Skip to main content
Faça uma doação

Faça uma doação

Os Missionários Xaverianos não dispõem de nenhuma receita a não ser o nosso trabalho evangelizador e as doações dos amigos benfeitores. O nosso Fundador, São Guido Maria Conforti, quis que confiássemos na Providência de Deus que nunca deixa desamparados seus filhos. Invocamos sobre você e sua família, por intercessão de São Guido Maria Conforti, as bênçãos de Deus.
Atenciosamente,

Redação da Família Xaveriana


Deposite uma colaboração espontânea:

Soc. Educadora S. Francisco Xavier
CNPJ: 76.619.428/0001-89
Banco Itau: agência 0255, conta corrente:27299-9
Caixa Econômica ag. 0374, conta corrente: 2665–3

Artigos

Padre Sávio: discípulo e mestre da missão


“Uma missão sem compromisso que não se aproxima das vítimas por receio de sujar as mãos ou a barra da túnica, não serve, melhor não a fazer”.

Por Jaime C. Patias *

Fez a sua Páscoa no dia 7 de março de 2024 em Parma na Itália, o padre Sávio Corinaldesi, aos 87 anos. Gostaria de deixar o meu testemunho sobre esse grande missionário Xaveriano, o qual tive a graça de conhecer e trabalhar na Equipe das Pontifícias Obras Missionárias (POM) em Brasília (DF), durante três anos (2012-2014). Com a mesma idade do Papa Francisco, padre Sávio era um “evangelho vivo” com páginas de sabedoria abertas nas melhores rubricas do Verbo encarnado. Nele, tudo era missão e nada era planejado ou realizado sem o horizonte da missão. Cultivava um estilo de vida simples que por si só comunicava a essência do Evangelho: o amor a Deus e ao próximo.

Contava que sua vocação missionária nasceu quando era seminarista do seminário menor, na diocese de Iesi, província de Ancona (Itália), onde missionários italianos passavam pela casa e falavam das missões. Seu interesse aumentou com os retiros e leituras sobre a Evangelização feita pelas congregações no mundo. Ao terminar o segundo ano de teologia, decidiu passar do seminário diocesano para a comunidade dos Xaverianos em Parma, onde fez o noviciado e concluiu os estudos.

Mergulhar na realidade do povo

savio4

Após a ordenação em 1961, trabalhou na Espanha por seis anos, na Animação Missionária dos seminários a serviço das POM. Sua trajetória mostra profunda sintonia entre fé e vida, espiritualidade e missão, teoria e prática. Em sua chegada ao Brasil em 1968, praticou o principal fundamento da missão: mergulhar na realidade do povo. Foram 24 anos de apostolado na prelazia do Xingu e nas dioceses de Belém e Abaetetuba (PA), lugares por ele considerados uma escola de vida. “Com o tempo, me convenci de que, o que eu tinha para ensinar não era maior do que a riqueza que o povo possuía para me oferecer”. Ocupou também, o cargo de superior dos Xaverianos da Amazônia e foi secretário executivo do Regional Norte 2 da CNBB (Pará e Amapá).

Sua vivência em missão encarnada prosseguiu como mestre de animação e formação missionária junto ao Centro de Formação Intercultural (Cenfi) e Centro Cultural Missionário (CCM), nas POM e organismos da CNBB em Brasília. Todas as suas ações eram motivadas pelo sonho de ver a Igreja no Brasil se tornar cada vez mais missionária. E, sem dúvida, seus esforços contribuíram decisivamente para isso.

Em sua metodologia, a reflexão nascia da prática que, por sua vez, inspirava novas reflexões e processos voltados ao compromisso com a missão. Nas POM, além de assessorar cursos e formações pelo Brasil, escrevia artigos e produzia subsídios, entre os quais as Novenas Missionárias para a Campanha do mês de outubro realizada em todas as dioceses. Com o passar dos anos, apesar da idade e limitações físicas, utilizava as novas tecnologias para organizar apresentações, mostrar vídeos e imagens de estímulo às reflexões.

O local e o universal da missão

Atento ao novo e sempre em busca de respostas aos desafios, investiu na formação de lideranças e na organização das instâncias de animação e cooperação missionárias, sem ficar restrito ao local, mas com um coração aberto à dimensão universal da missão. Padre Sávio observava que a ideia da missão além-fronteiras na Igreja no Brasil, inicialmente, não foi bem aceita. Não havia muita abertura. Mas, em documentos da CNBB e do magistério da Igreja, havia colocações marcantes sobre o tema. O Documento de Aparecida 2007 (nº 365) alertou para não cair na armadilha de pensar que a missão termina nos limites da Igreja local. Não cansava de repetir um dos fundamentos da teologia da missão: “A Igreja é, por sua natureza e identidade, missionária” e “as missões ad gentes não são algo facultativo para a Igreja local, mas fazem parte constitutiva de sua responsabilidade”. Recordava as palavras do saudoso dom Luciano Mendes de Almeida que, em um retiro para os Xaverianos, observou: “os missionários estrangeiros não teriam cumprido com sua missão no Brasil porque foram ótimos missionários, mas não souberam ensinar os brasileiros a serem missionários além-fronteiras”. Por isso insistia tanto na abertura da Igreja local à missão universal.

Uma Igreja samaritanasavio3

Um valor muito presente na vida do padre Sávio era a opção pelos pobres. Manifestava preocupação com certas tendências e atitudes. “A nossa Igreja esqueceu que deve ser samaritana. Voltou a prestigiar os sacerdotes e os levitas que rodeiam nossos altares e povoam nossos templos (cfr. Lc 10, 25-37). Uma Igreja de ritos, cultos, cerimônias, muito incenso que nada tem a ver com Jesus Cristo. Em um mundo que criou o café descafeinado, o cigarro sem nicotina, o leite desnatado... nós inventamos a missão ‘sem saída’, o envio ‘sem destino’. Uma missão que não se aproxima das vítimas por receio de sujar as mãos ou a barra da túnica. Uma missão descompromissada assim, não serve mesmo, melhor não a fazer”.

Para mudar esse quadro, padre Sávio acreditava no trabalho das POM focado na formação e em práticas de missão, com atividades junto às novas gerações, como a Infância e Adolescência Missionária (IAM), a Juventude Missionária (JM), os Conselhos Missionários de Seminarista (Comise), mas também os idosos e enfermos, as famílias, as lideranças nos Conselhos Missionários Regionais (Comire) e, ainda, junto aos cursos promovidos pelo CCM para diversos grupos. Apostava no papel do Conselho Missionário Nacional (Comina) e em sua articulação pelos  regionais da CNBB, dioceses, congregações e organismos como a Conferência dos Religiosos (CRB), o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e a Comissão Missionária da CNBB, entre outros. Atualmente, essa dinâmica, apesar das dificuldades e desafios, continua firme e a dar frutos.

Formação dos seminaristas

Quando eu cheguei às POM em 2012, além de cuidar da comunicação, tive a responsabilidade de herdar, do padre Sávio, o cargo de Secretário Nacional da Pontifícia União Missionária, obra encarregada pela formação missionária dos seminaristas, do clero e da vida consagrada. Era visível a experiência de Padre Sávio em quase todos os setores. Começou com a obra da IAM em 2002, passou pela juventude, seminaristas e presbíteros, chegando até os idosos, enfermos e famílias. Em todos esses grupos ele havia acendido a chama da missão.

Em continuidade aos trabalhos, viu-se que a atuação com os seminaristas enfrentava algumas dificuldade, pois era difícil entrar nos seminários e casas de formação para falar sobre a missão. Então, com a ajuda dos Comires e a persistência na concretização do sonho do padre Sávio, foram criados os Conselhos Missionários de Seminaristas (Comise). A iniciativa ganhou corpo e se espalhou por todos os regionais da CNBB. Os congressos missionários de seminaristas (2010, 2015, 2019 e 2022) as formações nacionais e regionais (Formise), juntamente com as experiências de missão impulsionaram a caminhada. Hoje os seminaristas participam da animação missionária da Igreja e temos presbíteros mais sensíveis com a missão. Isso aconteceu e continua a frutificar graças à semente lançada pelo padre Sávio.

A missão ou cresce ou desaparece

Ao final de 2014, padre Sávio encerrou 13 anos de serviço junto às POM e voltou a Belém do Pará. Diagnosticado com o mal de Parkinson, quando vinham tremores e movimentos involuntários, costumava brincar: “Eu sou um padre tremendo”. Após incansáveis 46 anos de missão no Brasil, em 2015 retornou à Itália, onde passou a viver no Quarto Andar da Casa Mãe dos Xaverianos na cidade de Parma, com cerca de 60 confrades.

Em 2017 tive a oportunidade de visitá-lo e, com ele, partilhar o crescimento dos trabalhos da Pontifícia União Missionária. Na sua lucidez, padre Sávio soltou a pérola: “Fico feliz em saber dos avanços sobretudo no trabalho com os seminaristas. A missão ou cresce ou desaparece. Não existe uma missão estagnada. O perigo que corremos é de pensar somente nos nossos quintais. Gostaria que, na missão, considerássemos não somente o anúncio da fé, mas também o testemunho da caridade, da solidariedade com os povos mais necessitados. Se conseguíssemos comunicar o amor e a misericórdia de Deus ao mundo, isso já seria o suficiente”.

Produzir frutos mesmo pregados numa cruz

Os diálogos com o padre Sávio eram experiências humanas e divinas a tocar o coração de seus interlocutores. Sintonizava, como poucos, vida e experiência em Deus. Vale recordar o que disse, em 2015, ao se despedir do Brasil: “O meu presente e meu futuro estão nas mãos do meu parceiro, o Dr. Parkinson, que vai tomando posse de mim, cada vez mais arrogante e exigente. Ele pensa que vai me ganhar, mas o coitado ignora que nós pertencemos a uma raça de pessoas que, pela graça de Deus, produzem frutos também quando pregadas numa cruz” (SIM - jan/mar 2015).

Na comunidade de Parma, o padre Sávio viu a pandemia de Covid-19 levar alguns dos seus colegas, contudo ele foi poupado. “Estou vivo, pela misericórdia e graça de Deus”, disse-me certo dia em uma chamada telefônica. Padre Sávio, “pregado em sua cruz”, faz-nos entender como é possível ser útil mesmo doente, idoso ou fisicamente limitado. No silêncio e na oração, permaneceu fiel à missão, a única razão de sua vida até a Páscoa definitiva. Ele, que perseverou até o fim, receba a coroa dos justos e interceda por nós e pelas necessidades da Igreja e do mundo.

* Pe. Jaime Carlos Patias, missionário da Consolata, diretor do Secretariado para a Comunicação IMC.


Artigos relacionados

Artigos
A Igreja no Brasil vai celebrar, no período de 26 de novembro de 2017, Solenidade de Cristo Rei, à…
Artigos
Deus confia ao homem “o Cultivo e a guarda da Criação” (Gn 2, 15). Vendo que tudo o que tinha…
Artigos
Pe. Tomaz Hughes, svd, faleceu dia 15 de maio de 2017. Dias antes, mesmo debilitado, escreveu seu ú…
Artigos
Os primeiros quatro Missionários Xaverianos chegaram ao Brasil em 27 de junho de 1953, desembarcand…