Dar de beber ao sedento

  • Rafael Lopez Villasenor
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Estamos vivendo Ano Jubilar Extraordinário da Misericórdia. Para o Papa Francisco, na bula ‘Misericoriae Vultus’ a palavra misericórdia revela o mistério da Santíssima Trindade; é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro;

é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida; é o caminho que une Deus e o homem. A misericórdia nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado. Viver este ano de graça, significa praticar as obras de misericórdia

Segundo o Catecismo da Igreja Católica, as Obras de Misericórdia "são ações caritativas mediante as quais ajudamos ao nosso próximo em suas necessidades corporais e espirituais”. O papa pede que as obras de misericórdia corporais e espirituais sejam praticadas de maneira profunda neste ano santo extraordinário da misericórdia.

Entre as sete obres de misericórdia corporais: dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar assistência aos enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos. Vamos refletir neste texto “dar de beber aos sedentos”.

Na realidade brasileira, onde existe grande riqueza e abundância de água, “dar de beber aos sedentos” tem um sentido muito diferente do que nos lugares desérticos, áridos, ou semiáridos da Palestina em tempo de Jesus, que atingem níveis de escassez de água muito alto, que é causa de conflitos até os dias de hoje, onde a água é um tesouro desejado para sobreviver.

Sabemos que a água é a fonte de vida, não existe vida onde não há água. Não se pode separar água e vida. Dar de beber ao sedento, significa dar vida no deserto ou em lugares áridos ou semiáridos. Podemos ficar semanas sem comer, mas ficando pouco tempo sem beber, em seguida começa a falência múltipla dos órgãos. A saúde e o bem-estar dependem da água, o uso inadequado de água imprópria causa doenças.

A água é o recurso mais abundante no planeta Terra, este tem 70% da superfície coberta por água, mas apenas 2,4% são de água doce. Entretanto, muitos povos passam sequias, pois a minoria estão disponíveis para o consumo humano. A grande maioria deste líquido é formado por águas salgadas, geleiras e águas subterrâneas de difícil captação.  O risco de desabastecimento em larga escala é uma ameaça nas áreas áridas e nas grandes cidades. Num futuro próximo, a busca pela água para o consumo humano será capaz de provocar disputas internacionais.

A água é uma dádiva de Deus para todos, além do valor em si, a água ajuda na produção de muitos outros elementos para o sustento. Também, à água é atribuída na maioria das religiões uma dimensão sagrada transcendental. Na maior parte dos mitos da criação do mundo, a água é fonte de vida e de energia fecunda. Para nós cristãos a água sempre teve um intenso uso litúrgico e simbólico, por este motivo é preciso conhecer, aprofundar, resgatar o sentido da água em toda Bíblia. Olhando os primeiros textos da Bíblia, no Jardim do Édem nascia um rio que se dividia em quatro braços, lembrando os quatro pontos cardeais, representando a terra inteira (Gn 2, 8-15) Ressaltando a importância do cuidado humano pela integridade da criação.

Na região do Médio Oriente, lugar árido e semiárido, cenário onde surgiu a Bíblia, em que o povo de Israel vive suas experiências, nessa realidade a água é um recurso precioso. Em muitos textos bíblicos aparece o terror da seca e das consequências devastadoras.  O povo de Deus teve uma dolorosa experiência de falta de água, durante o caminho do êxodo rumo à terra prometida, não encontrar oásis para beber ou encontrar água amarga, imprópria fez ao povo murmurar contra Moisés e renegar contra Deus. Entretanto, logo pela ação divina, aparece a água limpa e potável, símbolo da vida que Moisés fez brotar no deserto ((Ex, 15, 23-25; 17,6). No caminho, o povo de Deus, rumo ao a terra prometida aprender a se organizar (Ex 18, 13-27), para cuidar e tratar da água que será consumida (Lv 11,36; Ex 15,23-25; 2 Re 2,19-22).

 A partir da experiência feita no deserto, “dar de beber aos sedentos” passou a ser um dever sagrado e divino. São constantes na Bíblia as exortações para dar de beber a quem tenha sede (Jó 22,7; Is 21,14). Nem sequer aos inimigos se pode negar um copo de água (Pv 25, 21). Enfim, dar de beber a quem tem sede é um dever absoluto e sagrado, recusar-se significa condenar o sedento à morte.

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Para Jesus de Nazaré, a misericórdia é uma dimensão fundamental de sua missão.

Por isso, dar de beber a quem tem sede, nem que seja um copo de água fria, é um gesto de misericórdia e não ficará sem ter a recompensa (Mt 10,42; Mc 9, 41). Inclusive, na cruz o próprio Jesus teve sede e lhe deram de beber vinagre (Jo 19, 28), o vinagre da morte e da dor.

No juízo final, seremos julgados sobre a prática das obras da misericórdia corporais, como ‘dar de beber a quem tem sede’ (Mt 25, 35); se dermos de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede; se acolhemos o estrangeiro e vestimos quem está nu; se reservamos tempo para visitar quem está doente e preso, enfim tudo o que fizermos em favor dos pobres e necessitados é ao próprio Jesus que o fazemos (Mt 25, 31-45) e seremos chamados a fazer parte do Reino definitivo.

Nas bem-aventuranças, Jesus fala da sede de justiça. “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mt 5, 6). Deus quer justiça e dignidade para todos (Am 9,7-8). O culto vazio, repleto de louvores e oferendas, mas sem a pratica da justiça não tem sentido. Não são grandes oferendas que agradam a Deus, mas sim a prática do direito e da retidão para com todos (Am 5,21-25).

Na narrativa da samaritana, aparece a água como símbolo de vida (Jo 4,1-42). O texto nos diz que Jesus voltando para Galileia, passa pela Samaria e para descansar, senta junto do poço de Jacó, lugar de encontros e de conversas populares.  No diálogo entre Jesus e a samaritana que vai em busca de água, líquido que mata a sede e é fonte de vida espiritual. Jesus diante da samaritana afiram “quem beber da água que eu darei, nunca mais terá sede” (Jo 4, 14). A mulher ao descobrir que Jesus é o Messias larga o balde e anuncia que encontro o Cristo, não precisa mais da água do poço de Jacó para saciar a sede. A Samaritana encontrou, experimentou, partilhou e testemunhou o encontro pessoal com Jesus, sendo missionária e anunciadora da experiência pessoal, que transformou a própria vida. Enfim o próprio Jesus veio matar a sede da humanidade e a transformá-la, ele afirma: “Se alguém tiver sede, venha a Mim e aquele que acredita em Mim, beba” (Jo 7,37-38).

Neste ano da misericórdia, devemos perguntarmos: como podemos viver este ano santo? Uma forma bem concreta é a prática das obras de misericórdia tanto corporais como espirituais. O Papa Francisco expressa o vivo desejo de que todos os cristãos reflitamos essas práticas e despertemos da indiferença perante da pobreza, já que os pobres são os privilegiados da misericórdia divina. Que neste ano santo possamos viver, na existência de cada dia, a misericórdia.

Na Bula Misericordiae Vultus, o Papa Francisco sugere algumas iniciativas que podem ser vividas em diferentes etapas: realizar peregrinações; praticar as obras de misericórdia; intensificar a oração; passar pela Porta Santa em Roma ou na Diocese; perdoar a todos; buscar o Sacramento da Reconciliação; superar a corrupção; receber a indulgência; participar da Eucaristia; fortalecer o ecumenismo; converter-se.

Enfim, cada um de nós como cristãos necessitamos viver de maneira intensa e plena este ano santo extraordinário da misericórdia.

Pe. Rafael Lopez Villasenor.