Reinventar a política? sonho ou utopia?

  • Marcelo Ávila
  • Artigos
0
0
0
s2smodern
0
0
0
s2smodern
powered by social2s

[Desde Camarões] -  O ano de 2018 será um ano decisivo no cenário político mundial. Muitos países escolherão seus governantes em um momento onde o conceito “política” se tornou sinônimo de corrupção e desonestidade. Chegamos a um nível tão baixo onde valores como honestidade, ética, cidadania, bem comum perderam completamente seus significados.

A política encontra-se desprezada, ridicularizada, torturada e não vemos um outro caminho que tentar reinventá-la. Para reinventá-la, precisamos redescobrir sua verdadeira essência para que, a partir dela mesmo, possamos resgatar os fundamentos que servirão de parâmetros para nossa reconstrução.

O termo política foi utilizado pela primeira vez no contexto da Grécia antiga ou clássica, no advento da pólis, a cidade-estado. O termo é a união de duas palavras gregas: “pólis”, traduzida como cidade e “tikós”, traduzida como bem comum. A política é um termo que não diz respeito apenas aos políticos, mas a todos os cidadãos. Na Grécia clássica, a política é compreendida como uma relação de poder que vem do povo, um processo de escolha que é destinado à algumas pessoas e que, em nome do povo, deverão cuidar do bem comum da cidade, do bem comum dos cidadãos.

Compreendendo a política como um exercício em vista do bem comum, podemos perceber que existe uma grande diferença entre a política, que visa o bem comum, e as dinâmicas partidárias que favorecem a trama do jogo político.

Nós, como cidadãos, devemos participar conscientemente da política excluindo toda forma de politicagem manipuladora que visa somente interesses pessoais e não o bem da comunidade.

Para o filósofo Aristóteles, a política tem como objetivo a felicidade humana podendo ser dividida em ética, que se preocupa com a felicidade individual do homem na pólis, e política propriamente dita, que se preocupa com a felicidade coletiva na pólis. Para ele, o objetivo da política é descobrir uma maneira de viver que leva à felicidade humana. “A felicidade consiste em uma maneira de viver, no ambiente em que o homem vive, nos costumes e nas instituições adotadas pela comunidade à qual ele pertence” (Política, 1252).

Infelizmente, como consequência dos inúmeros casos de corrupção que vieram à tona recentemente, se criou uma grande aversão em torno da política associando-a simplesmente ao que ela não representa na realidade.

A política está acima das artimanhas e do jogo sujo e manipulador que são uma triste realidade em nossos dias. Reinventar a política não deve ser uma simples ou apaixonante utopia, pelo contrário, ela é uma urgência que também exige nossa participação, uma participação ativa e consciente que seja capaz de transformar realidades devolvendo à política sua essência e ao mesmo tempo sua missão: “Sonhar os sonhos do povo e lutar para transformá-los em realidade” (Ruben Alves).

Como cristãos, o engajamento político deveria ser assumido como muito comprometimento e responsabilidade. A construção de um mundo melhor passa também pela política, sobretudo quando as políticas de governo forem capazes de favorecerem a dignidade da pessoa humana e o bem comum.

papa FranciscoNa sua recente viagem na América Latina (Uruguai e Peru), o papa Francisco afirmou que a corrupção é um vírus social que ataca os povos e a democracia da América Latina sendo os pobres e a mãe terra os mais prejudicados. Para ele, “para lutar contra o flagelo social da corrupção é necessário uma maior cultura de transparência entre entidades públicas, setor privado e sociedade civil, sem excluir à Igreja”.

Na concepção política do papa Francisco, o envolvimento na política é uma obrigação para todos os cristãos.

“Nós cristãos, não podemos nos fazer de Pilatos e lavar as mãos. Não podemos! Devemos nos envolver na política porque a política é uma das formas mais elevadas da caridade, porque ela procura o bem comum”.

Mesmo diante de um cenário político caracterizado pela corrupção e pela desonestidade, é sempre bom lembrar que existem muitos políticos fazendo a diferença e lutando com todas as forças para que a política seja sempre um caminho para promover a ética, a honestidade, a moral e o bem comum de toda uma nação. Políticos que, em meio às contradições e às hipocrisias da politicagem barata, acreditam que a política está totalmente relacionada com os interesses da comunidade e nunca com os interesses pessoais.

Portanto, reinventar a política é redescobrir sua verdadeira essência para que possamos reorientar as políticas que estão sendo consolidadas e que excluem a dinâmica do bem comum, que é o fundamento da verdadeira concepção de política. A política é a gestão da cidade, da comunidade, da vida social sempre orientada para o bem comum.

Olhando agora para a realidade dos Camarões, as eleições de 2018 entrarão para a história do país por dois motivos fundamentais. Por uma lado, nosso presidente está no poder a mais de 35 anos sendo considerando um dos três presidentes com mais tempo de governo em todo o mundo. Em mais de 50 anos de independência o país conheceu apenas 2 presidentes. Por outro lado, ano de 2018 marcará a saída do presidente ou, se ele insistir em permanecer, enfrentaremos uma crise política que poderá se desencadear em uma guerra civil.

No ano passado, a parte inglesa do país começou uma série de reivindicações exigindo melhorias políticas e também a independência da parte francesa. Como resultado, vemos uma grande instabilidade política no país somada com os problemas envolvendo o grupo terrorista Boko Haran. Muitas pessoas foram mortas, muitas estão desaparecidas e muitas outras foram presas simplesmente por reivindicarem políticas ligadas ao interesse comum da nação. É o mesmo problema que vem acontecendo na República Democrática do Congo onde o atual presidente insiste em permanecer impondo a política do medo e da opressão.

Portanto, são nos momentos mais críticos que deve brotar a força transformadora que caracteriza nosso existência. Se estamos caminhando para um abismo, se perdemos completamente toda esperança ou se estamos desacreditados com a política, sempre é tempo de parar, refletir e recomeçar.

Que o sonho e o desejo de mudança seja nossa grande meta para 2018.