Consagrados por Deus e a Deus

No próximo dia 30 de outubro de 2021, eu Everson e mais quatro irmãos professaremos os votos solenes mais conhecidos como votos perpétuos. Em palavras simples a profissão dos votos religiosos é uma decisão de viver de modo mais intenso as promessas do nosso batismo. É um passo fundamental que estou dando em minha vida, é uma entrega definitiva a Deus e a seu projeto. E essa entrega realizo dentro da família xaveriana, família que me acolheu e sempre me orientou no seguimento de Jesus.
A profissão dos votos é uma resposta a vocação a qual Deus nos chama, a palavra “vocação” tem sua origem no latim, trata-se do verbo vocare, que significa chamar, convocar, apelar. E a voz de Deus continua chamando as pessoas, as sociedades, ela não esteve ativa apenas num passado distante, mas é realidade atual e eterna. Diante de tamanha vocação poderíamos exclamar como Jeremias: “: «Ah! Senhor Deus, eu não sei falar, pois ainda sou um jovem» (Jr 1, 6). De fato, pede-se ao profeta que fale e como o poderá ele fazer se não sabe falar? Porque é jovem, não só não sabe falar como não goza de crédito perante os anciãos. Poderá ele falar ao povo com a credibilidade necessária para ser escutado? Porém, Deus não aceita a sua objecção, pois a missão profética não depende de Jeremias, mas do próprio Deus: «Não digas: ‘Sou um jovem’, pois irás aonde Eu te enviar e dirás tudo o que Eu te mandar» (v. 7). E isso é realidade palpável em nossa vida: a missão não depende de nós, é obra de Deus. Somos missionários de Deus! E para levar o anuncio da Boa Nova devemos “ter uma profunda experiência de Deus e tomar consciência dos desafios do seu tempo, identificando o sentido teológico profundo deles por meio do discernimento realizado com a ajuda do Espírito. É que, nos acontecimentos históricos, encerra-se frequentemente o apelo de Deus para trabalharmos segundo os seus planos com uma inserção ativa e fecunda nos acontecimentos do nosso tempo” (VC 73)
Nosso santo fundador definia os votos religiosos como “laços santos que nos prendem ainda mais ao serviço divino”. Não é mérito nosso a consagração definitiva, é dom gratuito do coração de Deus: uma iniciativa total do Pai (cf. Jo 15,16), que apesar de nossas limitações nos chama e conta conosco. Não somos perfeitos e estamos longe de tal meta, porem almejamos ser perfeitos segundo o evangelho, ou seja, perfeitos no amor e na doação (cf. Mt 5,48). E isso buscamos através dos votos que nos desprendem e nos ajudam a estar em união com Cristo.
Nossa consagração religiosa tem como modelo a Jesus, Supremo Consagrado do Pai. O exemplo e a vida de Jesus nos impulsionam a abraçar sua causa: anunciar o evangelho da salvação, levar a todos a mensagem amorosa de Deus (Mc 1, 15). Um Deus cheio de amor e misericórdia que vem para salvar a todos. Quem faz a experiencia do amor de Deus não guarda para si mesmo, senão que deseja anunciar e deseja que todo o mundo seja submergido no mar do amor de Deus. “A experiência deste amor gratuito de Deus é tão íntima e forte que a pessoa sente que deve responder com a dedicação incondicional da sua vida, consagrando tudo, presente e futuro, nas suas mãos.” (VC 17). Tudo colocamos nas mãos de Deus: nossa vida, sonhos e projetos e ao mesmo tempo abraçamos o sonho, o projeto de Deus para nós: «Deixaram tudo e seguiram-no» (Lc 5, 1-11). E tudo isso com a finalidade de anunciar o Reino de Deus nas diversas circunstancias do mundo atual.
Não professamos os votos para nós ou para a congregação, professamos os votos para anunciar o evangelho, esse anuncio nos leva a um serviço concreto a nossos irmãos: “Todos somos chamados a dar aos outros o testemunho explícito do amor salvífico do Senhor, que, sem olhar às nossas imperfeições, nos oferece a sua proximidade, a sua Palavra, a sua força, e dá sentido à nossa vida. O teu coração sabe que a vida não é a mesma coisa sem Ele; pois bem, aquilo que descobriste, o que te ajuda a viver e te dá esperança, isso é o que deves comunicar aos outros. A nossa imperfeição não deve ser desculpa; pelo contrário, a missão é um estímulo constante para não nos acomodarmos na mediocridade, mas continuarmos a crescer.” (EG 121).
A vocação acontece no presente, na vida concreta e projeta sempre para o futuro, libertando das amarras do passado. Mais, tem uma componente de radicalidade e ousadia (deixar tudo), bem como de aventura e abertura ao desconhecido (seguir Jesus). Segundo o evangelista Lucas nada falta a quem é chamado e deixa tudo para seguir Jesus: bens materiais, bens espirituais, incompreensões e perseguições.
Everson Luiz Kloster, sx







