Fazer do mundo uma só familia
Fazer do mundo uma só familia
Xaverianos
Xaverianos
No dia 11 de junho de 1902, Mons. Guido Maria Conforti se consagra a Deus com o voto de missão e recebe a consagração episcopal. Esta memória (bispo a 37 anos) vem me confirmar quanto grande era o apreçamento e a estima de sua personalidade e de sua ação pastoral, assim como, pelo contrário, não eram aceitas as propostas de vida e espiritualidade missionária, radicalmente evangélicas.
Para tentar conhecer com maior profundidade o carisma e o profetismo de São Guido Maria Conforti, creio seja útil celebrar os vários indeferimentos encontrados em sua vida e na aprovação/desaprovação de sua proposta constitucional. Pode parecer provocação, mas é a verdade histórica: as Constituições Xaverianas encontraram muitas reações negativas e, enfim, não foram aprovadas, pela autoridade competente, naquele tempo: a S. Congregatio super consultationibus regularium.
Obstruir por uma promoção
Já o primeiro bispo, Mons. Miotti, que havia prometido a Conforti de não obstruir seu caminho, na realidade tentou inclina-lo na direção de outras instituições, quando o nomeou cônego, pedindo-lhe que
“Com algumas instituições, provesse, de maneira especial, pelo bem dos jovenzinhos abandonados (...), para maior benefício da Igreja de Parma”.
O jovem Canônico (em 1892 tinha 27 anos), com esta nomeação e na indicação do Bispo, que falava em “benevolência”, vê os seus
Humildes projetos, objeto de todas as mais ardentes aspirações de meu coração, agora (pela nomeação a cônego) foram bastante atrapalhados. Tenho medo de que permaneçam eternamente no campo sereno dos ideais”.
Conforti sonhava criar uma “escola apostólica” sem fronteiras, para preparar anunciadores do Evangelho ao mundo inteiro, enquanto o Bispo, pelo contrário, propunha-lhe os limites de sua diocese. Mons. Miotti não se dera conta (não percebia?) de que aquele jovem padre estava propondo a algo novo, um panorama bem mais amplo do que a “Igreja de Parma”. No entanto, a novidade evangélica não é percebida pelo Bispo: o evangelho a todos os povos, não só na Igreja local, Parma.
Talvez para defender-se da proposta de fechar a sua obra na Igreja de Parma, Conforti dirigiu-se a Roma, diretamente ao Cardeal Mieczysław Halka Ledochowski (1822-1902), prefeito da Propaganda Fide, hoje Dicastério para a evangelização. Ledochowski respondeu à carta de padre Guido aprovando, com entusiasmo, o projeto do desconhecido jovem padre de Parma. Por força desta aprovação não-jurídica, mas com carta pessoal e confidencial, Conforti inicia sua obra e funda o Seminário Emiliano São Francisco Xavier (03 de dezembro de 1895).
Passam cerca de oito anos, nos quais alguns imprevistos se sucedem: Conforti é nomeado arcebispo de Ravenna (IT). Fica em Ravenna dois anos e a saúde o obriga a renunciar. Retira-se para a casa apostólica por ele criada, agora transformada em congregação religiosa com quatro votos (missão, pobreza, castidade e obediência): comunidade de consagrados a Deus para a missão. Dois missionários partem para a China, mas não têm continuidade. Quatro missionários estão prontos, mas devem esperar por quase dois anos.
Nos anos 1902 - 1904 a relação e o diálogo com a Propaganda Fide se tornam problemáticos. Talvez Propaganda não gostasse da recusa de Conforti de enviar missionários ao Brasil e à Suíça, para dar assistência aos imigrantes italianos. Seu carisma estava voltado aos não-cristãos e seu sonho era a China. Cansado de esperar, ele escreve:
Fundei o Instituto com a aprovação desta Sacra Congregação, animado sobretudo pelos incentivos mais lisonjeiros, que sempre considerei como a voz do Senhor e, se agora, por razões que não devo questionar, não se tivesse mais confiança em minha humilde obra, não me restaria senão baixar as velas e fechar para sempre ousando crer que, na falta de tudo, o Deus bendito ao menos levaria em conta minhas boas intenções. Serei grato se V.E. dignar-se a me escrever umas poucas palavras como resposta a esta carta, e minhas decisões finais dependerão do teor da resposta.
Quatro xaverianos finalmente partem, em 18 de janeiro de 1904. Eles trabalham em conjunto com os missionários do PIME, até quando é criada a prefeitura apostólica do Honan Ocidental, confiada inteiramente à nova família missionária (5 de maio de 1906).
As resistências de Propaganda Fide
Tudo isso, apesar de não ter alguma aprovação jurídica. Em 1906 pede a Propaganda Fide a aprovação, do regulamento das Constituições Xaverianas, indicado por Lino Ballarin como “regulamento-esboço”. O parecer foi negativo. Entretanto, no mesmo ano, Conforti obteve o Decretum Laudis, que tornava a Congregação independente da “Igreja Parmense”. Depois dessa resposta negativa, o Fundador se concentra sobre a preparação dos missionários, a missão e a saída para a China: vinte até o início da primeira guerra mundial (1914-19918). Quando se refere às constituições, tudo parece parar por dez anos. Em 1916, as Constituições Xaverianas foram novamente apresentadas à Propaganda Fide, para aprovação.
Em julho de 1916, o cardeal Domenico Serafini, prefeito da Propaganda Fide, comunicou ao Fundador a impossibilidade de aprovar as Constituições Xaverianas: Não compete à Propaganda Fide aprovar Constituições de congregações religiosas. O cardeal propôs que fossem retirados os votos...
Se S.V. modificasse, pois, o esquema das regras, retirando os votos, como pareceria preferível a esta Congregação, nada obstaria para que a Propaganda examinasse o regulamento projetado....
É preferível eliminar os votos!
O cardeal e seu consultores não percebiam a coisa nova que estava germinando.
Relembramos este indeferimento, para celebrar a firmeza e a fidelidade do Fundador à sua intuição carismática, original e estranha à prática daqueles anos. O cardeal Serafini não podia saber (não percebia!) que estava germinando algo novo e antigo também pois é radicalmente evangélico: a evangelização acontece por meio da doação de si mesmo, de modo radical e definitivo.
Em Parma foi a universalidade a criar problema, em Roma criava problema a consagração come método evangelizador. A resposta do Fundador ao Prefeito do Dicastério para a Evangelização deixa clara a diferente visão a respeito da evangelização.
O desapego a tudo que seja terreno e o sacrifício total e irrevogável de toda a vida pela maior e mais santas das causas podem melhor contribuir para o triunfo da mesma.
Afirmativa cristológica fundamental. Hoje podemos dizê-la, pela fala do Papa Leão XIV:
Toda a fecundidade da Igreja e da Santa Sé depende da Cruz de Cristo. Caso contrário, é só aparência, se não pior. Um grande teólogo contemporâneo escreveu: “Se a Igreja é a árvore que cresceu do pequeno grão de mostarda da cruz, esta árvore está destinada a produzir por sua vez grãos de mostarda, e, portanto, frutos que repetem a forma da cruz, porque é precisamente à cruz que estes grãos devem a sua existência”.





















