Fazer do mundo uma só familia
Fazer do mundo uma só familia
Xaverianos
Xaverianos
Acredito, embora possa estar enganado, que em nossa família missionária estamos dando pouca atenção ao tema fundamental do XVIII Capítulo Geral. Por mais de quarenta vezes sentimos ecoar a palavra carisma... carismático, família carismática xaveriana. Os documentos capitulares afirmam a presença, na Igreja, de um carisma nosso, próprio, com um estilo e uma espiritualidade inspirada a São Guido. Carisma único, mas que pertence a toda a Igreja. Os capitulares chegam a pensar numa “cultura Xaveriana” com capacidade de construir uma “gramática” missionária atualizada.
O XVIII capítulo alcançou uma meta fundamental se lembramos a história da nossa família. Paradoxalmente nos reconduz ao Vaticano II: “Reverte em bem da Igreja que os Institutos mantenham a sua índole e função particular” (LG 43). O nosso capítulo afirma: “Nosso carisma pertence a toda a Igreja”. Aparecem, nos documentos de nosso último capítulo, linguagens propostas com força pelo Concílio: “A Igreja defende e favorece a índole própria dos vários Institutos religiosos”. O documento Perfectae Caritatis recomenda o retorno às “fontes” e a fidelidade à inspiração do Fundador (primigeniam institutorum inspirationem ) e à função própria, “função necessária” pela construção da Igreja. As famílias de consagrados “vêm aumentar as riquezas espirituais, tanto em proveito dos seus próprios membros como no de todo o Corpo de Cristo”.
É um desfio! A Igreja defende e favorece a “minha índole”, o meu carisma, mas eu, xaveriano, que tijolinho, original, próprio, carismático ofereço à Igreja para o seu crescimento?
Quero recordar que o Fundador da minha família missionária inicia um discurso sobre a paixão de Jesus pedindo insistentemente de não fixar a atenção sobre os sofrimentos cruéis e reais, mas na mensagem evangélica primária. Na contemplação confortiana a paixão revela um amor, “exagerado”, “sem medida”, uma “caridade que aconselha” o Filho do homem a acolher o caminho da cruz. Contempla nella a revelação do rosto do Pai.
O Papa Leão me ajudou a descobrir esta dimensão carismática da nossa vocação, ao dizer comemorando os mártires: Aos pés da cruz de Cristo, nossa salvação, descrita como a “esperança dos cristãos”.
Palavras que despertaram a memória de uma belíssima página confortiana, escrita em seu retiro do 1913, quando celebrava o 25º aniversário de sua ordenação sacerdotal.
Contempla o Crucificado e escuta Jesus que se faz advogado defensor dos que estão pregando seus pulsos no madeiro: “Eles não sabem o que estão fazendo”. Guido continua ouvindo: a segunda palavra é a de conforto ao bom ladrão: “hoje estarás comigo no paraíso”. Tinha oferecido tudo, nota São Guido, faltava ainda um presente, tinha mais uma herança a nos deixar. De fato, escuta um “testamento”: “Mulher eis aí o seu filho... Eis aí a sua mãe”.
O bispo Guido, agora com 25 anos de sacerdócio, continua ouvindo o Filho entregar-se nas mãos do Pai e um militar confessar: “De fato, esse homem era mesmo filho de Deus”. A escuta se torna oração: “Esse homem, um filho de Adão, nosso irmão segundo a carne, é Deus. Sim, sim, vamos repetir nós também: Ele é Filho de Deus, nossa vida, nosso refúgio, nossa esperança”.
Um homem, amaldiçoado por Deus, pois morreu pendurado ao lenho da cruz, morto no suplício mais cruel e mais tetro, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos, este homem é esperança.
Na cruz reconheço um Irmão que no momento das minhas falhas se coloca no meio, entre eu e o Pai, e intercede: “perdoa, por favor, não sabe”! Como não se colocar em suas mãos com plena e total esperança? Na cruz contemplo um “deus humanado” que recebeu do Pai todo poder e que por essa força me abre as portas do Paraíso. Ali chego acompanhado e abençoado por uma Mãe.
Fortaleço minha esperança pelas palavras de Jesus Cristo Crucificado. Entre elas uma é fundamental e ilumina todo o dramático “espetáculo” da cruz: Pai. Mesmo quando o Filho se sente abandonado, o Pai continua sendo Pai. São Guido medita: Esta palavra Pai encerra o sentimento no qual deve se inspirar a alma cristã quando ora: amor de filho para Deus, que é nosso Pai. Quanta paz, quanta alegria, quanta esperança deve encerrar para nós! Quanta preocupação inútil, quantos medos extirparia, se bem compreendido este nome santo e suave. A sua contemplação continua e se aprofunda. Talvez escuta entre as tantas palavras que o grande Crucifixo lhe havia dito, palavras não pronunciadas pelo Crucificado, mas escutada pelo seu espírito extasiado: Do alto de sua cruz no Gólgota, fez ecoar o grito: “Glória a Deus, ao Pai Celeste, que veste os lírios do campo e nutre os pássaros no ar”. Palavras de confiança e esperança, certamente não pronunciadas por Jesus crucificado, mas “todos os ensinamentos contidos no santo Evangelho são compendiados no Crucifixo. Ele nos fala com uma eloquência que não tem igual; com a eloquência do sangue”.
São Guido e com ele o xaveriano pode cantar a esperança, no tempo de paixão assim como no tempo da ressurreição:
Ó Cruz, salve, única esperança,
nesta glória triunfante!
(neste tempo de Paixão!)
aumenta a graça aos piedosos,
e apaga os crimes dos culpados.





















