“Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5,24).

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Amós, camponês do Reino de Judá, e Oseias, profeta do Reino do Norte, com sua profecia, tecem rede para apontar o que ameaça a Casa Comum, o que ameaça a vida do povo. Tecer rede é o que vamos fazer nesta Campanha da Fraternidade:

rede ecumênica, rede ecológica, rede para nos dizer, mais uma vez, que é da vida da Casa Comum que nos hospeda que depende nossa vida.

“Ouvi a palavra de Iahweh, filhos de Israel, pois Iahweh vai abrir um processo contra os habitantes da terra, porque não há fidelidade nem amor, nem conhecimento de Deus na terra. Mas perjúrioe mentira, assassínio e roubo, adultério e violência, e o sangue derramado soma-se ao sangue derramado. Por isso a terra se lamentará, desfalecerão todos os seus habitantes e desaparecerão todos os animais selvagens, as aves do céu e até os peixes do mar” (Os 4,1-3). As palavras de Oseias retratam a realidade de seu tempo, que se estende à nossa própria realidade.

Faço um convite a você que está lendo: pare, releia o texto, faça ecoar, em seus ouvidos, a voz do profeta Oseias.

Ele transpôs o tempo. Está falando para nós, então reconstrua o texto para nosso hoje...

As palavras de Oseias acordam em nossa memória o Decálogo, um Decálogo crítico, um Decálogo que denuncia. Três são as atitudes fundamentais do ser humano em seu relacionamento com Deus: fidelidade, amor, conhecimento. Abandonar essas três atitudes resulta numa tragédia. Tragédia que o profeta descreve mediante sete situações: perjúrio e mentira; assassínio e  roubo; adultério e violência e o sangue derramado, que se soma ao sangue derramado.  A relação com Deus foi abandonada. Romperam-se as relações humanas. O resultado é uma sociedade que coloca em colapso a Casa Comum.

O profeta tece rede conosco e nos questiona: Será que a felicidade depende da quantidade de dinheiro e dos bens e serviços que ele nos permite adquirir? Essa é a promessa do modelo de economia que temos. Ela organiza nosso modo de ver, pensar e sentir; leva-nos ao consumismo internalizado como valor, pregado pela propaganda sistemática que invade nossos lares, nossas ruas, nossas cabeças. O senso comum é consumista. Nossos valores são atrelados a sinais de consumo; nosso dia a dia é cheio de sinais do ter e consumir, algo que acaba legitimando o sistema, afastando-nos da reflexão a respeito do sentido disso tudo e das desgraças que o consumismo faz gerar. A desigualdade social e a exclusão, assim como a destruição ambiental, podem até ser vistas e sentidas, mas é como se “não fosse com a gente”, como se não estivessem relacionadas com o nosso modo de viver.

À voz do profeta Oseias que denuncia responde o profeta Amós apontando caminho: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5,24).

Direito é fonte, Justiça é riacho que não seca: essas duas imagens nos fazem sentir o frescor da água viva correndo. Trata-se de imagens que nos convidam a beber, a trazer de volta o sentimento de fazermos parte da grande comunidade de sujeitos humanos relacionados entre si e com tudo, num mundo interdependente. Água correndo que estabelece relações e nos faz usufruir a vida que decorre das trocas tanto com os humanos quanto com todos os elementos da natureza (o ar, a chuva, a água, o Sol, a Lua, as montanhas, os animais, as plantas…). Relações que são de respeito, tendo como pressuposto a dependência mútua.

casa comum

Refazer os laços com a Mãe Terra.

Voltar a nos olhar e tomar conhecimento das possibilidades e limites pode ser o caminho para reconstruir as relações entre nós mesmos e entre nós e o entorno natural, no respeito mútuo, de trocas vitais, que se reproduzem e se regeneram, sem destruir.

Essa inspiração aponta o caminho para uma reconstrução ética e prática a fazer, enquanto humanidade.

Mas não nos iludamos: o caminho da mudança não está dado e são muitos os desafios.

O que é ou pode ser o cuidado com a casa comum numa favela, num lixão urbano, num acampamento de refugiados, numa comunidade de posseiros e sem-terra, ameaçados e sendo migrantes “sem eira e nem beira”?

Como redescobrir o cuidado com a casa comum  cercado por canaviais e eucaliptos a perder de vista? Como voltar a sonhar com o cuidado com a casa comum  nas nossas cidades feitas para carros de uso individual, ou nos edifícios refrigerados e nos condomínios cercados, que favorecem a mais radical separação entre nós mesmos e o “mundo de lá de fora”? Qual o senso de comunidade, de interdependência e solidariedade que ainda existe para ser resgatado de dentro do que a civilização individualista, consumista e destruidora do bem comum nos transformou?

As grandes mudanças na história aconteceram por vontade de gente mobilizada em torno de ideais.

O que seria se juntássemos forças cidadãs em torno do cuidado com a casa comum?

Tea  Frigeiro (mmx).