“Missio Dei e Sinodalidade: Aprendizados da Experiência na Pós-Graduação em Missiologia"

Entre os dias 19 e 30 de janeiro de 2026, iniciei o primeiro módulo do curso de Pós-Graduação em Missiologia, uma experiência profundamente enriquecedora tanto no campo acadêmico quanto no âmbito humano, espiritual e pastoral. Este primeiro módulo contou com a participação de 32 alunos e alunas provenientes de diversas regiões do Brasil — leigos e leigas, seminaristas, religiosos e religiosas, diácono e sacerdotes — além de três sacerdotes estrangeiros, oriundos de Angola, Indonésia e Porto Rico, todos atualmente inseridos em experiências missionárias no Brasil. Essa diversidade de origens, culturas e trajetórias pastorais marcou profundamente o curso, tornando-se um verdadeiro espaço de encontro, partilha, escuta e diálogo.
Cada participante trouxe consigo uma rica bagagem missionária, construída em contextos concretos de evangelização. Destaco, por exemplo, o sacerdote de Porto Rico, atualmente responsável pela Pontifícia Obra Missionária (POM) em seu país; uma leiga da cidade de São Paulo que há quase 5 anos realiza missão na Prelazia de Tefé, na Amazônia; além de seminaristas, padres e leigos engajados nos Conselhos Missionários
de suas dioceses.
A experiência formativa do primeiro módulo de Missiologia
O primeiro módulo abordou temas fundamentais da Missiologia, provocar uma revisão de nossos paradigmas missionários. Por meio de aulas expositivas, partilhas em grupo, trabalhos acadêmicos, e celebrações eucarísticas, fomos conduzidos a integrar teoria e prática pastoral. Compreendemos que a teologia da missão precisa ser estudada e aprofundada de modo sério, pois ela dialoga diretamente com outras áreas da teologia, como a antropologia teológica, cristologia, eclesiologia, escatologia e soteriologia. Além disso, a forma como esses conteúdos foram relacionados com a realidade latino-americana, e de modo especial com a Igreja no Brasil, ampliou nosso horizonte e despertou criatividade para pensar novos modos de ser e viver missão hoje.
Essa experiência formativa evidenciou que a missão não se aprende apenas nos livros, mas se constrói no caminhar juntos, na escuta mútua e na partilha de experiências concretas. Foi uma formação que não apenas ensina, mas forma para a comunhão e para a corresponsabilidade missionária. Entre os diversos conteúdos trabalhados, dois temas marcaram profundamente este primeiro módulo: a Missio Dei e a missão em chave de sinodalidade.
”A Missio Dei: origem e sentido da missão
A missão compreendida como Missio Dei nos recorda que Deus é, em sua própria essência, missionário. Essa compreensão nasce da relação trinitária: o Pai envia o Filho, e o Pai e o Filho enviam o Espírito Santo para a salvação do mundo. A missão, portanto, não é iniciativa da Igreja, mas ação primeira de Deus, que convida a Igreja a participar de seu projeto salvífico.
No Evangelho de João 20,21–22 Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio.” E, dizendo isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo.” O Pai envia o Filho ao mundo por amor, e Jesus vive toda a sua existência como enviado, realizando a vontade daquele que o enviou. Após sua ressurreição, Ele comunica o Espírito Santo aos discípulos, tornando-os participantes da mesma missão. À luz dessa compreensão da dinâmica trinitária, somos chamados, como membros da Igreja, a participar dessa missão. O documento Ad Gentes afirma que “a Igreja, por sua própria natureza, é missionária” (AG 2), convocando todos os batizados a colaborarem com essa obra de Deus. Essa consciência nos ajuda a evitar uma tentação sempre presente: a de nos tornarmos donos da missão, esquecendo que somos apenas servidores e colaboradores.
Missão e sinodalidade: um caminho inseparável
O segundo grande tema que me marcou neste módulo foi a sinodalidade como estilo de missão. Acredito que, no contexto atual, uma missão verdadeiramente eficaz e fiel ao Evangelho precisa ser necessariamente sinodal. Na aula inaugural do curso, realizada na sede da CNBB, Dom Joel Portella Amado (bispo de Petrópolis (RJ) e presidente da Comissão para a Doutrina da CNBB) nos recordou com clareza: “Sinodalidade e missão estão intimamente ligadas: a missão ilumina a sinodalidade e a sinodalidade impele à missão. Em um mundo complexo, onde relativismo e fundamentalismos alimentam o individualismo, a sinodalidade se torna profetismo.” (Aula inaugural – Dom Joel, “Missão e Sinodalidade”)
A sinodalidade nos ensina que a missão não é vivida de forma individual, mas em comunhão. Ela deve ser um estilo permanente de Igreja, no qual todos caminham juntos, discernem juntos e assumem juntos a responsabilidade evangelizadora. Missão e sinodalidade caminham lado a lado para anunciar o Evangelho em um mundo marcado por tantas complexidades e desafios.
“Um em Cristo, unidos na missão”: à luz da mensagem do Papa Leão XIV
Toda essa experiência formativa foi iluminada pela Mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial das Missões de 2026, publicada em 25 de janeiro, que traz como tema exatamente: “Um em Cristo, unidos na missão.” O Papa nos recorda que a fonte da missão é a experiência viva de comunhão com Cristo: “Ser cristão não é, em primeiro lugar, um conjunto de práticas ou ideias: é uma vida em união com Cristo, na qual nos tornamos participantes da relação filial que Ele vive com o Pai no Espírito Santo.”
(Mensagem do papa Leão XIV para O 100º dia mundial das missões)
O primeiro módulo da Pós-Graduação em Missiologia despertou em mim uma consciência mais profunda sobre a missão, reafirmando que ela deve partir da experiência trinitária e conduzir toda a Igreja a viver a sinodalidade como expressão concreta da comunhão. É dessa comunhão que nasce uma missão capaz de construir fraternidade.
A convivência com participantes de diferentes regiões do Brasil também ampliou meu olhar para uma compreensão mais global da missão, reconhecendo que cada realidade possui desafios e potencialidades próprias. Essa experiência formativa criou laços de comunhão entre nós, responsáveis pela ação missionária, renovando nosso compromisso com uma missão mais participativa, encarnada e sinodal. Reafirmamos, assim, uma convicção fundamental: “A missão não é obra isolada, mas caminho partilhado, onde Deus nos precede, nos reúne e nos envia.” Seguiremos esse caminho formativo no segundo módulo, que acontecerá de 20 a 31 de julho de 2026, com o coração aberto e renovado para continuar servindo à missão de Deus no mundo.
Pe. Yerisko Marselinus, SX.







