Hoje inicia uma nova era de paz

A mensagem de Papa Leão XIV para o dia mundial da paz 2026: “A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante”, não podia que suscitar, no coração de um missionário xaveriano, um redemoinho de memórias e de sensações positivas. Sempre, mas particularmente agora que um capitulo geral (se repetindo por mais de vinte vezes) nos falou de carisma e de compromisso a ser oferecido ao mundo e à Igreja o dom/carisma que nós recebemos pelo Espírito. Chamados a recordar ao mundo que a humanidade é uma família e oferecer a esta família a possibilidade de se tornar uma família cristã.
O fundador, nomeado arcebispo de Ravenna em 1902 precisou renunciar somente depois de 2 anos. Descansou e sua saúde retomou vigor assim que em 1907 o Papa Pio X o nomeou auxiliar e, ao falecer o bispo, sucessor ficando bispo na diocese de Parma até à morte, 05 de novembro1931. Tomou posse em Parma na festa da Anunciação, 25 de março, 1908.
As primeiras décadas de 1900 foram tumultuadas por uma situação civil, social, política e econômica, em toda a Europa e em particular na Itália. Estas situações de protestas e lutas entre classes levaram à primeira grande guerra mundial (1914 – 1918). Conforti tomou posse quando, a partir de Parma, estavam preparando as grandes greves agrícolas (maio/junho 1908).
Acredito que nos ajude a conhecer São Guido e seu carisma a leitura e meditação do discurso de posse in Parma na página que lança um sofrido apelo à paz.
Só uma nota para evidenciar como o Fundador do Missionários Xaverianos era aberto aos avanços da doutrina social de Igreja, a partir da Rerum Novarum. Aqui em 1908 afirma: “O direito à propriedade é sagrado e inviolável”. Dez anos depois escreve: “a propriedade pode ser ilegítima, uma propriedade que não pertence mais ao proprietário, mas aos pobres”.
Vamos ler e refletir o Apelos de paz do bispo de Parma
E eu, representante entre vós Daquele que veio à terra para trazer a paz aos homens e que é chamado, pelos escritores inspirados, de Príncipe da Paz, nesta primeira vez que me apresento solenemente a vós, (peço que) deixeis que faça ressoar, sob as abóbadas solenes desta basílica, a saudação da paz, que eu desejaria encontrasse eco profundo em vossos corações e ficasse como lembrança deste solene dia. E como poderia eu ficar indiferente enquanto, no meio de meu povo, que considero minha família adotiva, está sendo agitada a foice da discórdia, para alimentar profundas lutas entre o rico e o pobre, o capital e o trabalho?
Paz vobis! A paz do Senhor esteja convosco, ó irmãos, aquela paz que não é outra coisa que a tranquilidade da ordem, e a ordem é o que faz com que cada coisa ocupe o lugar que lhe foi destinado pela Divina Providência, segundo suas várias relações.
Estai, portanto, em paz com Deus, a quem haveis de haurir sempre que estiverdes na posse de sua graça, de sua amizade, de seu amor, na observância de sua lei, no fugir do pecado, no cumprimento exato dos deveres de vossa condição. Estai em paz convosco mesmos, que consiste na tranquilidade da alma, e que não pode ser conseguida a não ser resistindo às exigências da natureza corrompida, a não ser subjugando aquelas paixões desenfreadas, que provocam tumulto, tempestade em nosso pobre coração, feito para o bem, para a virtude, mas que, por triste consequência do pecado original, sente forte inclinação ao mal, de modo a ter que repetir, tantas vezes, o ditado do poeta pagão: vejo o melhor, mas me apego ao pior.
Neste momento, porém, com o afeto trépido de pai amoroso, preocupado com o bem e o futuro de seus filhos, exorto-vos à paz com os irmãos; entre vós todos, separados por um muro e por um fosso, entre vós todos, que respirais o mesmo ar da vida, tendes os mesmos hábitos, os mesmos interesses e negócios. Cada um, não há dúvida, tem o direito de defender honestamente o próprio progresso, mas todas as classes devem buscar, em perfeito acordo, o bem comum, sem excluir as razões de ninguém.
Os conflitos sociais são inevitáveis, assim como é inevitável o contínuo desenvolvimento da sociedade, mas nunca será o ódio, a vaidade, o egoísmo, o irromper das mais desenfreadas paixões que conduzirão a uma solução plausível para as mais intrincadas divergências. Tudo isso não levará que a vinganças mais ou menos violentas, a um estado tumultuado de coisas que nunca poderá durar longo tempo. É necessário que as partes inimigas se reúnam pacificamente, mesmo que com algum sacrifício de sua parte, de modo a preparar um futuro melhor, resultante do equilíbrio entre os deveres e direitos recíprocos que, antes de tudo, encontram sua razão de ser na lei natural, e depois, na caridade e na justiça proclamada pelo Evangelho.
Filhos da labuta, trabalhadores do campo e da oficina, objetos de predileção do Coração de Jesus, que desejou ser de vossa condição, portanto, preferencialmente amados pela Igreja e por vosso Bispo, não deis tão fácil escuta àqueles que sempre gritam contra a tirania e depois querem vos fazer escravos de outra tirania que impõe até o sacrifício de vossa fé e da de vossos filhos. Não é verdade que a religião impede vossa melhoria econômica buscada por meios lícitos pela civilização hodierna; impede-vos apenas o ódio, as injúrias, as violências, o exagero das pretensões que ofendem o direito alheio e que, em vez de apressar, retardam muitas vezes o triunfo até daquilo que é justo e honesto. Pensai, sim, em melhorar vossas fontes de rendas, mas não vos esqueçais que as diferenças sociais são inevitáveis, que esta terra não é nossa verdadeira pátria, que nosso coração tem desejo do infinito, portanto, aqui na terra nunca poderemos alcançar a plena satisfação de nossas aspirações.
E vós, ricos, proprietários, capitalistas, que considero também como meus filhos caríssimos em Jesus Cristo, nunca vos esqueçais de que os operários de vossas oficinas, os trabalhadores de vossos campos são vossos irmãos, porque filhos de um mesmo Pai, redimidos pelo mesmo preço e destinados à mesma glória, por isso, deveis considerá-los e tratá-los como tais. Nunca vos esqueçais que esta fraternidade vos impõe os sérios deveres que deveis realizar e que o esquecimento deles produz, posteriormente, o desequilíbrio social e descontentamento geral que gera a reação. O direito à propriedade é sagrado e inviolável. A lei terrena, não menos que a lei evangélica, o ratifica, mas a desenfreada avidez de enriquecer é condenada tanto por uma quanto pela outra lei. Sede, portanto, sempre humanos, generosos com aqueles que vos prestam serviço, levando em consideração a mudança dos tempos e do trabalho. Transmiti aos que dependem de vós, com a palavra e o exemplo, a prática daquela religião que, de modo mais eficaz que qualquer outra repressão legal, é a salvação de todo direito, e assim tereis contribuído para o bem, para a prosperidade de nosso querido país. Então, entre o proprietário e o trabalhador, entre o capital e o trabalho, reinará verdadeiramente a paz, porque a caridade e a justiça do Evangelho regularão as relações recíprocas.
Pax vobis! A paz do Senhor esteja convosco! Eis os votos mais fervorosos que faço a meus filhos neste momento solene, e vós, que me escutais, levai esses votos também aos ausentes. Se perguntarem o que foi que o Bispo disse nesta auspiciosa ocasião, podeis responder: Ele expressou o voto de que reine, entre nós, a caridade de Jesus Cristo e, com ela, aquela paz que trouxe do céu à terra e que não é outra coisa senão a tranquilidade da ordem.»









