EXPERIÊNCIA MISSIONÁRIA NA AMAZÔNIA DE UMA LEIGA

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Marta Barral, leiga Missionária Xaveriana da Espanha, conta sua vocação e experiência Missionária na Amazônia. Ela já trabalhou no Burundi, no Chade (África), além de outros países como Missionária. Agora vive sua vocação missionária no Brasil.

indios copyCheguei ao Brasil em Atalaia do Norte (AM) em fevereiro de 2017, vindo da Espanha. Dom Adolfo Zon Pereira, missionário xaveriano e bispo de Alto Solimões, desde novembro de 2014, na sua primeira viagem a Espanha, após a sua nomeação, reuniu-se com a comunidade dos leigos missionários xaverianos, apresentando a realidade da diocese e as necessidades que estava descobrindo. Nesse tempo eu estava terminado a minha experiência missionária no Chade (África), mas a comunidade começou a se contagiar pelos sonhos da Amazônia.

Logo que voltei para Espanha, analisamos na comunidade as possiblidades reais de nossa presença no Brasil, conversamos com Dom Adolfo e em outubro de 2016, três leigas viemos conhecer a região e falar sobre a possibilidade do projeto missionário dos leigos na diocese.

Pessoalmente, após vários anos na África, tinha vontade de retornar para América Latina, mas o que definiu o lugar foi o pedido de Dom Adolfo e as necessidades da diocese. Nunca pensei no Brasil, mas é importante responder ao chamado da Igreja local.indio rio

Dom Adolfo propôs Atalaia do Norte (AM) como sede do projeto para os leigos missionários da Espanha no Alto Solimões. Ele sonhou para que o lugar fosse território missionário xaveriano. Finalmente este ano realizou-se o sonho, com a chegada dos padres xaverianos Alberto e Zezinho. Vamos trabalhando juntos, tentando responder as necessidades da paróquia São Sebastião (Atalaia do Norte), quase com o mesmo tamanho territorial de Portugal, incluindo a maior parta da terra indígena do Vale de Javari.

Atalaia do Norte é o município mais ocidental do estado de Amazonas, sendo a porta da entrada para a terra indígena do Vale de Javari, aonde habitam seis povos indígenas (Marubo, Mayoruna, Matis, Kanamaris, Kulina e Korubo), além de outros grupos que vivem isolados.

Além da selva amazônica com a flora e fauna, há duas coisas que marcam a vida da região: o rio e a fronteira. Em Atalaia o rio Javari é a vida, proporciona água e sustento para a população, inclusive sendo a principal via de transporte e comunicação para o Vale do Javari (terra indígena demarcada), para as comunidades ribeirinhas, indígenas e com o resto da diocese. Ao mesmo tempo é fronteira natural com o Peru.

A realidade é complexa; conhecida como a tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. A pouca presença do estado e das instituições governamentais dos países, além do intercambio de mercancias e pessoas, existe o tráfico humano e de drogas, atividades ilícitas, junto com a corrupção e a impunidade.

Os desafios sociais na Igreja de Atalaia do Norte são grandes, existe muito para ser feito. Não é fácil saber por onde começar, para não se perder na imensidão da realidade. A missão é difícil e simples ao mesmo tempo. Não é necessário fazer grandes coisas, mas acompanhar a vida das pessoas, ajudando a germinar as sementes do Reino presentes nesta terra.

Desde que cheguei, a diocese me fez o pedido de ser presença da Igreja com os indígenas que deixaram as aldeias e moram na cidade; não era claro o que isso significa. Estes anos estão sendo de aproximação, escuta e aprendizado.

Os indígenas aos poucos vêm morar em Atalaia, se instalando em silêncio em uma sociedade paralela, que dificilmente dialoga com os brancos. Infelizmente não existe uma política municipal de aproximação com estes povos, nem a paróquia tinha se preocupado com eles. Inclusive as associações indígenas estão centralizadas na realidade das aldeias, deixando de lado os índios da cidade.

indi ataAos poucos todos vamos tomando consciência de que o êxodo dos índios para a cidade é irreversível, motivados principalmente pelo desejo de estudar. A situação da maioria das famílias indígenas em Atalaia é precária. O índio deve fazer frente a muitos problemas desconhecidos. A subsistência de base são os benefícios sociais, que ajudam, mas que são insuficientes para viver na cidade. O trabalho remunerado é escasso, em especial se não se tem uma formação especifica, é difícil ter terra para cultivar... a fome e a pobreza são companheiros da caminhada.

A situação da juventude indígena que vem estudar na cidade é complicada. Esses jovens passam fome, moram nas casas dos estudantes ou com parentes, perdem suas referências, se sentes sós e são incompreendidos pelas lideranças do movimento indígena e são seduzidos pela sociedade do consumo.

Diante da complexa situação, pouco se pode fazer: conhecer, viver e amar; acompanhar processos, somar-se às lutas em defesa do território e dos direitos, que o Governo Federal quer reduzir e eliminar.  Fazermos eco aos pedidos dos indígenas, para que o mundo saiba o que está acontecendo.

Temos que ajudar para que a presença indígena se torne presente e sejam vistos como cidadãos com direitos; que a identidade seja respeitada; que as línguas e culturas valorizadas; que as religiões autóctones reconhecidas; porque a integração indígena não significa assumir o estilo de vida capitalista ocidental.

Como sociedade e como Igreja devemos trabalhar para que acabe a descriminação, para não deixarmos levar por prejuízos e ideias preconcebidas, que impedem a convivência; para que se perca o medo ao diferente e saibamos reconhecer o outro como imagem e semelhança de Deus; para gerar espaços de diálogo e interação aonde aprendamos uns com os outros e juntos protejamos a casa comum construindo o Reino.

Marta Barral (Leiga Missionária Xaveriana)