Os Missionários Xaverianos na pastoral indigenista no Pará

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 Em 2011, celebraram-se os cinqüenta anos da chegada dos primeiros xaverianos na Amazônia (4 de março de 1961). Esta reflexão nasceu da solicitação para uma contribuição em preparação ao encontro da nossa congregação sobre a Animação Missionária (Tavernerio, Julho-2012)

e para mim tornou-se uma oportunidade para rever um pouco a história dos xaverianos aqui no norte do Brasil.

Lendo as Atas das assembléias da nossa Região sobressaem três eventos que considero marcos significativos da presença da nossa Congregação na Amazônia.

1. Elevação da Prelazia de Abaeté do Tocantins a Diocese

O primeiro evento foi a elevação da então Prelazia de Abaeté do Tocantins (criada em 1961) a Diocese no dia quatro de agosto de 1981. Não foi só uma mudança de nome ou de tipo administrativo, mas foi um marco na história da evangelização operada pelos missionários e pelos cristãos das comunidades daquela região da Amazônia.

Os primeiros xaverianos que chegaram na Amazônia em 1961 receberam a responsabilidade pastoral da recém formada Prelazia. Eles tinham recebido uma formação teológica pré-conciliar. Eles queriam fundar comunidades cristãs numa região que tinha sido atendida por uma prática pastoral chamada de “desobriga”, onde o padre deixava a capital (Belém) para empreender viagens ao longo dos rios visitando os moradores (os ribeirinhos), administrando os sacramentos e ensinando as básicas noções de catequese.

 Os xaverianos, sem abandonar totalmente essa prática pastoral da desobriga, deram uma finalidade bem clara às suas viagens missionárias ao longo dos rios e igarapés: fundar comunidades, formar lideranças locais e ajudar a população na luta pela sobrevivência. O testemunho dos xaverianos que atuaram naqueles anos ajuda a perceber as idéias teológicas que sustentavam sua ação. A teologia da missão que se detecta analisando a prática missionária dos xaverianos desse tempo era mesmo a “Plantatio eclesiae”. O objetivo principal dos xaverianos na Amazônia era de fundar uma Igreja local.

Parece mesmo que essa foi a teologia da missão que animou gerações de xaverianos que passaram a operar em diferentes setores da vida pastoral com a finalidade de construir uma Igreja local que pudesse “andar com suas pernas”. Alguns trabalharam na construção de estruturas (Igrejas, capelas, salões, sala de catequese, Posto médico, Colégio), outros colocaram-se ao serviço da direção pastoral da Diocese e das paróquias (Formação, Centro de Pastoral, párocos...) e outros ainda dedicaram-se à formação de futuros padres diocesanos locais. A teologia da missão que sustentava essas atividades era aquela de chegar a formar uma Igreja local “sustentável”, autônoma...

2. Responsabilidade da Diocese de Abaetetuba aos “locais “

Continuando na leitura da história da nossa Congregação nessas terras da Amazônia, parece-me detectar uma segunda mudança significativa da nossa presença no momento em que os locais assumiram a responsabilidade da direção nos vários setores da Diocese. Gradualmente os xaverianos que operavam na Diocese de Abaetetuba passaram a desenvolver mais um papel de “coadjutores” na atividade pastoral ao lado de lideranças, catequistas e padres locais.

A contextualização na América Latina da espiritualidade e da teologia do Concílio Vaticano II operada em Medellin influenciou a ação da Igreja deste continente. Também os xaverianos na Amazônia “respiraram” esse ar de renovação. Foi o momento em que a Região xaveriana da Amazônia se abriu a outras realidades locais enviando alguns confrades para o serviço pastoral na Prelazia do Xingu e na Arquidiocese de Belém e liberando alguns confrades para o serviço de algumas pastorais específicas como a Pastoral Indigenista e Pastoral da Terra.

3. A Região Brasil Norte assume o compromisso da Formação, Animação Vocacional e Missionária.

Finalmente, considero a escolha da nossa Região para um engajamento na Pastoral Vocacional, na Formação de jovens missionários da Amazônia e na Animação Missionária da Igreja do Brasil, como o terceiro marco que caracterizou a história dos Xaverianos na Amazônia.

Através da pastoral vocacional se iniciou a apresentar o ideal de missionário Ad gentes do nosso Fundador aos jovens da Amazônia. Foi o início da década dos anos ’90 que viu os xaverianos sempre mais engajados na Formação de jovens missionários da Amazônia. Isso implica uma contínua tensão em viver, cultivar a atitude de inculturar o carisma do Fundador na cultura deste povo da Amazônia. As atividades da Pastoral Vocacional e da Formação caminhavam juntamente com o envolvimento direto de alguns xaverianos na animação missionária da Igreja na Amazônia.

4. A presença dos xaverianos na pastoral indigenista

Um breve histórico da atuação dos xaverianos na pastoral indigenista ajudará perceber melhor as mudanças que ocorreram na presença da nossa Congregação na Amazônia. O caminho da Igreja da América Latina, marcado pelas suas conferências episcopais, se torna um elemento importante para compor o pano de fundo no qual os xaverianos atuaram.

Em Medellin (1968), a palavra “libertação” marcou a segunda Conferência do episcopado latino-americano. Em Puebla (1979), o conceito principal foi “a opção preferencial pelos pobres”, enquanto a reflexão sobre a temática da “inculturação do evangelho” foi a contribuição que os bispos da América Latina reunidos em Santo Domingo (1992) ofereceram ao magistério da Igreja universal. A abertura missionária da Igreja latino-americana manifestou-se de uma maneira mais explicita em Aparecida (2007), onde a temática da missão permeou todo o documento final.

Também a Vida religiosa a América Latina experimentou mudanças significativas no período após o Concílio. O espírito de Puebla animou os religios@s a concretizar a opção pelos pobres que a Igreja latino-americana explicitou. Na Conferência dos Religiosos no Brasil (CRB) começaram a se articular grupos de inserção no meio popular. Percebia-se que a Igreja para ser eficaz na sua atividade de evangelização devia viver o espírito da encarnação de Jesus. Os bispos em Puebla pediram para que a Igreja reconhecesse no povo sofrido as feições sofredoras de Cristo (DP 31).

Os xaverianos detectando nos povos indígenas, nos camponeses e nos moradores das baixadas de Belém as feições do rosto desfigurado de Cristo, concretizaram a opção pelos pobres, que Puebla tinha almejado, engajando-se diretamente nesses setores da sociedade.

Na prática dos missionários xaverianos junto ao povo Kayapó do Alto Xingu podemos detectar quatro etapas principais que nos ajudam acompanhar o desenvolvimento da Teologia da Missão.

A) Aproximação

No começo da década de 1970, os xaverianos assumindo a responsabilidade da paróquia de São Felix do Xingu e com a presença de uma comunidade em Altamira, retomaram os contatos com os índios presentes na Prelazia do Xingu. Foi o tempo das desobrigas ao longo dos rios da Prelazia, (Xingu, Iriri, Curuá, Fresco e Riozinho). Essas viagens foram marcadas pelas visitas prolongadas nas aldeias indígenas especialmente as do povo Kayapó do Alto Xingu.

B) Inserção nas aldeias indígenas

Num segundo momento, uma comunidade de xaverianos, em nome da Igreja do Xingu, transferiu-se num primeiro momento nas aldeias de Kikretum e A’ukre e mais tarde em Moikarakô inserindo-se na vida daquelas comunidades indígenas.  A inserção correspondia ao anseio da Igreja Latino Americana de marcar presença junto aos setores mais sofridos da sociedade.

C) Inculturação

Uma terceira etapa iniciou quando os xaverianos familiarizando-se com a cosmovisão desse povo indígena prepararam o chão para o possível diálogo com o mundo sagrado dos Kayapó.

A inserção dos xaverianos na vida das comunidades indígenas de Kikretum, A’ukre e Moikarakô marcou o caminho para uma inculturação do evangelho na cultura deles. Uma inserção que pretende ter como modelo a experiência de Jesus de Nazaré que passou, no “silêncio” e no anonimato da vida cotidiana daquela aldeia da Galiléia, a maior parte de sua vida.

D. O Papel do Missionário no Encontro entre duas sociedades: Indígena e Envolvente

Finalmente, podemos identificar a quarta etapa da atuação dos xaverianos junto ao povo Kayapò com a formação da comunidade xaveriana na cidade de Redenção. Em Redenção, os xaverianos da pastoral indigenista procuram acompanhar o povo Kayapó num dos momentos mais delicados da vida deles: o encontro com a sociedade envolvente. Os missionários são chamados a acompanhar esse processo e fazer com que o povo Kayapó viva esse experiência do encontro como sujeito fortalecendo sua cidadania e sua capacidade de se auto-gerenciar.

Pe Walter Taini.