Natal no Japão: festa de aniversário sem o aniversariante

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 Você já participou de uma festa de aniversário onde o festejado não estava presente? Acredito que não, mas aqui no Japão isso pode acontecer. Você já parou para pensar como o Natal é celebrado do outro lado do mundo, no Japão?

Pode não ser verdade, mas conta-se que um turista estrangeiro ficou chocado ao entrar em uma loja de Kyoto, às vésperas de um Natal dos anos 60, e se deparar com o Papai Noel pregado à cruz que os cristãos usavam como símbolo de sua Igreja. Não era nenhuma afronta religiosa, mas o fato é que, para a maioria esmagadora dos japoneses daquela época, a data não fazia o menor sentido e uma pequena falha de comunicação podia ter levado a um mal entendido do tipo. Hoje, em um mundo globalizado, com internet, estrangeiros fluentes em japonês e nipônicos poliglotas, confusões dessas são mais difícil de acontecer. Pode até acontecer, mas é difícil fazer com que os japoneses entendam o real significado do Natal.

Para a maioria das pessoas aqui no Japão comemorar o Natal é como participar de uma festa de aniversário sem o aniversariante.

Na Europa, América e África, o Natal é uma festa familiar, marcada por tonalidades cristãs. Na Ásia, onde predominam religiões como o budismo, confucionismo, islamismo e xintoísmo, o Natal é celebrado de modo diferente, com uma intensa vertente comercial. No Japão, o dia 25 de dezembro não é feriado. A maior parte dos japoneses trabalha neste dia. Por isso, o aniversário do nascimento de Jesus não é celebrado pela maior parte dos japoneses.

Apenas os cristãos japoneses o celebram. Ora, o número de cristãos japoneses não excede um por cento da população total do Japão. Também os cristãos japoneses, na sua grande maioria, trabalham nos dias 24 e 25 de dezembro. Por esta razão, as missas da vigília de Natal são celebradas geralmente às 18 ou 19 horas com uma pequena festa depois, mas que acaba cedo porque todos devem trabalhar no dia seguinte. Talvez a Arquidiocese de Nagasaki seja uma exceção e eventualmente se celebre, numa ou em outra paróquia, a tradicional Missa de Meia-noite.

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No entanto, todos os japoneses celebram no dia 23 de dezembro, o aniversário do atual Imperador. Curiosamente a maior parte das pessoas desconhece que o primeiro nome de Sua Majestade é Akihito. Todos se referem a ele como o Imperador Heisei (que pode ser traduzido literalmente como volta à paz).

Esta celebração do aniversário do imperador é tão importante que ela marca o calendário financeiro do país. Cada vez que retiramos dinheiro de um caixa eletrônico, a data colocada no recibo é uma referência à regência de Sua Majestade.

Em vez de aparecer o ano de 2015 no recibo, aparece o ano 27. Esta data corresponde ao período Heisei, que se iniciou em 1989, e marca o número de anos desde que o Tennou (o Imperador dos Céus) ascendeu ao trono imperial.

Por isso o Natal japonês não é um feriado nacional, uma festa familiar ou a comemoração do nascimento de Jesus. O Natal japonês é essencialmente comercial.

Todas as grandes lojas, empresas e departamentos comerciais ostentam decorações natalícias. Algumas famílias cristãs e não cristãs, eventualmente, montam, em suas casas, árvores de Natal. Talvez apenas às igrejas católicas faça os presépios.

Na tarde dos dias 24 e 25 de dezembro, milhares de pessoas, voltando do trabalho, aguardam pacientemente, em filas organizadas, a oportunidade para comprarem o bolo de Natal. Desde 1970, após uma campanha bem sucedida da cadeia de fast-food, Kentucky Fried Chicken (KFC), tornou-se tradição comer frango frito no dia de Natal. Algumas crianças japonesas passaram a acreditar que o autêntico Papai Noel é o Coronel Sanders, imagem comercial do KFC. Nos meios de comunicação social nipónicos, o Natal é retratado como uma noite romântica.

Por isso, muitos casais de namorados japoneses fazem reserva em um restaurante. Os homens oferecem presentes às suas amadas. Habitualmente, dão presentes engraçadinhos (kawaii), tais como flores, lenços, anéis... Existem também Hotéis do Amor (Love Hotel), cujos quartos e corredores ostentam símbolos natalícios e oferecem promoções nesta época.

É impossível estabelecer um paralelismo entre o Natal japonês e o Natal brasileiro, mesmo se pensarmos somente aos cristãos. Não tem a missa do galo, nem panetone, nem peru ou chester na ceia, nem canções de natal... Haverá provavelmente presentes natalícios, mas estes são apenas dados às crianças. É impossível estabelecer um paralelismo entre o Natal japonês e o Natal ocidental, mesmo se pensarmos apenas na dimensão comercial.

Algumas mulheres ocidentais (americanas, inglesas...), casadas com japoneses, quando tentam recriar nas suas casas um Natal perfeito (convidando a família do marido, montando uma belíssima árvore de natal, oferecendo uma ceia com comida e bebida em abundância, cantando canções natalícias e incentivando a troca de presentes...) são olhadas com desconfiança e os seus esforços podem não recolher grandes aplausos. Na cultura japonesa não é hábito preparar refeições numa quantidade que exceda o apetite dos convidados. Os japoneses não gostam de estragar comida ou bebida.

Quanto às canções de Natal o único modo de se obter participação dos convidados é recriar uma noite de Karaoke, com as letras das músicas exibidas num televisor em katakana. Com relação aos presentes provavelmente todos acharão bastante estranho que se troquem presentes e talvez não os abram mesmo no momento da festa natalícia, mas nas suas próprias casas.

Apesar de tudo isso, aqui na paroquia e na creche, nós fazemos de tudo para festejar com muita alegria e esperança Jesus que veio no meio de nós. O Natal é uma festa que celebra a esperança. E a esperança é uma força ativa em nós que nos permite vencer o desânimo e acreditar que a vida e o mundo têm futuro. Ali no presépio, Deus nos oferece uma lição: poderia ter desanimado e desistido de salvar a humanidade, poderia ter escolhido um caminho mais fácil para fazer seu Filho vir ao mundo. Mas Deus preferiu identificar-se com o ser humano, amando-o apaixonadamente a ponto de assumir os riscos de todas as dores. O Deus da esperança sabia e sabe que o amor podia e pode vencer sempre.

Lembra-te: alimentar a esperança é assegurar a possibilidade de renascer em cada Natal que a fé nos convida a celebrar. Feliz Natal a todos.

Pe. Michel da Rocha.