A origem da festa dos mortos no México

  • Rafael Lopez Villasenor
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A morte pode ser pensada de muitas maneiras: intelectualmente, tornada objeto de estudo e de especulação filosófica, religiosa dando sentido a existência, cultural ou literária, mas ao final sempre vivemos a experiência da morte alheia, são os outros que morrem e quanto se experimenta a própria morte, esta não se pode contar.

Para a morte, sempre existiram muitas classificações, como morte morrida, morte matada, morte tranquila, morte violenta, entre outros ditos, mas existem muitos rituais de passagem diferentes conforme a cultura do grupo;  enfim, estabelece-se um movimento perante essa realidade que se modifica no tempo e  espaço. A morte, nesse sentido, torna-se um produto sócio-histórico. Através dos tempos, a  consciência religiosa cultural busca oferecer um conjunto de projeções e explicações que objetivam  orientar o comportamento humano diante desse desconhecido – o pós-morte.

 A morte é um evento marcante para todo ser humano, mas no México esta realidade é vivida de maneira original. A origem do dia dos mortos tem raízes nas culturas indígenas pré-hispânicas de centro America. A maneira própria da representação da morte acontece com humor, afabilidade e até com certa ironia tanto nas gravuras, como nas músicas, nas caveiras de açúcar com os nomes de pessoas na festividade. No dia dos mortos a cultura popular mexicana, festeja, se diverte e brinca de forma irônica com a morte misturando o sagrado e o profano, criando um sincretismo religioso que mistura tradições religiosas do catolicismo e dos povos indígenas.

Todas as pessoas vivem o sentimento de homenagem aos mortos, mesmo que grande parte da população não tem conhecimento sobre as origens e o significado da celebração do dia dos mortos, ainda assim, passou a ser uma das festas mais tradicionais e populares de México.

  O México é um país com a maioria do seus habitantes católicos que celebram de formas sincréticas a morte, que misturam o sagrado e o profano de uma maneira irônica, que pode ser considerado um deboche deste sentimento para quem não conhece a cultura. A celebração se remota às culturas do México antigo.

 A forma de celebrar o dia dos mortos encontra suas origens pré-hispânicas nas culturas indígenas. Há relatos que os povos indígenas Astecas, Maias, Nahuatls e Totonecas praticavam o culto aos mortos. Os rituais que celebram a vida e a morte dos ancestrais se realizavam nestas civilizações pelo menos há três mil anos. Na era pré-hispânica era comum a prática de conservar os crânios como troféus, e mostrá-los durante os rituais que celebravam a morte e o renascimento. Paz (2000) afirma que os astecas acreditavam na vida como um prolongamento da morte e vice-versa, sendo estados de um processo cósmico, que se repetia insaciavelmente na natureza. Observavam os ciclos naturais e concluíam que após as chuvas vinham as secas, sendo que neste primeiro momento tudo florescia, enquanto que no outro tudo morria, para depois voltar a florescer novamente. Desta observação surgiu a crença de que este movimento contínuo explicava a existência das noites e dias, da vida e morte.

Para os povos Mexicas, os que morriam podiam ir para um dos três lugares nos que  se acreditava, dependendo da causa da morte. Se morria por enfermidade estes iam num lugar sem luz e sem janelas, sem oportunidade de sair de ali; se morria por afogamento ou por doenças contagiosas ia ao paraíso, onde havia muita comida e diversões; quando se morria em batalhas ou as mulheres morriam durante o parto, iam ao céu onde vive o Sol. As culturas pré-colombianas acreditavam na imortalidade da alma e na vida ultra túmulo ao se desprender do corpo. Para eles a morte não significava o fim da existência mas uma mudança. Por sua vez, os Maias enrolavam os corpos em panos e enchiam sua boca de alimento para que na outra vida não lhes faltasse o que comer. Os corpos eram incinerados ou enterrados no fundo das casas ou em túmulos comuns.

 Os Astecas também incineravam ou enterravam os corpos dos defuntos, mesmo que as práticas dependiam do estrato social ao que se pertencia.  As pessoas eram enterradas com a roupa e jóias que tinham, as cinzas dos que eram queimados se introduziam em panelas de barro e nelas ficavam as jóias como propriedade do falecido. Outra tradição era de cantar, comer e beber durante o transcurso da cerimônia.

A  cosmovisão asteca tinha suas dualidades, que girava ao redor da dicotomia morte e vida, entendendo que a responsabilidade por manter o equilíbrio entre os homens e o universo, que estava nas suas mãos, neste contexto, existia para os astecas, a necessidade de realização dos sacrifícios humanos. Para eles o essencial era assegurar a continuidade da criação; o sacrifício não apenas introduzia para a salvação além do horizonte, mas também para a saúde cósmica; o mundo e não o indivíduo, vivia graças a morte dos homens. O sacrifício tinha uma dupla finalidade: ascender o processo do criador, pagando para os  deuses a dívida contraída pela espécie humana; por outro lado, alimentar a vida cósmica e social, que sempre se nutre da primeira. A solenidade dos sacrifícios acontecia no décimo mês do calendário asteca, com a confecção de abundantes oferendas em memória dos mortos em guerra, bem como dos valentes que haviam sido imolados para manutenção do cosmos. Durante o sacrifício, um grupo de jovens com muitos adornos e jóias, dançava ao redor do altar, sendo este rito uma forma de celebrar a morte e dar as boas-vindas à vida.

            Cada parte da vida estava associada a uma ou mais divindades, e essas deveriam ser “pagas” para que cada uma das fases fosse realizada com sucesso. Os deuses eram “pagos” com oferendas, comida, flores e animais. Mas a maior oferenda a ser proporcionada era o próprio sangue, uma vida humana e até a vida de um deus.  A festa dos mortos, também estava vinculada com o calendário agrícola pré-hispânico. Comemorada na época da colheita. Seria como o primeiro período de fartura, o primeiro banquete, depois da escassez dos meses anteriores.

 Os missionários católicos durante a colonização espanhola tentaram acabar com os costumes indígenas do culto aos mortos, mas apenas conseguiram modificar estas tradições e transferir o culto aos mortos para a data da festa cristã do dia de "todos os santos" e dos "fieis defuntos", nos dias 01 e 02 de novembro, de cada ano e os sacrifícios que tanto horror causaram aos conquistadores, pouco a pouco foram sendo substituídos pela doutrina católica da salvação pessoal. Mas, a tradição da celebração dos mortos permaneceu mais ou menos semelhante com o costume original dos povos indígenas de oferecer comidas, bebidas e outros objetos aos falecidos, criando desse jeito, um sincretismo próprio. A população deu destaque à festa do dia dos mortos, sendo parte do imaginário da cultura popular mexicana, onde passou a ser vivido de maneira original, misturando a cultura indígena e catolicismo popular. Esta festa faz parte da resistência indígena, das raízes nativas da cultura Asteca e Maia destruída, em grande parte, pelos colonizadores espanhóis.

O catolicismo introduzido pelos espanhóis, não mudou totalmente o passado pré-hispânico, apenas fomentou a forma religiosa de culto indígena aos mortos, criando uma forma própria de sincretismo religioso. Como vimos anteriormente, desde antes chegada dos Espanhóis, os povos indígenas acreditavam que a vida continuava após a morte, de fato, a vida mesma se alimentava da morte. Para nós cristãos a morte é a passagem para a vida eterna, para os astecas a morte era a maneira de participar com as forças criadoras dos deuses. Eles acreditavam que nem a vida, nem a morte lhes pertencia, tudo era um capricho dos deuses.

A religião dos povos indígenas Maias e Astecas, em centro America era politeísta, tendo os deuses uma base na natureza. Os deuses da morte estavam representados por meio de caveiras, de fato, a morte para estas culturas era identificada por medo da imagem da caveira. O deus da morte dos Maias era representado com a imagem de um corpo humano esquelético.

Atualmente é a festa que a morte invade a vida e a vida invade a morte, como dois movimentos do mesmo evento. Sua origem podem ser considerada como uma miscigenação entre as culturas indígenas e espanhola, que ao misturar-se deram lugar a todos os rituais e cerimônias realizadas de maneira original e irônica em torno de esta festividade popular.

Rafael Lopez Villasenor.