da sua cultura, nível socioeconómico ou experiência religiosa, mais ou menos profundamente esclarecida.
  • O AO configura a vida numa dinâmica eucarística, ou seja, articula Eucaristia, Igreja e missão de um modo compacto e inseparável, tal como estas se dão unidas no Coração de Jesus. Ensina‐nos a fazer da vida Eucaristia, a servir a Igreja, a entender a vida em chave de missão.
  • O AO nasce profundamente unido à missão da Igreja e à contemplação dos problemas do mundo, que em pouco tempo se concretizaram na oração pelas Intenções da Igreja e do Papa. Orar por estas intenções não se reduz a uma prática privada e íntima, mas põe‐nos em comunhão com muitos outros em todo o mundo e questiona o nosso próprio estilo de vida, convidando‐nos a ajustarmo‐nos melhor ao Evangelho e a trabalhar pela justiça do Reino. Orar com o AO compromete‐nos a atuar segundo aquilo por que se está a rezar.
  • Assim, o AO configura a vida numa dinâmica eucarística, ou seja, articula Eucaristia, Igreja e missão de um modo compacto e inseparável, tal como estas se dão unidas no Coração de Jesus. Ensina‐nos a fazer da vida Eucaristia, a servir a Igreja, a entender a vida em chave de missão.
  • O AO nasce profundamente unido à missão da Igreja e à contemplação dos problemas do mundo, que em pouco tempo se concretizaram na oração pelas Intenções da Igreja e do Papa. Orar por estas intenções não se reduz a uma prática privada e íntima, mas põe‐nos em comunhão com muitos outros em todo o mundo e questiona o nosso próprio estilo de vida, convidando‐nos a ajustarmo‐nos melhor ao Evangelho e a trabalhar pela justiça do Reino. Orar com o AO compromete‐nos a atuar segundo aquilo por que se reza.

FONTE: Secretariado Intenacional do Apostolado da Oração. Roma - Itália. https://www.popesprayer.va/