Testemunho missionário do Pe Everaldo

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Nossa homenagem ao gaúcho Pe. Everaldo dos Santos, xaveriano, que em plena atividade, Deus o chamou. Faleceu de uma virose, no dia 12 de dezembro de 2015, com 46 anos de idade, dos quais 18 vividos nas Filipinas.

Foi sepultado em sua comunidade como sinal de eterna vizinhança com o povo dessa missão pois sempre acreditou nesse projeto missionário que pertence a Deus e a sua Igreja e que continua mesmo depois da morte. Aqui seu testemunho escrito no ano passado

“Mesmo que o mês dedicado à missão já tenha passado, eu gostaria de partilhar um pouco da minha experiência missionária onde estou desde 1997: Filipinas. Este país é um arquipélago localizado no sudeste asiático cuja capital, Manila, fica a quatro horas de voo de Tokyo ou apenas duas horas de voo de Hong Kong.

A população filipina é de aproximadamente 100 milhões espalhada por mais ou menos sete mil ilhas. Filipinas se caracteriza por ser, com exceção do Timor Leste, o único país cristão da Ásia, herança de quatrocentos anos de colonização espanhola.

Dado o fato de que o país é na verdade um arquipélago de ilhas, alguém certamente imaginaria o Pe. Everaldo num pequeno barco andando por entre as ilhas tropicais mais distantes dos confins da Ásia tentando catequizar tribos nativas ainda em pouco contato com a civilização. Os que imaginam que meu trabalho missionário seja assim ficarão decepcionados.

Apesar da imaginação ser romântica e bonita, na verdade, desde 1997 até hoje sempre morei na grande Metro-Manila, uma imensa metrópoles com mais de 12 milhões de pessoas a qual eu chamaria de floresta eletrônica. Aqui se encontra de tudo o que existe de mais bonito e avançado no mundo da tecnologia e de novas atrações, desde o mercado informal da pirataria até o luxo dos aborígines, dos centros comerciais de alto padrão e das telas cinematográficas tridimensionais. É aqui em Manila que as pessoas vem de todas ilhas em busca de oportunidade de uma vida melhor.

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A vida no interior é muito dura, sem conforto algum e com poucas esperanças de melhora. Vindo para a cidade, se amontoam nas favelas e, para sobreviver, faz-se o que se pode. É no meio desta realidade de periferia que tenho vivido todos estes anos.

Aqui aprendi muitas coisas. Entre elas, me dei conta de que no mundo de hoje o grande desafio da missão da Igreja é evangelizar essa massa de gente dos centros urbanos e das periferias das grandes cidades. Nesta floresta eletrônica e virtual as pessoas se perdem: perdem o senso de direção na vida, se desenraizam da própria cultura, perdem o senso de valores morais e éticos, famílias se desintegram com muita facilidade, a religião perde sentido e Deus é esquecido.

É essa massa humana que precisa de missionários. Às vezes certos católicos aplaudem de alegria porque três ou quatro chineses foram convertidos e batizados mas não enxergam os milhares que abandonam a Igreja a cada ano simplesmente porque a desconhecem.

Se conhecessem o Evangelho e o ensinamento da Igreja permaneceriam nela, mas a Igreja às vezes não é capaz de fazer valer o seu papel; perde muito tempo, energia e meios com pormenores e as pessoas, na aridez, vão procurar saciar-se de Boa Nova em outras esquinas. Portanto para mim o desafio missionário não está tanto nas ilhas remotas ou nas florestas montanhosas, mas nesse mar de gente que se perde a cada dia nessas imensas periferias do mundo.

Aprendi também que na verdade eu não tenho missão nenhuma. A missão é de Deus, e Jesus, o missionário do Pai, confiou esta missão à Igreja.

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Nós, os missionários xaverianos apenas estamos a serviço desta igreja missionária. Agora eu entendo que missionário não é somente o indivíduo, mas a comunidade. O testemunho mais autêntico de missão não pode ser dado por uma pessoa isolada, mas pela comunidade. A realidade da missão, do mundo e da Igreja são demasiadamente complexos e a atividade missionária somente é efetiva quando desenvolvida de forma corporativa.

Hoje em dia não é mais possível que um missionário, como indivíduo, seja especializado em tudo, mas dentro da comunidade, vários indivíduos podem e devem se especializar em áreas específicas e contribuir para a qualidade da evangelização enquanto grupo.

Desde que aqui cheguei sempre fiz parte de comunidades xaverianas compostas por pessoas vindas de vários países diferentes. E este convívio tem sido o melhor testemunho que estamos dando, com a graça de Deus.

Quando as pessoas locais observam este grupo de pessoas de várias cores, nacionalidades, línguas e culturas vivendo juntas, trabalhando, estudando, rezando e servindo, a mensagem fica dada: é possível ter um mundo mais unido, do jeito que Deus queria desde quando tudo foi criado; do jeito que Jesus queria quando ele tentou reconciliar a humanidade inteira com Deus; do jeito que o nosso fundador St. Guido Maria Conforti queria quando fundou os xaverianos para que ajudassem a transformar o mundo em uma única família.

Desde 2008 quando fui transferido para trabalhar como formador na comunidade internacional de teologia aprendi mais uma coisa muito valiosa: que o povo filipino em geral é um excelente formador para todos os estrangeiros que aqui vem para estudar e se especializar. Existem traços da cultura e religiosidade do povo que fala e dá testemunho de maneira muito profunda para aqueles que se abrem pare ver, ouvir e sentir.

Não quero ser ingênuo e idealizar ou espiritualizar a realidade além do que se deve, mas acredito que seria uma injustiça viver aqui e não perceber e não deixar-se formar pela:

a) Alegria de viver. Mesmo em situações de vida muito precárias este povo não deixa de sorrir; de fazer graça com a própria má sorte, de se encontrar, se divertir, cantar e dançar. Muitas vezes o oceano de problemas e dificuldades que poderiam facilmente levar qualquer um à loucura não impedem os pobres de serem felizes e se alegrar com coisas pequenas e simples.

b) Generosidade. Os pobres são os mais generosos. É no contexto de famílias que sabem que não há o suficiente para todos que os filhos aprendem a pensar no irmão, aprendem a partilhar, aprendem a doar mesmo antes de terem suas necessidades satisfeitas.

c) Persistência. Calamidades naturais vem uma após outra com a mesma regularidade que vem o dia após a noite: inundações, tufões, vulcões e terremotos deixam rastros de destruição muito devassantes. A reação das vítimas sobreviventes poderia ser de desespero, perda de coragem e força para recomeçar. Mas, ao contrário, mesmo sabendo que as calamidades retornarão, logo após a enchente, vendaval, terremoto, etc., as pessoas começam a reconstruir tudo de novo como se tivessem a certeza que a devastação jamais retornará. Esta capacidade de se reerguer novamente tantas vezes durante uma vida é que me ensina muito.

Quando eu cheguei nas Filipinas eu não sabia que iria permanecer aqui por todo este tempo. Hoje, este país, este povo e esta história faz parte de mim e me sinto que tudo isso tem moldado e está moldando a minha visão de mundo. Hoje o Brasil e a Filipinas são minhas duas pátrias, meus dois doce lares, minhas duas histórias, minhas línguas, minhas culturas, minhas experiências de Deus que mais e mais se integram dentro de mim formando aquilo que sou. Estou muito convencido de que a experiência de entrar dentro da visão de mundo de um outro povo é graça divina que nos dá acesso ao conhecimento de mais um aspecto do rosto de Deus”.


  • Agradecimento ao Pe.César que nos enviou o testemunho.
  • Fonte Jornal Parceiros da Missão: Brasília - Abril de 2016 - Ano V - N° 45.