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Fazer do mundo uma só familia

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Xaverianos

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Revista Digital N. 2 abril 2025

Vida xaveriana

Mais três portas

  • Pe. Alfiero Ceresoli s.x.
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Durante os quase 67 anos de vida de São Guido, o ano jubilar foi celebrado por duas vezes, em 1900 e em 1925.

Quando Guido Maria Conforti nasceu, em Casalora (30 de março de 1865), as portas do Vaticano permaneciam fechadas e o Papa, declarando-se prisioneiro do Reino de Itália, nem mesmo chegava à janela! O exército de Garibaldi e do Reino de Piemonte estavam às portas de Roma. Entraram naquela cidade em 20 de setembro de 1870, determinando o fim do poder temporal dos Papas. Será preciso esperar 75 anos, de Leão XII a Leão XIII, para a celebração de um ano santo.

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O Papa Leão XIII indicou o ano santo para celebrar o final do século. É significativo o incipit da bula de indicação: Prosperante ad Exitum Saeculo! de 11/05/1899. Não era celebrado o início do século, mas o fim. Como para dizer que, finalmente, a diatribe entre a Igreja e o estado estava caminhando para o fim. Nos escritos de Conforti não encontramos menções importantes a este ano. Ele tinha ido a Roma imediatamente após a sua ordenação sacerdotal, nos últimos dias de novembro de 1888. Para Guido, o jubileu era a conquista da ordenação sacerdotal.

A abertura da porta da Basílica de São Pedro tinha adquirido também significados políticos. O diálogo com o governo italiano tinha começado, embora passarão 29 anos antes de se chegar a um acordo entre o Vaticano e o Governo Italiano, com os Pactos de Latrão. Porém, a porta havia sido aberta! O Reino de Itália pagaria todas as despesas de organização das celebrações jubilares e os católicos comprometiam-se a colocar grandes cruzes no alto das montanhas de cada região.

Temos dois documentos de Conforti como bispo de Parma: a homilia do Natal de 1924 e uma breve carta pastoral à diocese, de 10 de dezembro daquele mesmo ano. Percebe-se facilmente, nos dois textos, as características confortianas.

Além das práticas que todos conhecemos e que o Bispo pontualmente elenca, o jubileu pede um gesto de fé e de caridade: Conforti indica:

E permitam, irmãos e filhinhos diletíssimos, que eu indique por isto à vossa piedade e generosidade duas obras: uma, obra de fé, e a outra, de caridade, que não podem deixar de interessar vosso coração.

A obra de fé se realizaria ajudando o santuário de Fontanellato, em reforma naquela época. A obra de caridade seria ajudar os missionários xaverianos na China.

Por outro lado, peço a vossa atenção para os longínquos distritos da China, especialmente do Honan Ocidental, campo evangélico confiado aos cuidados de nossos Missionários, onde se morre de fome. As guerras internas que recentemente mudaram o aspecto daquele imenso território, e mais que tudo, a obstinada seca, que dura há muito tempo, provocaram a perda de duas colheitas. Como consequência disto e também por falta de comunicações fáceis, as populações do interior, após terem consumido todas suas reservas, agora foram reduzidas a lutar pelas necessidades mais urgentes da vida.

O orador continua, em mais de uma página, a lembrar as situações dolorosas da missão e dos habitantes daqueles territórios. Ele recorda as crianças, as viúvas e os anciãos, citando as cartas de nossos missionários e conclui, dizendo:

Irmãos e filhinhos diletíssimos, perdoai-me pela digressão e permita que vos diga que, se pela realização do S. Jubileu, levardes em conta de vossa caridade também os irmãos distantes, na China, que olham para vós com um coração cheio de confiança e de esperança, fareis obra grandemente meritória aos olhos do Senhor, o qual, nos livros inspirados, ensina que a caridade cobre uma multidão de pecados e faz encontrar misericórdia e perdão a seus olhos.

Neste texto encontramos a palavra que nos reconduz a uma verdade basilar do carisma xaveriano: irmãos! Certo, eles estão longe, mas são irmãos, nossos “irmãos da China”. A verdade da fraternidade universal ecoa repetidamente nas duas exortações sobre o Ano Santo. A peregrinação a Roma com certeza tem um caráter penitencial, mas, para São Guido, é sobretudo um sinal de fraternidade. De fato, os peregrinos caminham juntos e se encontram na mesma cidade e

Perante Ele, não haverá mais distinção alguma: todos sentiremos que somos irmãos, porque todos nós experimentaremos a santa felicidade de sermos filhos do mesmo Pai, que a todos sorri e abençoa.

Ele conclui as duas intervenções com o mesmo chamado à fraternidade:

Nesta hora obscura da vida social, nesta hora de ódio e de corrupção, queiram os Céus que o espetáculo imponente do mundo católico que, sem distinção de idiomas, cores, ou nacionalidades, unido em um só vínculo de fé e amor, se reúne ao redor do Pai comum, seja um poderoso chamado à fraternidade universal proclamada por Cristo, a única que pode assegurar a paz ao mundo, aquela paz que hoje os Anjos anunciam na manjedoura de Belém; aquela que consiste no restabelecimento da ordem com Deus, com os irmãos, com nós mesmos, e é prometida somente aos homens de boa-vontade, aquela paz que é prelúdio da paz eterna.

Na carta pastoral ao clero e ao povo de Parma, quinze dias antes:

Nos anos recentemente decorridos, depois de termos assistido ao espetáculo único de uma guerra mortal, cujas consequências ainda perduram, em um arrastar de ódios profundos, nos parecerá estarmos como que transportados em ar mais puro e de ouvir um poderoso chamado à paz, ao amor e à confraternização universal entre as pessoas, que dissipe as disputas e as lutas: então, todos nós sentiremos que somos irmãos, porque gozaremos da alegria santa de sermos filhos do mesmo Pai, que a todos sorri com paternal bondade e abençoa.

São Guido lança esta mensagem, verdadeiro “Evangelho”, com uma imagem simples, eficaz e também delicadamente fraterna, para quem pensasse de maneira diferente. No jubileu anterior, deu-se muita ênfase à abertura de uma porta, como que a dizer que, para encontrar Deus e sua misericórdia, seria necessário passar por aquela porta, a única, como enfatizavam muitos intransigentes. “Extra ecclesiam nulla salus”, era repetido e infelizmente ainda é repetido até hoje por alguns. No Natal anterior (1923), Conforti fizera uma leitura bem diferente. Falava-se, na época, do “Batismo de desejo”, ou de “pertencimento à alma da Igreja”. Não nos interessa a teologia à qual o santo se agarrava, mas torna-se significativa a alegria que ele sentia ao saber que irmãos não batizados podem ser salvos por caminhos e portas que apenas o Pai conhece.

Esta doutrina não apenas não é rejeitada pela opinião católica, mas está em conformidade com o conceito que devemos ter de Deus, de sua bondade e de sua justiça, e que responde às históricas condições humanas.  É uma sentença que expande o coração e que desfaz as dificuldades mais profundas que possam ser criadas e o são, por tantas pessoas. Esta doutrina enche de alegria a minha alma, faz bendizer a divina Providência e leva luz reconfortante ao destino de muitos milhões de irmãos que estão fora da Igreja.

Portanto, não uma única porta, mas muitas:

Na véspera deste dia feliz, o Sumo Pontífice, com toda a pompa das grandes cerimônias, que somente podem ser admiradas na Capital do mundo Católico, abrirá solenemente a Porta Santa da Basílica Vaticana, enquanto três Eminentíssimos Príncipes da Igreja, farão o mesmo nas Basílicas de São João de Latrão, de São Paulo fora dos muros, e de Santa Maria Maior, como que a indicar que todas as portas se abrem à misericórdia e ao perdão, e todas as vias se abrem ao arrependimento dos corações. E assim se iniciará o tempo do Santo Jubileu que, conforme a etimologia da palavra, significa júbilo, remissão, liberdade.

Todas as portas, todas as vias. Não é um maravilhoso programa de pastoral missionária? Certamente, é uma clara indicação para acolhermos toda pessoa como um irmão ou uma irmã e juntos:

Promover a justiça, a paz e a fraternidade universal; estabelecer um diálogo entre as religiões e culturas, para a missionaridade; favorecer e prezar a complementaridade; incentivar a dimensão social da evangelização.

Naturalmente, como nos diz o XVIII Capitulo Geral, além de:

Testemunhar em todo tempo e lugar, a boa nova do reino de Deus, que é Jesus Cristo, a quem não o conheça; viver a própria vida de modo missionário, empenhando-se, como São Guido M. Conforti, em ver, buscar, amar a Deus em tudo e em todos (CG XVIII 48).

Não sei se São Guido tinha conhecimento do filósofo Quindo Aurelio Simmaco (340 – 402). Um estudo que saiu há alguns meses, o trouxe de volta à minha memória. Um de seus textos mais conhecidos diz:

Olhamos as mesmas estrelas, o céu é comum, um mesmo universo nos agrega: que importa com qual doutrina cada um procura a verdade? Não se pode chegar a tão sublime segredo através de um só caminho.

Não é suficiente uma porta para encontrar aquele que “habita em luz inacessível” e conhecer e viver seu mistério, pelo menos três outros caminhos são necessários. Não seriam talvez as portas e as vias percorridas por aqueles que deram de comer e beber, visitaram e socorreram um desconhecido? (Cfr Mt 25,35-40).