Experiência com a pastoral do povo de rua em São Paulo

“Aqui se entra para adorar a Deus.... daqui se sai para amar o próximo”. Essas são as duas pequenas frases que lemos ao entrar e sair da Igreja paroquial São Miguel Arcanjo localizada no bairro da Moca em São Paulo. Duas pequenas frases que são um projeto de vida e que detalham a missão e o trabalho do pároco padre Júlio Lancellotti, conhecido pelo seu trabalho com a população de rua de São Paulo. Padre Júlio Lancellotti também é vigário episcopal para a população de rua da Arquidiocese de São Paulo trabalhando incansavelmente para dar mais dignidade para os irmãos que se encontram em situação de vulnerabilidade.
Juntamente com a leiga xaveriana Patrícia Nunes, tive a alegria de conhecer e participar com os voluntários da pastoral do povo da rua da distribuição do café da manhã, roupas, agasalhos e itens de higiene pessoal para centenas de irmãos que são assistidos todos os dias no núcleo de convivência São Martinho de Lima. Uma experiência muito forte que começa sempre com a celebração da Eucaristia e que termina com gestos de solidariedade fraterna e acolhida. Foi fazendo essa experiência que fui tocado profundamente por essas duas pequenas frases que são profundamente ricas em significados. “Aqui se entra para adorar a Deus.... daqui se sai para amar o próximo”.
Antes da pandemia a acolhida dos irmãos em situação de rua acontecia no espaço da paróquia, uma média de 200 pessoas todos os dias. Com a pandemia esse número triplicou e, com as baixas temperaturas em São Paulo registradas em julho e agosto, o núcleo de convivência São Martinho de Lima se tornou um lugar de acolhida, fraternidade, esperança e amor ao próximo. Um lugar onde muitas pessoas, sobretudo famílias, encontram refúgio, carinho e um pouco mais de dignidade.
É impossível não se emocionar com o jeito simples e acolhedor do padre Júlio Lancellotti que, com 72 anos e pertencendo ao grupo mais propenso a desenvolver complicações da covid-19, é quem vai à frente do grupo de voluntários vestido com seu jaleco branco, avental laranja, sandálias e sua máscara respiratória rosa com filtro embutido. Ele não só ajuda na distribuição, mas é quem coordena e orienta os trabalhos, acolhe as pessoas chamando-as pelo nome e sempre tem um tempinho para quem deseja conversar ou partilhar alguma situação. Só volta para a paróquia quando o último irmão é atendido. Chegando na paróquia o
trabalho não para: mais uma vez muitos atendimentos, a preocupação com as doações para o dia seguinte, o atendimento em outros lugares de vulnerabilidade como a cracolândia. No seu dia a dia percebemos que nem a pandemia, tão longa e tão mortal, foi capaz de frear sua convivência diária com os irmãos que vivem nas ruas de São Paulo.
Na partilha com o padre Júlio Lancellotti lembrei das palavras de São João: “No amor não existe medo; pelo contrário, o amor perfeito lança fora o medo, porque o medo supõe castigo. Por conseguinte, quem sente medo ainda não está realizado no amor. Quanto a nós, amemos, porque ele nos amou primeiro” (1 João 4, 18-20). Deus nos ama e por causa desse amor podemos amá-lo e, também, amar o próximo. Por essa razão, quando estamos reunidos na Igreja, estamos adorando a Deus e a concretização dessa adoração deve se converter no amor ao próximo. O Evangelho nos ensina que a adoração pressupõe o amor. Quando adoramos a Deus, entramos em uma relação intensa de amor que envolve toda a nossa alma ao ponto de podermos amá-lo com todo o nosso ser e, também, amar o próximo como a nós mesmos.
Esse amor ao próximo, que é fruto da nossa relação com Deus, pode ser compreendido nas próprias palavras do padre Júlio Lancellotti: “Eu não trabalho com morador de rua. Eu convivo com eles. Porque trabalhar parece que são objetos. É preciso olhar para a vida de forma humana. Isso não é tarefa só para os religiosos. Mas eu não conseguiria viver a dimensão religiosa sem humanizar a vida”. Nessa perspectiva, quando amamos a Deus com todo o nosso ser e o próximo como a nós mesmos, estamos adorando a Deus verdadeiramente. Ou ainda, quando estamos nesta relação de amor, somos impulsionados a servir o próximo como quem serve o próprio Deus.
Partilhar um pouco do trabalho do padre Júlio Lancellotti não deixa de ser um retorno ao Evangelho onde o próprio Jesus resume toda a Lei e os Profetas em amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo com a nós mesmos. Nesse amor ao próximo e, considerando a crise mundial causada pela pandemia, somos interpelados a estarmos atentos à situação dos nossos irmãos que vivem nas ruas. Sem dúvida eles são os que mais sofrem, não somente no âmbito material, mas pela falta de sensibilidade, egoísmo e também pelo preconceito que continua gerando exclusão e enfraquecendo a esperança de muitas pessoas que lutam e sonham com dias melhores.
Infelizmente, o trabalho do padre Júlio Lancellotti encontra muita resistência por parte de algumas pessoas, sobretudo de moradores de edifícios residenciais da Moca, de policiais e de muitos políticos. Isso sem falar das inúmeras ameaças de morte que já recebeu. Mesmo diante das dificuldades que enfrenta, Jesus Cristo continua sendo sua maior inspiração: “Jesus está do lado dos fortes ou dos fracos? Hoje em dia ele estaria no palácio de governo ou na cracolândia tomando bomba? A gente insiste em buscar Jesus na Igreja, mas ele insiste em ir para debaixo do viaduto... quando abraço um morador de rua, abraço Jesus”.
Diante das situações dramáticas vividas pelos nossos irmãos em situação de vulnerabilidade, lembremos sempre da parábola do bom Samaritano que nos ensina sobre a prática do amor e o cuidado para com o próximo, afinal é nos momentos mais difíceis da vida que precisamos de uma mão amiga ou de uma palavra
de conforto. A parábola do bom Samaritano nos coloca diante de uma pergunta fundamental: Quem é o meu próximo? Na perspectiva de Jesus, o meu próximo é todo aquele que necessita de amparo e ajuda, independente de quem seja.
Nos dias de hoje podemos elaborar essa pergunta de uma outra maneira: Estou sendo um bom próximo para as pessoas necessitadas à minha volta? Que cada um de nós, após fazermos uma experiência verdadeira com a pessoa de Jesus, não esqueçamos do amor ao próximo bem como da sua dignidade. Jesus nos ensina que amar a Deus seguido pelo amor ao próximo é a verdadeira atitude que caracteriza os herdeiros da vida eterna. “Aqui se entra para adorar a Deus.... daqui se sai para amar o próximo".
Marcelo Ávila, sx







