
O texto de Susana (Dn 13, 1-64) provavelmente foi escrito pelos fariseus, por volta do ano 100 a.C., para criticar a corrupção e o abuso do poder dos governantes asmoneus (o grupo dos macabeus) e saduceus (o grupo dos sacerdotes helenizados). Depois de derrotar o império selêucida (grego) com a ajuda dos romanos, a família sacerdotal dos asmoneus estabeleceu o governo, assumindo até mesmo o cargo de sumo sacerdote (1Mc 13,49-14,49). Embora os asmoneus tenham lutado contra a helenização forçada imposta pelos selêucidas, com o tempo eles próprios seguiram o espírito da helenização (busca desenfreada de riquezas, de poder e de prazer), assumindo o estilo de vida helenístico para manter o poder político na região e resultando na política expansionista militarista, abuso do poder, injustiça, corrupção generalizada, concupiscência etc.
Os fariseus constituíam um movimento religioso resistente à helenização e aos costumes gregos e buscavam ser fiéis à tradição e à cultura do povo judeu, com a observância rigorosa das leis mosaicas. Eles criticavam e desafiavam a autoridade dos governantes asmoneus e dos saduceus, provocando os conflitos e os massacres: João Hircano, rei asmoneu (134-104 a.C.), massacrou milhares de pessoas (não apenas fariseus); Alexandre Janeu, outro rei asmoneu, crucificou cerca de 800 fariseus, por volta de 80 a.C., segundo informação do historiador Flávio Josefo. Nesse contexto, a novela de Susana foi escrita pelos fariseus para denunciar o abuso do poder e a corrupção generalizada dos governantes, representados pelos dois anciãos imorais e corruptos.
A novela iniciase com a apresentação de Susana: “Havia um morador de Babilônia chamado Joaquim. Ele tinha casado com uma mulher de nome Susana, filha de Helcias, e que era muito bonita e temente a Deus. Os pais dela eram justos e tinham instruído a filha na lei de Moisés” (Dn 13,1-3). Susana está situada na Babilônia, como o livro de Daniel (Nabucodonosor e Dario, reis da Babilônia), mas, na verdade, ela deve ser ambientada nas aldeias da Judeia, no tempo dos asmoneus. É o tempo em que o tribunal comum na aldeia, a primeira instância de julgamento (Dn 16,18-20), é tomado por corrupção generalizada.
A narrativa apresenta Susana como uma judia rica, bela, religiosa, modelo ideal de fidelidade conjugal e confiança em Deus. Ao contrário, os dois anciãos, que compõem o tribunal das aldeias, são descritos como autoridades corruptas e concupiscentes, que veem Susana tomando banho no jardim e são tomados de desejo por ela: “Eles procuraram desviar o próprio pensamento para não olharem o Céu, nem se lembrarem de seus justos julgamentos. Ambos estavam transtornados por causa dela, mas um não contava para o outro o próprio tormento, pois tinham vergonha de falar dos seus próprios desejos; e o que eles queriam era manter relações com ela” (Dn 13,9-11).
Os anciãos acusam falsamente Susana de ter cometido adultério com um jovem, e a ameaçam, dizendo que a entregarão ao seu marido a menos que ela concordasse em se deitar com eles às escondidas (Dn 13,19-21). Susana, fiel à lei de Moisés, recusou, preferindo enfrentar uma punição severa a pecar contra Deus: “Susana deu um suspiro e disse: ‘A coisa está complicada para mim de todos os lados: se eu fizer isso, estou condenada à morte; se não fizer, sei que não conseguirei escapar das mãos de vocês. Mas eu prefiro dizer ‘não’ e cair nas mãos de vocês. É melhor do que cometer um pecado contra Deus’. Em seguida, gritou bem forte, mas os dois senhores também gritaram, falando contra ela” (Dn 13,22-24). O grito de Susana é uma expressão de desespero e sofrimento, ao passo que os gritos dos anciãos são de poder e de manipulação.
Susana foi levada a julgamento perante a assembleia, que “acreditou neles, porque eram anciãos e juízes do povo, e condenou Susana” (Dn 13,41). Como adúltera ela seria morta por apedrejamento (Dt 22,22; Lv 20,10; Jo 8,4-5). O grito de Susana ecoa novamente: “Então Susana disse em alta voz: ‘Deus eterno, que conheces o que está escondido e tudo vês antes que aconteça! Tu sabes muito bem que eles deram falso testemunho contra mim. Vou morrer, mas sem ter feito nada disso de que me acusam’” (Dn 13,42-43). Aqui, o grito dela é sinal de protesto e, ao mesmo tempo, de clamor a Deus, que sempre se coloca ao lado dos fracos e injustiçados. Deus não deve abandonar Susana, uma mulher justa e fiel à lei de Moisés.
No momento em que Susana está sendo levada para ser morta, Deus então intervém: “O Senhor escutou a voz dela. Ao ser conduzida para a morte, Deus suscitou o santo espírito de um adolescente de nome Daniel, que gritou forte: ‘Eu não tenho nada a ver com a morte dessa mulher. Sou inocente’” (Dn 13,45). Daniel, cujo nome significa “Deus julga” ou “Deus é meu juiz”, denuncia os anciãos injustos e corruptos:“Raça de Canaã, e não de Judá, a beleza da mulher fez você perder o rumo, a paixão embaralhou o seu coração. Isso vocês faziam com as mulheres de Israel, e elas, com medo, se entregavam a vocês; mas esta filha de Judá resistiu à imoralidade de vocês” (Dn 13,56-57).
Com a intervenção de Daniel, o povo voltou à assembleia. Nela, Daniel pediu para que os dois anciãos fossem interrogados separadamente. Ele os interrogou sobre a árvore sob a qual os atos teriam acontecido. A resposta de cada um foi contraditória, revelando o falso testemunho deles. Os anciãos formaram condenados à morte por apedrejamento por seu crime, e Susana foi salva, tornando-se um símbolo de retidão, de fidelidade conjugal e de confiança em Deus (Dn 13,60-64).
A narrativa é uma novela bíblica, que assume o papel da profecia na defesa da vida do povo de Israel no pós-exílio, pode-se destacar algumas mensagens da novela de Susana, como meio de promover o direito e a justiça de Deus no mundo injusto e corrupto dos governantes asmoneus:
- Fidelidade à fé e à religião judaica como meio de defesa da vida: Susana segue os valores da cultura e da religião na resistência contra a maldade e a violência da autoridade injusta e
- Violência contra as mulheres: a narrativa aponta, na vida cotidiana, a apropriação do corpo da mulher e o abuso de poder das autoridades patriarcais, machistas e androcêntricas.
- A voz da profecia: Daniel, como profeta, se solidariza com a pessoa que está sofrendo injustiça, toma seu partido e levanta sua voz, resiste e denuncia a corrupção, concupiscência, injustiça e violência das autoridades
- Deus dos justos: Deus não abandona o inocente (Pr 17,15) e liberta quem que é justo e fiel a ele.
- A novela de Susana tem função sapiencial e pedagógica: o povo deve ser fiel à sua fé, cultura e religião na defesa da vida, certo de que Deus é promotor e defensor da É necessário ter sensibilidade, ver a injustiça e se comover contra ela, tomar partido e solidarizar-se com as pessoas injustiçadas, protestar com “gritos” contra a injustiça, a corrupção, o abuso do poder, a violência contra a vida de todos os seres vivos: “Toda a assembleia começou a aclamar, dando louvores a Deus, que salva os que nele confiam” (Dn 13,60).
Fonte: Folheto do Mês da Bíblia do Verbo Divino








