NÃO DEIXEMOS QUE NOS ROUBEM A COMUNIDADE” (EG 92)

A Paróquia São Francisco Xavier realizou uma assembleia paroquial nos dias 21 e 22 de março, com o objetivo de avaliar o ano pastoral anterior e planejar o ano pastoral de 2026. A palestrante foi a Irmã Anagilsa, Filha da Caridade. Ao compartilhar as palavras do Papa Francisco — “Não deixemos que nos roubem a comunidade” (EG 92) — ela contribuiu grandemente para aprofundar o discernimento. Este tema tem como objetivo fortalecer o nosso sentimento de pertença à comunidade paroquial. A comunidade é o primeiro lugar de pertença.
O método pastoral ver, julgar (iluminar) e agir nos ajudará a desenvolver esta reflexão. Este tempo da Quaresma é um kairós para ver a nossa realidade paroquial com o coração aberto e com os olhos da fé, no horizonte de uma conversão pastoral.
1. Ver a realidade pastoral e comunitária
Na revista Piazza San Pietro, edição de janeiro deste ano, uma catequista suíça chamada Nunzia expressou sua preocupação ao Papa Leão XIV, dizendo que as famílias são pouco presentes e muitas vezes indiferentes à prática religiosa em sua paróquia. Crianças e familiares preferem esportes e festas aos domingos. Como consequência, a igreja torna-se cada vez mais vazia, frequentada principalmente por idosos.
O Papa respondeu que o problema não é apenas o número de participantes — o que certamente leva à reflexão —, mas a falta crescente de consciência de nos sentirmos Igreja, isto é, membros vivos do Corpo de Cristo, todos dotados de dons, e não meros usuários do sagrado e dos sacramentos, talvez por simples costume. Igrejas vazias refletem a ausência do sentimento de pertença, alertou o Papa.
Damos graças a Deus pela presença ativa de alguns membros da nossa comunidade paroquial que se comprometem com carinho e disponibilidade, sentindo que a Paróquia São Francisco Xavier faz parte de sua família.
Por outro lado, o padre Ulisse, pároco, apresentou alguns sinais de enfraquecimento do sentimento de pertença à nossa comunidade eclesial:
- Quando poucos assumem tudo e muitos apenas “assistem”. São sempre as mesmas pessoas nas pastorais, ministérios e serviços. Isso revela que nem todos se reconhecem como corresponsáveis pela missão da comunidade.
- Quando procuramos a paróquia apenas para os sacramentos — Batismo, Primeira Eucaristia, casamento ou funeral —, sem o desejo de participar da vida comunitária. A paróquia passa a ser vista como mera prestadora de serviços religiosos.
- Quando perdemos o ardor missionário: não convidamos, não acolhemos, não sentimos falta de quem se afastou. A comunidade deixa de ser missionária e se acomoda.
- Quando os problemas da paróquia não nos afetam. Dificuldades financeiras, conflitos, necessidades pastorais ou situações de sofrimento não nos mobilizam. O que acontece na comunidade parece não ter relação conosco.
- Quando falta alegria em pertencer à comunidade — sem entusiasmo, sem gratidão, sem amor pela paróquia. Quando a comunidade já não nos alegra, algo essencial foi roubado
2. Iluminar: “Não deixemos que nos roubem a comunidade” (EG 92)
Espiritualidade da pertença
A vida é uma questão de doação. Tudo nos foi oferecido pela generosidade dos outros e pela gratuidade da própria criação. Graças à nossa capacidade de discernimento — que também é um dom — descobrimos gradualmente os efeitos dessa graça recebida.
Quanto ao significado espiritual e interior da pertença, é importante lembrar três dimensões que se complementam:
- Pertencemos a nós mesmos como dom divino;
- Pertencemos a Deus, em Cristo, por meio de nossa vontade livre e determinada;
- Vivemos a dimensão comunitária como pertença solidária de desejos e sonhos, para sermos testemunhas credíveis do amor de Deus pelos pobres.
A Irmã Anagilsa nos alertou sobre os “ladrões” da comunidade:
a) O individualismo e o isolamento, que rejeitam a partilha e a cultura do encontro.
Ela afirmou algo que ressoa diretamente em nossa realidade: não deixemos que o celular e os grupos de WhatsApp nos roubem a alegria do encontro presencial. Vivemos em uma sociedade marcada pela pandemia, quando era difícil reunir-se; o encontro com outras pessoas era motivo de medo e insegurança. Quatro anos depois, algumas pessoas ainda não se reintegraram plenamente. Mesmo na Igreja, muitos movimentos e grupos pastorais preferem comunicar-se (escalas, programas, encontros) apenas pelo WhatsApp.
As pessoas precisam encontrar-se, olhar-se nos olhos. Precisamos formar uma comunidade de pessoas de carne e osso.
b) O mundanismo espiritual, que busca a glória humana e o bem-estar pessoal.
É um mundanismo que “não traz o selo de Jesus Cristo, encarnado, crucificado e ressuscitado, mas a marca daqueles que nã
o saem à procura dos que estão perdidos nem das multidões sedentas de Cristo” (Evangelii Gaudium, n. 95).
3. Agir: orientações para uma conversão pastoral
Vivemos em comunidade buscando juntos e discernindo a vontade de Deus, em um processo contínuo de conversão, retornando ao essencial do Evangelho.
“Nisto conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35). O amor a Deus e aos irmãos é o nosso primeiro e único mandamento. É a síntese da nossa fé e o sinal que pode levar o mundo a acreditar. O amor dá coerência e verdade à nossa existência.
Voltar ao essencial na comunhão é voltar ao amor; é regressar à arte de tecer comunhão e fraternidade, de ser pessoas que sonham juntas a missão.
Na noite de quarta-feira, 25 de março, concluímos nossa assembleia oferecendo orientações para fortalecer o sentimento de pertença à comunidade paroquial. Foram escolhidas quatro prioridades nas áreas de missão, formação, caridade e espiritualidade.
O conselho pastoral, em colaboração com as equipes pastorais e os padres, tem a missão de acompanhar toda a comunidade paroquial para que os objetivos deste planejamento sejam alcançados. Os sinais dos tempos são um alerta que nos desperta para lutar contra os ladrões da fraternidade e do ardor missionário. Que São Francisco Xavier, padroeiro da nossa paróquia, interceda por nós.
P. Justin, SX


