Amizade de São Guido com Dom Ângelo Roncalli, futuro papa João XXIII

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No dia 23 de Outubro de 2011, o Santo Padre, o Papa Bento XVI canonizou o Bem-Aventurado Dom Guido Maria Conforti. Ex-Arcebispo de Ravenna - Itália e depois bispo de Parma – Itália. Este santo bispo traz uma mensagem clara e valiosa para toda a Igreja.

Celebrando os 25 anos da sua morte, afirmava o Cardeal Ângelo Roncalli (futuro Papa João XXIII), numa palestra em Parma no ano de 1957, que Dom Guido era o exemplo mais claro de bispo Católico, porque unia na sua pessoa o empenho de manter viva a fé em sua diocese e, ao mesmo tempo, a solicitude para todas as Igrejas. Parece mesmo que a influência de Dom Guido foi grande em João XXIII.

De fato, podemos nos perguntar: onde João XXIII buscou a visão de padre e de bispo que ele transmitiu com tanta clareza no Vaticano II. Onde João XXIII amadureceu o seu olhar para longe, ao mundo todo e que tanto influenciou os padres Conciliares e

contribuiu para fazer amadurecer neles, durante o Concilio, uma nova figura de Bispo, de padre, de leigo, e também uma nova visão da própria Igreja?

Uma resposta, também se não exaustiva, a indica para nós o próprio Papa Dom Ângelo quando em 1957, ele mesmo lembra um fato acontecido 30 anos antes.  Ouçamos o que ele mesmo diz quando, no teatro principal da Cidade de Parma, afirma: «no dia 26 de Abril de 1922 eu subia as escadas do palácio episcopal de Parma para encontrar o Servo de Deus Guido Maria Conforti (Ângelo Roncalli naquele ano era padre bem novo e tinha sido nomeado diretor nacional das pontifícias obras missionárias), leio no meu diário ligadas a estes dias estas palavras: “Visita preciosa a Dom Guido Conforti”.

Eu procurava Dom Guido como expressão episcopal, a mais destacada na Itália daquele feliz movimento feito nascer da Encíclica Maximum Illud do Papa Bento XV. Procurava-o como representante daquela plenitude de Ministério sagrado que associa o Bispo ao Missionário, Bispo de Parma, mas também missionário para mundo inteiro».

A partir de 1922, o Dom Guido Conforti e o Dom Ângelo Roncalli se freqüentam regularmente entre eles por motivos de compromissos comuns e também com o Padre Paulo Manna do PIME (Pontifício Instituto para as Missões Estrangeiras).  De fato, Dom Guido era o primeiro Presidente da União Missionária do clero italiano, fundada havia pouco tempo pelo Padre Paulo. Quando Dom Guido deixou este encargo dez anos depois mais de metade do clero Italiano tinha aderido a esta iniciativa.

A correspondência epistolar entre Dom Guido Conforti e Dom Ângelo Roncalli, e da qual temos guardadas varias cartas, testemunha-nos que o relacionamento entre os dois era marcado por uma forte admiração e devoção filial de Dom Ângelo para com Dom Guido, espacialmente pelo fato de ser Bispo de Parma e missionário para o mundo todo. O Dom Ângelo não esconde no seu epistolário que olhava para Dom Guido como para um modelo de bispo a ser imitado.

joao XXIII

Para dar uma idéia desta atitude, relato um trecho de uma das cartas enviada por Dom Ângelo a Dom Guido.

A carta é datada em 7 de Outubro de 1924, diz exatamente:

«Eu quis ler de novo o seu relatório no Congresso Eucarístico de Palermo... Agora o meu agradecimento ao senhor é mais vivo que antes por que as suas paginas deram muita satisfação ao meu espírito. Acrescento que guardarei aquele caro opúsculo sempre no meu escritório, para tê-lo o mais possível nas mãos como fonte de excelentes pensamentos.

Os nossos encontros pessoais não são mais frequentes como antes, porém eu sempre me lembro do senhor e da sua lembrança tiro inspiração para trabalhar sempre mais, mesmo se na calma, porque eu não sou capaz de correr, mas sem nunca cansar-me, em função deste bendito ardor para a cooperação missionária... Lembre-se de mim nas suas orações a Deus e em nome Dele me abençoe. Assim, como sempre, eu sou devotissimo e estimadissimo do senhor. Dom Angelo José Roncalli» .

Certamente o texto mais interessante deste relacionamento, é certamente o já lembrado discurso do Dom Ângelo, Cardeal-Patriarca de Veneza, no dia do vigésimo quinto aniversário da morte do Dom Guido.

sguido

Neste discurso Dom Ângelo reconhece em Dom Guido duas características que serão depois propostas pelo Concilio a todos os bispos e a toda a Igreja.

De uma já falamos, vamos só rever o texto: «… bispo de Parma sim, pelos méritos do seu espírito inesgotável e da sua paternidade missionária, mas também bispo e pastor da Igreja universal. Por bem cinco vezes passou por todos os pontos da sua diocese (Dom Guido realizou visitas pastorais em todas as paróquias da sua diocese, por bem cinco vezes, coisa não fácil naquele tempo em que o meio principal de transporte era o cavalo). Por duas vezes todos os seus padres foram convocados para solenes sínodos diocesanos (coisa nada comum naquele tempo.

Dom Guido celebrou dois sínodos diocesanos, e sabemos que o fez para revigorar o ardor missionário de seus padres). Promoveu com afinco indômito a formação catequética. (Já no começo de 1800, coisa incomum naquele tempo, promoveu semanas catequéticas de formação para todas as catequistas da sua diocese). Cuidou com fervor incansável, a devoção Eucarística e Mariana.

Os exemplos de Dom Guido, para o clero e para o povo católico, marcam a todos especialmente em relação à doutrina sobre a ação e a animação missionária. Vem aqui, a propósito as palavras de São João Crisostomo para despertar a responsabilidade de todos nos em relação ao apostolado missionário:

Bispo, padre ou simples fiel, não é simplesmente da vossa vida pessoal que você devem prestar conta a Deus, mas da salvação do universo inteiro. Eu não vos enviei, diz o Senhor Jesus, a dez ou vinte cidades, mas a todos os continentes, a todos os mares e ao mundo inteiro".  Depois, em outro lugar, insiste de novo: "Vos não sois Mestres da Palestina, mas de todo o orbe terrestre" (S. João Crisostomo, Hom. XV in Evang. Matthei).

Palavras estas graves e cheias de conselhos para o episcopado e o sacerdócio católico e chegam a incitar cada bom cristão. A primeira característica foi de ter sido um bispo que, além de ser bispo de Parma, foi também, ao mesmo tempo, missionário de Cristo no mundo inteiro, fundando os Missionários Xaverianos que já no seu tempo atuavam na China, antiga meta missionária de São Francisco Xavier e hoje atuam em áreas missionárias de 19 países deferentes.

Pe. Domenico Borrotti.