Lugares do silêncio

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A UNESCO decidiu inscrever no próprio patrimônio mundial da humanidade 12 lugares cristãos no Japão sul – ocidental, lugares onde durante o período de shōgunato Tokugawa (1603–1868), os fiéis cristãos foram perseguidos. Esta inscrição feita pela UNESCO (que levou o Japão a ter 22 lugares como patrimônio da humanidade, 18 culturais e 4 naturais) tem tido repercussão no Japão e quase todos os maiores jornais divulgaram com satisfação esta notícia.

Os 12 lugares estão todos localizados entre Nagasaki e a região de Amakusa onde muitíssimos cristãos para fugirem das perseguições tiveram que praticar a própria fé às escondidas. (...) Entre estes vários lugares podemos lembrar a igreja de Ōura, os restos do castelo de Hara (lugar onde cerca de 37.000 cristãos foram mortos).

Todos estes lugares estão, portanto, profundamente ligados ao dramático período da história das perseguições, período em que os japoneses enxergavam no cristianismo uma ameaça para o próprio País. As perseguições sofridas fizeram nascer o fenômeno chamado de kakure kurishitan («cristãos escondidos»); e os lugares reconhecidos oficialmente pela UNESCO querem manter viva a memória de tudo isso. (...) No coração dos cristãos do Japão, este reconhecimento feito pela UNESCO representa sem dúvida uma forte valorização da história e das dores que os cristãos tiveram que enfrentar por causa da fé (lembrando que foi por causa das perseguições que a fé se purificou). (...) Por outro lado, aos olhos dos japoneses não cristãos estes lugares poderiam representar um testemunho do evangelho da missão: os missionários (ontem e também hoje) não vieram aqui no Japão para impor uma religião, para destruir a cultura ou para conquista o País.

Os missionários vieram para testemunhar a mensagem do Evangelho do Amor de Deus que, em Jesus Cristo, acolhe e transforma todo homem e a humanidade. Do ponto de vista da nossa Igreja, além disso, estes lugares representam a certeza de que o Espírito continua orientando as comunidades cristãs, apoiando-as na própria caminhada de fé e animando – as para anunciar o Evangelho.

Papa Francisco disse durante o discurso que fez aos bispos do Japão na Visita ad limina no dia 20 de março de 2015: < Este ano em Japão vocês celebram outro aspecto da rica herança missionária e de fé: o fenômeno dos “cristãos escondidos”. Quando todos os missionários leigos e missionários padres foram expulsos do |País, a fé das comunidades cristãs não desapareceu; alias, o fogo da fé que o Espírito Santo provocou através da pregação dos evangelizadores e alimentou com o testemunho dos mártires continuaram firmes por causa da solicitude dos fieis leigos que mantiveram a vida de oração e de catequese nas comunidades católicas mesmo enfrentando os perigos e a perseguição.

Estes foram dois pilares da história da Igreja católica no Japão: a atividade missionária e os “cristãos escondidos”; estes dois pilares continuam fortalecendo a vida da Igreja hoje e abrem caminhos para viver a fé>. Estes 12 lugares que a UNESCO reconheceu podem ser regiões onde os nossos olhos acolhem a beleza da geografia e, ao mesmo tempo, lembram com comoção aquela fé em Deus que os cristãos souberam com coragem manter viva e testemunhar em silêncio. Na admiração e na comoção estamos nos sentindo partícipes das dores e da fidelidade dos cristãos perseguidos no Japão.