Camarões, um país em construção

  • Marcelo Ávila
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É com muita alegria que venho partilhado com vocês um pouco da minha experiência missionária aqui na África, nos países Camarões/Tchad. Experiência que se constrói em um cenário de contradições, grandes desafios e de muitas esperanças.

Depois de mais de dois anos de muita intensidade, de ver e viver realidades desafiadoras e encantadoras, posso dizer que estou muito feliz e realizado. Acredito que tenho muitas experiências para partilhar, mas, recebendo e acompanhado as notícias do Brasil, hoje vou partilhar um pouco do cenário político/social da República dos Camarões. Meu objetivo não é fazer comparações, mas, apenas partilhar o ambiente onde eu estou vivendo e como olhamos para o futuro, mesmo diante de situações dramáticas e desafiadoras.

No que diz respeito ao cenário político/social da República dos Camarões, é importante lembrar que a colonização dos países africanos ainda é uma ferida aberta que provoca muitos questionamentos e discussões, sobretudo quando a interferência do país colonizador é muito forte. De outro lado, a independência ainda é muito recente. A maioria dos países africanos se tornaram independentes depois de 1950 o que faz da independência um processo em plena construção. Mesmo com a independência, ainda encontramos guerras internas e uma dificuldade muito grande para consolidar os governos.

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A colonização de Camarões teve três momentos importantes: Em 1500 os portugueses chegaram, mas, por causa da malária, desistiram da colonização; em 1884 o país tornou-se colônia da Alemanha e, depois da primeira guerra mundial, o país foi dividido entre França e Inglaterra. A independência aconteceu somente em 1960. Camarões é um país que conheceu somente dois presidentes depois da independência. O primeiro presidente, Ahmadou Ahidjo, ficou 21 anos no poder e o segundo, Paul Biya, já faz 33 anos que está no poder e mesmo com 83 anos ele está disposto a disputar as próximas eleições em 2018.

O país vive uma grande instabilidade política e a corrupção está disseminada em todos os âmbitos da sociedade. Aqui não existe corrupção escondida, tudo é feito na maior naturalidade possível. No ano 1998 a ONG Transparência Internacional classificou Camarões como o país mais corrupto do mundo e ainda hoje o país ocupa uma posição de destaque entre os mais corruptos. A corrupção virou uma prática habitual e a cada dia fica mais difícil de criar uma nova cultura, a cultura da transparência e da honestidade.

Aqui nos Camarões vivemos verdadeiramente uma falsa democracia. As pessoas que se opõem ao governo são presas de forma injusta e há muitos casos de mortes que sempre ficam na impunidade. Presos políticos ficam na prisão o tempo que o presidente quiser, não existe um julgamento que determine a pena de um preso político. Na prisão central de Yaoundé podemos encontrar deputados, ministros e governadores. Muitas pessoas dizem que o futuro presidente do país será um dos políticos que estão na prisão.

A infraestrutura do país também é muito preocupante. As estradas são péssimas e o transporte público é feito em motos e carros em péssimas condições. Por aqui é normal ver 5 pessoas em uma moto e até mesmo 10 pessoas em um carro. O problema é ainda maior com os ônibus que viajam pelo interior do país. Às vezes 80 pessoas viajam em um ônibus pequeno sem a menor segurança possível. Não existe estradas para ir ao norte do país. A única opção é viajar de trem ou em pequenos aviões das empresas chinesas que trabalham por aqui.

A educação é outro grande problema, sobretudo pela falta de oportunidade. O acesso à Universidade é um ponto positivo no país, mas, depois de terminar a Universidade, o jovem se encontra sem oportunidades. Por aqui ainda é muito forte o tribalismo e, no momento de conseguir um emprego, a questão da tribo é muito importante e até mesmo determinante. Aqui encontramos jovens que fizeram mestrado e doutorado na França e Alemanha trabalhando como motoristas de taxi ou vendendo comida nos mercados da cidade. Para as crianças a situação ainda é mais difícil. Mesmo na escola pública, o governo exige o pagamento da inscrição do aluno no início do ano letivo. O valor da inscrição pode ser comparado com o valor de um salário mínimo. Então, muitas mães não conseguem pagar esse valor e, como consequência, a criança não pode frequentar a escola.

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A saúde é um outro problema sério. Mesmo se existem médicos, as condições de trabalho são desafiadoras. É de partir o coração quando uma criança morre de diarréia ou de uma doença que não é tão grave. Acredito que o grande problema se encontra na prevenção. Muitas mortes e doenças poderiam ser evitadas através de um grande trabalho de conscientização. Aqui sofremos muito com a malária e o problema da aids cresce de maneira assustadora.

A vida na África é verdadeiramente um grande desafio, mas, é nesse cenário que encontramos sentido para o nosso trabalho e missão. Aqui tentamos ser uma voz profética em favor da vida e da verdade. O que nos dá esperança em relação ao futuro são as crianças. Camarões é um país onde o número de crianças representa uma porcentagem muito grande da população. Com isso, tentamos fazer um trabalho de conscientização que seja capaz de atingir a mentalidade e também o coração. Acreditamos profundamente que a história de um povo, mesmo que seja marcada pelo sofrimento, pelas guerras, pobreza e miséria, pode ser transformada em uma nova história.

O povo africano traz no coração uma grande capacidade de amar e de viver. Acredito que o nosso trabalho é também despertar em cada um deles essa capacidade de amar e de viver. Mesmo quando o contexto político/social  tenta sufocar ou diminuir a nossa voz, nós estaremos aqui, vivendo e sofrendo com o povo, aprendendo um novo jeito de amar que torna possível acreditar na possibilidade de construir um mundo de justiça, de paz e de amor.

Enfim, se um sonho pode se tornar uma realidade, vou continuar lutando e sonhando com um futuro melhor e mais digno para o povo africano.

Um grande abraço a todos. Marcelo Ávila (Missionário na Africa).