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Vocação

Por escutar uma voz que disse que faltava gente para semear…


“Aquilo que não estava nos meus planos, estava nos planos de Deus” (Edith Stein)

Sou Xaveriano Giomar Henrique Clemente, residindo na Comunidade de Teologia em Manila, Filipinas. Ao término da vivência dos Exercícios Espirituais ocorridos de 07 de Junho a 08 de Julho de 2020, partilho minha caminhada missionária em terras estrangeiras. É um gesto de gratidão ao Senhor que aqui me trouxe e me sustenta diariamente.

O Retiro foi momento de rezar a ‘viagem’ e se alegrar por tudo que o Senhor tem realizado na minha história. Este ato de olhar o caminho percorrido, fazendo memória dos eventos, rostos, lugares e sentimentos, fez-me surpreender com os caminhos e meios que Deus tem se aproximado de mim. E nesta surpresa ecoa sempre o grande desejo de ir em frente.

O início de tudo...

É impossível determinar um momento preciso onde meu chamado vocacional começou. Neste curto período fora do Brasil, compreendi que Deus já estava presente muito antes de tomar consciência de sua presença. Esta é uma agradável revelação!

Sou da cidade de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas, localizada no noroeste do país. Pertenço ao grupo indígena Baré. E foi neste espaço de comunidade que Deus foi me cativando, aos poucos. Desde o ensino fundamental feito na comunidade ribeirinha ao longo do Rio Negro até os estudos universitários, Deus sempre esteve me chamando e me preparando. Tomar consciência do chamado foi um processo, que ao longo das minhas respostas mesclou alegria, medo, desculpas, decepções, escolhas, saídas, ... E assim, como busca de responder este chamado, conheci os Missionários Xaverianos, e após um tempo de acompanhamento, ingressei em 2013, fiz minha formação de Filosofia em Curitiba (PR) e Noviciado em Hortolândia (SP). Em 2017, após minha Consagração Religiosa Missionária, fui destinado à Comunidade de Teologia em Manila, Filipinas.

A chegada...

filionnas2Aqui cheguei no dia 13 de Agosto de 2017. Foi a viagem mais longa que fiz até agora, 29hs de vôo. Foi de fato um saltar ao desconhecido, trazendo comigo somente a grande vontade de vir. E esta ‘grande vontade’ não me permitiu pensar nos riscos e dificuldades que eu enfrentaria ao longo da viagem (o não saber Inglês, a locomoção durante a conexão... ). Havia em mim uma grande vontade de vir e isto foi suficiente para me encorajar a embarcar e vir. E vim!

De São Paulo saí às 00hs e fiz conexão em Dubai (Emirados Arabes Unidos) por 5horas. Lá vivi o meu primeiro desafio por conta da linguagem: como chegar ao meu terminal de embarque? Como perguntar onde ninguém fala ou entende português? Todos os passageiros saíram e se espalharam. E eu fiquei sem qualquer noção. Ir para esquerda ou direita, para frente ou para trás. E após um tempo e perguntar consegui chegar ao terminal e esperar meu destino final: Manila.

Os desafios...

Sempre entendi o tempo de saída missionária comparando este com uma muda de planta. Quando compramos uma muda de planta, nós a trazemos com um pouco de terra e após preparar a cova, a plantamos. Após o plantio, a planta levará tempo para se estabelecer, criar raízes, se ambientar. Durante esse tempo, quem a plantou cuidará dela: regando, limpando em volta, podando, etc. Nesse percurso a planta geralmente perderá todas as folhas e parecerá estar morta. No entanto, pouco a pouco ela iniciará uma nova vida. Na mesma dinâmica eu entendi e entendo minha caminhada. Após “escutar uma voz que disse que faltava gente para semear” e dizer à Ele “Aqui estou”, Deus me empacotou com um pouco de terra brasileira e me transportou para ser plantado nas terras Filipinas. Aqui Ele me plantou! E o tempo de se deixar ser plantado é um tempo de ‘morte’. Esta é a pedagogia de Deus. É necessário perder as folhas velhas para nascer novamente. É um tempo precioso! Se durante o Noviciado, estudei que a saída missionária é uma páscoa, agora era tempo de vivê-la por concreto.

A língua foi certamente um dos grandes desafios, porque aqui cheguei sem nenhuma noção do Inglês. E percebi assim o quão desafiante era se expressar, mesmo para pedir ou perguntar coisas simples. Foi um tempo de voltar a ser criança e descobrir outros meios de expressão...depender do cuidado dos novos irmãos...dar tempo... esperar com paciência... rezar este tempo de conflito. E dia após dia, assim como a muda de planta, fui ganhando vida nesta nova terra, minha nova casa. A comunidade foi certamente esta base importante para me fazer nascer, sobretudo através do cuidado e amizade dos novos irmãos.

Um tempo de respostas...

O cerne de toda vocação não está na compreensão de terceiros, mas na convicção daqueles que a abraçam. E para mim, entender e aceitar este chamado levou tempo, mas Deus sempre foi insistente. Uma alegoria com o GPS que quando erramos a rota, sempre recalcula um novo caminho. Assim Deus agiu. Desde o início da minha resposta vocacional, sempre tive muito claro o desejo de me deixar consagrar por Deus. O grande dilema foi sempre: Como? Ao ingressar na família Xaveriana em 2013, e considerando minhas respostas anteriores, me pus disponível aos dois caminhos existentes no Instituto: padre ou irmão. Minha oração neste tempo foi sempre “Senhor, tu me mostrarás o que queres”.

E o tempo do Noviciado foi o momento de discernir com Deus na oração, colocando-me diante da Eucaristia “Senhor, mostra-me o que queres!”. De Janeiro a Junho de 2017, este foi o meu pedido especial. E Deus me respondeu na véspera da minha Consagração Religiosa Missionária: ser Irmão. E esta resposta me encheu de susto que me reservei ao silêncio para digerir e acolhê-la primeiro comigo, porque havia uma infinidade de resistências e perguntas dentro de mim: como direi aos demais? (Formadores, amigos, família, povo de Deus, ...); como reagirão? etc.

Hoje parece ser algo tão insignificante, mas não foi assim. Qual a razão? Cada caminhada tem sua própria particularidade. Desde que ingressamos na formação, recebemos o incentivo direto ou indireto para ser padres. E este incentivo atravessa as etapas formativas, a expectativa de nossos pais, a comunidade, os amigos. É louvável! Não me oponho, precisamos de sacerdotes! Eu brinco sempre com o povo, dizendo “Vocês nos ordenam antes do tempo”. Essa “ordenação” se faz quando nos dizem “Quero estar presente na tua ordenação. Rezarei para seres um bom padre...”

Nunca duvidei que Deus estivera me pedindo algo contrário daquilo que havia em meu coração. Portanto, cheguei à Comunidade de Teologia em Manila, muito consciente da minha resposta e das razões para estudar teologia. Aqui foi tempo de partilhar com os irmãos, a comunidade, família e amigos, que certamente ficaram surpresos. “Se não serás padre, por que estudar teologia?... Mudarás de ideia no decorrer dos anos... Estás escolhendo um caminho difícil de se trilhar. Tens certeza?... foram algumas das indagações feitas. Ao longo desses três anos, estou muito mais convencido do chamado que Deus me fez e me faz diariamente. Ao escutar o íntimo da minha vocação, esta é a canção que sempre soa mais alta, e sou grato ao Senhor por isso.

As muitas perguntas feitas em anos anteriores foram respondidas. E sou feliz pela minha resposta, consciente que a viagem não terminou. E neste caminhar, o cuidado é uma necessidade para continuar perseverando, pois tudo que não se cultiva, morre. Junto ao meu grande desejo de viver como Irmão Xaveriano, deve-se somar o terreno que me possibilita viver (a comunidade, os irmãos, etc), porque não sou algo separado do todo. Integro a mesma família.filipinas

O sonho de Deus...

Como Xaverianos temos como lema “Fazer do mundo uma só família”. Esta construção parece um tanto utópica, mas torna-se concreta na medida em que aprendo a reconhecer e valorizar o outro como irmão, irmã. A humanidade é a base comum que nos faz família. Este projeto passa pela educação do meu próprio eu, pois não é um ato mágico. Não apenas educação baseada nos livros, mas no relacionamento. Entendo que este ser família inicia primeiramente na minha própria comunidade, com os irmãos que convivo diariamente. Nós somos uma comunidade internacional (Brasil, México, Congo, Indonésia, China, Camarões, Burundi, Itália, Serra Leoa), somos chamados, com todas as nossas diferenças, a construir família.

Se Jesus é sempre o primeiro a nos encontrar e chamar, “Não fostes vós que me escolhestes. Eu vos escolhi” (Jo 15, 16). Ao segui-lo, Ele deve ser nossa referência para tudo. A música de Pe. Zezinho resume muito bem esta jornada de discipulado “Amar... Sonhar... Pensar... Viver... Sentir... Sorrir como Jesus”. É um exercício diário que não acontece automaticamente, mas exige esforço, disposição para permitir que Ele viva em nós (Gal 2,20). Esta é a jornada que estou fazendo na comunidade, no apostolado e através dos estudos teológicos. Em palavras simples, é cultivar uma forte amizade com Ele: encontro.

Uma das imagens de amizade que gosto, é a da casa. Diariamente passamos em frente de muitas e diferentes casas. Dessas, algumas teremos a oportunidade de nos aproximar. E nesta aproximação, algumas nos receberão no portão, outras nos deixarão na sala de estar, outras nos leverão à cozinha para um café, e haverá outras, ainda que nos permitirão conhecer a casa toda. Tudo depende do relacionamento que estabelecemos. Ao longo da nossa vida sempre seremos hóspedes e anfitriões. Eu acolho e sou acolhido, partilho e recebo, enfim, existirá uma interação. Da interação nasce laços profundos de amizade que nos mantém unidos, mesmo da distância.

Então o ponto-chave de toda vocação está em manter contato frequente com Aquele que aqui nos trouxe: Jesus Cristo. Eu preciso muitas vezes lembrar para mim mesmo “Giomar, não esqueça quem te trouxe aqui!”. Se minha amizade com Jesus Cristo tem esta profundidade, não importará muito o lugar que Ele me envie, o serviço que sou chamado a desempenhar, eu irei, eu farei. Comungamos do mesmo sonho. Tenho lembranças de missionários e missionárias em minha região (Amazonas), que vindo de longe, se colocaram para viver o sonho de Deus com o povo. E a alegria que eles tinham em tudo que partilhavam me deixou inquieto. Foi o início da minha inquietude vocacional: “eu também quero experimentar esta alegria!” Anos passaram, e me tornei Xaveriano. Não tenho nada de extraordinário, mas Deus quer contar comigo mesmo assim. E com alegria me coloco a disposição, mesmo sem saber o que virá amanhã. Ele sempre me diz “Não tenhas medo!” (Lc 5,10). Então, que tal embarcar você também nesta aventura?

Giomar Henrique, (Missionário Xaveriano na Teolgia de Manila-Filipinas)


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