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Vocação

RUMO A DÉCADA DE MINHA VIDA SACERDOTAL MISSIONÁRIA ALÉM-FRONTEIRAS


“Que poderei retribuir ao Senhor por tudo aquilo que Ele fez em meu favor? Elevo o cálice da salvação invocando o nome santo do Senhor” (Sl 115, 12-13). Fui ordenado sacerdote missionário no dia 14 de agosto de 2011, a Bukavu, República Democrática do Congo.

Dez anos estão para chegar para agradecer, comemorar, exultar de alegria e deixar o coração palpitar pelo toque do amor misericordioso de Deus Pai que envolve a minha vida sacerdotal além-fronteiras. Acredito que seja também a feliz oportunidade para reavaliar a minha trajetória e reconhecer humildemente a bondade do Senhor que perpassou as experiências e as aventuras vividas. “O Senhor não poderia ter sido mais bondoso para comigo e para conosco”. Gostaria ressaltar alguns pontos fortes que marcaram essa década em “advento”, a saber: os presentinhos da minha mãe e a experiência pascal no Brasil.

1.  no dia da minha missa de premissa, a minha mãe me surpreendeu com três presentes muito simples mas repletos de significado incrível. Foi estranho porque ela não se preocupava de comprar túnica, estola, batina ou outro objeto de necessidade litúrgica. Tampouco ela não quis comprar celular, notebook ou outro objeto de uso comum na atualidade. Ela resolveu oferecer o relógio, a esteira e a sandália. Depois ela explicou para a comunidade os motivos de sua escolha: Estou oferecendo-lhe o relógio para lembrar do tempo, presente da graça Deus. Eu entendi que ela queria dizer “precisa viver cada momento como “Kaíros” (tempo da graça de Deus)”: na alegria e na tristeza buscando o crescimento.

Para crescer é preciso aprender alguma coisa boa com tudo o que está acontecendo ao meu redor. Sempre Deus tem algo a nos falar com aquilo que está acontecendo. Depois, ela ofereceu a esteira para lembrar a necessidade de orar. A esteira é usada nas várias culturas africanas para fazer orações, para confraternizar, descansar ou compartilhar as experiências. Eu interpretei essa esteira, como necessidade de estar primeiro ligado a Deus para poder estar ligado aos outros. Por mais que coloco Deus no centro da minha vida, obrigatoriamente entro no horizonte da fraternidade que supera as barreiras raciais, linguísticas, culturais, religiosas, políticas, sociais, etc. Por fim, ela ofereceu as sandálias dizendo: quero que você ande onde Deus mandar; queira no Norte, Sul, Leste, Oeste. Depois acrescentou: “Eu criei você não por mim só, mas para o mundo, para os outros”.

2. A Páscoa na terra de Santa Cruz – “Pátria amada Brasil” A vocação missionária exige a experiência pascal, isto é, a passagem da morte para a vida: precisa morrer na própria cultura para renascer na cultura do outro. Obviamente, sem humildade, sem abertura, sem confiança, sem convicção que estou aí por Deus e pelos irmãos, o processo da aculturação e de inculturação tornam-se quase impossíveis. O Brasil se tornou pra mim a “terra prometida”. Pude experimentar as alegrias do povo, vivendo com ele as amizades fecundas e verdadeiras, aprendendo a caminhar na lógica de reprocidade, ou seja, “mutatis mutandis” – a experiência de dar e receber.

O intercambio me ajudou a relativizar alguns aspectos de minha cultura para me mergulhar profundamente na cultura do povo onde me encontro. Precisava aprender, descobrir as riquezas culturais do povo, saborear a vida com simplicidade e alegria, caminhar juntos como irmãos, construir juntos o mundo mais fraterno e mais humanizado. O ponto comum que une todas as culturas do mundo é o evangelho, ou seja, a boa notícia trazida por Jesus Cristo, o Verbo Divino que se encarnou na história da humanidade de todas as culturas do mundo. Nesse processo, o poio das comunidades xaverianas onde passei foi determinante.

Contudo, a compreensão, a acolhida, a comunhão recíproca, o companheirismo, a fraternidade e a misericórdia foram de grande relevância. “A Igreja deve ser o lugar da misericórdia gratuita, onde todos possam sentir-se acolhidos, amados, perdoados e animados e viverem segundo a vida boa do Evangelho” (EG 114). Todavia, as comunidades não eram sempre “ninhos calorosos” onde se encontrava o conforto. Abrir-se ao mundo externo foi determinante para alargar as relações e fomentar a verdadeira e fecunda cultura do encontro e da evangelização cara à cara. Pretendo comemorar e seguir firme nesse desafio da fé e da missão. “A missão é sempre partir, mas não devorar quilômetros. É sobretudo abrir-se aos outros como irmãos, descobri-los e encontra-los. E se para encontra-los e amá-los, precisa atravessar os mares, e voar lá nos céus, então Missão é sempre partir até os confins do mundo” (Dom Hélder Câmara).

Pe. Crispin Luhinzo Mugalihya


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