O missionário embaixador da esperança

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Quando fazemos uma análise de conjuntura das grandes transformações que marcam o contexto em que vivemos, não é difícil de perceber uma grande inversão de valores ou uma grande crise em todos os níveis da sociedade. Como as mudanças acontecem de uma maneira muito rápida, as respostas para os grandes problemas são insuficientes para informar, educar e orientar. Quando estamos tentando compreender os impactos de uma mudança, outras começam a surgir dificultando o processo de compreensão que cada mudança comporta. Toda mudança é acompanhada de fatores culturais, históricos, antropológicos, sociais etc.

Couv Rhumsi 660x400Diante de todos esses desafios, muitas vezes o missionário se encontra exposto a realidades que exigem uma grande capacidade de compreensão, sobretudo quando ele é enviado em um contexto cuja cultura possui elementos não tão fáceis de assimilar ou compreender. Nesse sentido, o processo de inculturação é fundamental para a missão. Antes de evangelizar é preciso se inculturar. O missionário que não se incultura corre um grande risco de distanciar-se do povo e de si mesmo. Quando isso acontece, ele acaba anunciando suas convicções pessoais e impondo seu modo de ser e fazer. O missionário nunca deve esquecer-se que a missão é de Deus e ele é um simples colaborador.

É por isso que o missionário deve se converter em um embaixador da esperança, um embaixador que testemunha e anuncia os valores do reino de Deus em um mundo em transformação. Como embaixador da esperança, a missão que ele realiza deve adquirir quatro dimensões: a opção preferencial pelos pobres, o diálogo, a conversão e a certeza que a missão é antes de tudo obra de Deus, iniciativa de Deus. Todas essas quatro dimensões estão relacionadas com as transformações que caracterizam o contexto em que construímos nossas relações.

Para compreender a importância da opção preferencial pelos pobres basta olhar para o abismo social que caracteriza nossa sociedade. Situações de pobreza e miséria, desemprego e falta de oportunidades, a situação dramática dos refugiados e imigrantes, as migrações forçadas, guerras etc. Os exemplos não faltam para evidenciar que a opção preferencial pelos pobres constitui uma dimensão fundamental para a missão. O missionário que não se abre a essa dimensão corre o risco de afastar-se daqueles que mais precisam da luz do Evangelho. A opção preferencial pelos pobres não exclui aqueles que se encontram em melhores condições, porém ela é preferencial na medida em que o missionário prioriza as realidades mais desafiadoras ou esquecidas.15871952 1194036614007866 9109170795931594090 n

Com relação ao diálogo, é importante reforçar que a construção da paz no mundo só será possível quando o diálogo se tornar uma das prioridades não somente das religiões mas de todas as pessoas de boa vontade. Essa dimensão valoriza profundamente o diálogo ecumênico, inter-religioso e também a pluralidade de religiões. Não podemos mais olhar para os outros como concorrentes ou inimigos. Somos todos irmãos independente de nossas opções religiosas. Sem o diálogo, corremos o risco de fazermos caminho solitário uma vez que ele é capaz de nos fortalecer na busca pela paz e pela dignidade da pessoa humana.

Essa capacidade de diálogo nos coloca em uma atitude permanente de conversão, conversão entendida como capacidade interior de abertura e acolhida. A missão como conversão coloca o missionário em uma atitude de escuta, de saída em busca daqueles que precisam da misericordia de Deus e acima de tudo de respeito em relação ao outro. O missionário que faz a experiência da conversão é aquele que é capaz de retornar ao essencial, que redescobre que sua missão é um prolongamento da missão de Jesus. Como consequência, sua atividade missionária se converterá em testemunho e radicalidade de vida.

Enfim, a missão como iniciativa de Deus exige do missionário uma capacidade de ‘morrer’, ‘morrer’ diante de suas convicções, de sua maneira de impor, das suas exigências etc. O missionário deve entrar na lógica de João Batista ‘que ele cresça e que eu diminua (Jo 3,30)’. Ser missionário é saber fazer-se pequeno e humilde para que os valores do reino de Deus sejam anunciados como propostas de vida e salvação. Não existe mais espaço para o missionário conquistador, héroi, dono da situação etc. Hoje não passamos de colaboradores e não somos os protagonistas da missão.37

Assimilando essas quatros dimensões, o missionário será capaz de se tornar um embaixador da esperança em um mundo caracterizado por uma forte expressão de egoísmo, individualismo e indiferença. Ser embaixador da esperança é testemunhar com gestos e palavras que é possível acreditar na construção de um mundo melhor e mais humano. Ser embaixador da esperança é transformar realidades sendo um verdadeiro instrumento de paz na lógica de São Francisco de Assis.  

Marcelo Ávila, sx. (Missionário em África)