Dom Paulo Evaristo Arns, uma memória

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Enquanto na catedral de São Paulo está sendo velado o corpo do querido Paulo Evaristo Arns, é inevitável que umas memórias venham rodeando em minha mente e em meu coração. Quero recordar dois encontros: o primeiro e o último.

Cardeal Paulo ArnsUma reunião sobre Animação Missionária, iniciada a tarde acabou noite adentro. Eram quase as 23 horas quando saindo da casa onde estivemos reunidos, vi um senhor, às vezes parado, às vezes caminhando por poucos metros, e voltava... Dirigindo-me ao carro estacionado na rua pensei: como é parecido a dom Paulo este senhor... Criei coragem: «dom Paulo».

Reagiu: «Quem me conhece aqui». Começou a conversa. Estava tentando encontrar um taxi. Naturalmente ofereci carona até o Pio Brasileiro. Depois de breve resistência aceitou. O dia anterior ele tinha encontrado o Papa.

Foi uma conversa amiga que lembro até hoje (estávamos em 1986). Escolhi o itinerário mais longo possível para conversar mais e aproveitar de sua serena e conhecida sabedoria. Não negava as dificuldades, mas as colocando numa visão de fé, sua fala reaviva a esperança.

Para comemorar a presença dos Xaveriano no Brasil em 2004 decidimos preparar um vídeo, no qual colocar alguns testemunhos.

Não podia faltar aquele de dom Paulo. Numa tarde fomos recebidos em sua habitação. Tivemos possibilidade de conversar sobre a missionariedade da Igreja, sobre a importância de dar um caráter fortemente missionário às dioceses.

Em sua conversa sentimos todo o ardor pastoral missionário que ardia em seu coração.

Manifestou sua preocupação pelas periferias que nos anos 80 iam se formando longe da capital e da catedral, mas bem perto de seu coração de pastor.

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Hoje o jornal EL PAIS escreveu que dom Paulo «enfrentou os militares no período da ditadura no Brasil e defendeu as periferias».

Isso mesmo. Periferias! Falando das periferias naquela entrevista dom Paulo acrescentou: «Os Xaverianos eram as pessoas mais indicadas para iniciar o trabalho nas periferias, sobretudo porque eles são acostumados a inculturar-se, quer dizer aceitar a maneira de exprimir-se do povo, e ao mesmo tempo, a transmitir a mensagem cristã quando é possível tanto pelas obras de caridade quanto pela organização das comunidades e das paróquias quando necessário.

Então veio esta idéia e ela foi executada com muito amor por minha parte e com muita confiança nos xaverianos pelo passado deles e também por causa dos ideais dos Xaverianos e por isso foram chamados em 1980. Nós resolvemos por causa de uma imensa construção de casas para pobres que foi feita em Guaianazes e justamente eu não sabia come resolver este problema que veio de repente em cima de São Paulo e os Xaverianos foram os que primeiro enfrentaram o problema missionário de Guaianazes” (gravação).»

Obrigado dom Paulo pelo carinho que sempre manifestou para com os Xaveriano, obrigado pela confiança que teve em nós, obrigado, pois, se algo tivemos a possibilidade de realizar, foi pelo seu incentivo de bispo, pelo seu ardor de pastor e pelo seu amor de pai.

Pe. Alfiero Ceresoli, s.x. - Hortolândia, 17 de Dezembro de 2016.