Comunidades Eclesiais de Base

  • Arnaldo De Vidi
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As  CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) são comunidades cristãs, organizadas em torno ou dentro das paróquias, capelas, centros sociais ou associações comunitárias, por iniciativa de leigos, padres ou bispos. São formadas por no mínimo vinte pessoas e no máximo oitenta, ou uma dúzia de famílias.

Elas se encontram para refletir e transformar a realidade à luz da Palavra de Deus.

As CEBs são comunidades, pois elas reúnem pessoas que vivem na mesma região, morando no mesmo bairro ou no mesmo povoado, tendo uma mentalidade unificante e possuindo a mesma fé. São eclesiais, porque se sentem igreja, são aprovadas pela igreja e estão bem unidas, em comunhão, com a Igreja. São de base porque são constituídas de pessoas das classes populares, e sem discriminação de raça, credo, orientação sexual...

Não tem unanimidade em determinar quando e onde as CEBs nasceram. Há quem diga que nasceram no Rio Grande do Norte no fim dos anos 50. Lá a religiosidade popular, a falta de padres e o tamanho das paróquias favoreceram o surgimento de pequenas comunidades de leigos que se auto-organizavam, com a permissão e o encorajamento de padres e bispos.

cebs.No entanto, tais “pequenas comunidades” eram somente precursoras das CEBs, pois ainda careciam da essência delas. De fato, as CEBs se constituem de grupos de cristãos com o objetivo da leitura bíblica em articulação com a vida.

As Conferências dos bispos latino-americanos de Medellin (1968) e de Puebla (1079) colaboraram decisivamente para esta evolução.

Medellín falou alto da temática eclesial da libertação e Puebla da opção preferencial pelos pobres, duas balizas das CEBs. Assim como colaborou a “conversão” da Igreja latino-americana: a descentralização, o movimento do baixo para o alto e da periferia para o centro, enquanto a práxis milenar da Igreja é de cima para o baixo e do centro para a periferia.

Simplificando muito, poderíamos dizer que um grupo de vizinhos, geralmente pessoas das classes populares, decide se encontrar com espírito de fé, tendo também proximidade de consciência social: nasce uma CEB. Então determinantes são os encontros, que podem ser semanais ou quinzenais. Eles são na linha do chamado “círculo bíblico”.

Podemos colocar assim: nos encontros o grupo pega numa mão a Vida e na outra a Bíblia, confronta as duas e decide o que fazer. Em outras palavras: após a oração inicial, os participantes tomam conhecimento da realidade -de um problema existencial, através de dados ou de um fato...-, em seguida eles procuram julgar ou iluminar a realidade à luz da Palavra de Deus e, por fim, decidem o que fazer.

Em suma, a Realidade (a Vida da nossa sociedade) é projetada no espelho da Bíblia que nos traz a Vontade de Deus: se a Realidade não bate com a Vontade de Deus (com o Reino de Deus) precisa arregaçar as mangas, agir, mudar, transformar. É a hermenêutica do método ver-julgar-agir.

Uma ideia tão simples vingou! Para subsidiar os encontros, foram produzidos centenas, milhares de cadernos, reproduzidos em milhões de copias impressas ou xerocadas ou mimeografadas. Nos anos 70's e 80, os núcleos das CEBs chegaram a cem mil, espalhados no Brasil inteiro, especialmente nas zonas rurais e nas periferias. No ano 2000, quando já passara o pique das CEBs, existiam cerca de 70 mil núcleos de Comunidades Eclesiais de Base, nas cidades e no campo; existiam quase dois milhões de católicos adultos atuantes nas CEBs.

Poder-se-ia dizer que a estratégia das CEBs foi copiada pelas igrejas evangélicas que estão “ganhando a parada” (mas com o pecado da alienação). Em comparação, a estratégia católica atual da “iniciação à vida cristã” é por demais complexa.

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Desde o começo, as CEBs praticam a eclesiogênesis, isso é, quando uma CEB passa dos 80 membros, ela se reparte em duas.

E este crescimento missionário é bastante incentivado.

Observação: o município do Pará que tem mais alta porcentagem de católicos é Bujaru... onde caprichou-se na organização das CEBs e teimou-se na sua continuidade.

Trunfos das CEBs

* As CEBs puxaram uma nova estratégia, pois elas simplificam tudo: as pessoas são todos por um e um por todos. Elas fazem que os cristãos sejam protagonistas, cresçam na fé, se conheçam e ajudem, celebrem, preparem a si e aos filhos para os sacramentos...

* Elas acabam com o anonimato na Igreja.

* Elas dão valor ao lado do carisma, tirando a gordura da instituição.

* Fazem que a Igreja de piramidal torne-se circular.

* Aprovadas pelos bispos, as CEBs se sentem integradas e em comunhão com a  Igreja. Elas colocam a Eucaristia, junto com a Bíblia, bem no centro. Participam da celebração eucarística e da vida paroquial.

* Formam-se “Federações de CEBs” e dá-se vida aos “Encontros Intereclesiais das CEBs” a nível regional e nacional.

* Sendo que os “círculos bíblicos” mexem com a realidade, puxando uma salutar transformação, eles acabam fazendo um trabalho político, pois tem a ver com o bem comum, a conjuntura, os direitos das pessoas, e com vícios e virtudes das estruturas e instituições. Colocar a Palavra de Deus como juiz da realidade, significa fazer que a utopia do Reino de Deus açode toda política. Deste modo as CEBs foram protagonistas na travessia da ditadura para a democratização do País.

* As CEBs são reconhecidas como responsáveis pela criação de inúmeros movimentos de base, movimentos populares para água, luz, esgoto, transporte público, e de pastorais como a Operária, da Terra, da Moradia, da Criança...

As CEBs são “martiriais”: o compromisso social a motivo do Reino muitas vezes chocou-se com os interesses dos poderosos, que lançaram mão à perseguição e ao assassinato. Mas as vítimas venceram, com a coroa do martírio.

Pe. Arnaldo De Vidi, sx.