Alternâncias imigratórias no Japão

  • Michel Luciano Augustinho da Rocha
  • Artigos
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O tema da imigração representa uma questão central na sociedade globalizada. A introdução de grandes massas de pessoas provenientes do exterior e o relativo impacto sobre a estrutura econômica e política, sobre os costumes e o sentido da identidade nacional, são questões as quais

são particularmente sensíveis não somente realidades como o Ocidente, que tem dificuldades em definir com exatidão uma própria raiz política, religiosa e cultural comum, mas também países do Oriente como o Japão, na qual até agora continua a ideia de uma nação etnicamente e culturalmente homogênea, na qual o tema da imigração pode ser definido como um problema sério e perigoso nos debates políticos.

 A história das políticas imigratórias no Japão sofre uma contínua alternância de momentos de maior abertura a outros de maior restrição. Depois de sair do isolamento na época de Tokugawa (1543-1868), nas primeiras décadas de 1900, o Japão experimenta as primeiras ondas imigratórias no seu território, particularmente por chineses e coreanos, que são até hoje as maiores comunidade estrangeiras presentes no País. No período depois da Segunda Guerra Mundial, entre os anos 50 e 70, o fluxo imigratório diminuiu por causa das leis sobre o controle da imigração, e será somente na grande expansão econômica dos anos 80 que podemos falar de um estímulo significativo imigratório no território nipônico.

Com a revisão da lei sobre o controle da imigração em 1989, as categorias de vistos foram reorganizadas com o objetivo de favorecer a entrada e a permanência no país de pessoas qualificadas, desencorajando o trabalho clandestino e o emprego de mão de obra não especializada, mesmo prevendo alguns privilégios para os ¨nikkeijin¨, ou seja, os descendentes dos imigrados japoneses que queriam voltar para a pátria.

Os primeiros episódios imigratórios surgiram no começo de 1900 e viram como protagonistas não somente estrangeiros que chegavam às terras nipônicas, mas também os mesmos cidadãos japoneses que deixavam a terra natal para procurar melhores condições de vida e de trabalho no exterior. Trata-se dos chamados ¨dekasegi¨, ou seja, aqueles que deixam a terra de origem para obter um teor econômico mais elevado.

Atualmente uma das comunidades mais numerosas de ¨nikkeijin¨ é aquela composta de imigrados nipo-brasileiros, com uma população de aproximadamente 270 mil indivíduos presentes no território japonês (terceiro lugar depois daquela chinesa e coreana), concentrados principalmente nas prefeituras de Aichi (capital Nagoya), Shizuoka (Hamamatsu) e Gunma (Oizumi). Fala-se invés de cerca um milhão de meio de cidadãos de origem japonês que moram no Brasil.

No final do século XIX, depois da crise econômica e da abolição da escravidão no Brasil (na qual se baseava a atividade de impulso da economia brasileira, a monocultura do café), o governo brasileiro resolveu fazer alguns acordos com o governo japonês para mandar, nos próximos três anos, cerca três mil trabalhadores para empregar nas fazendas de café. Os primeiros imigrados nipônicos sofreram as dificuldades causadas pelo impacto cultural e linguístico, além das péssimas condições de trabalho (sendo os proprietários das fazendas ainda unidos à mentalidade escravista) e os salários que eram muito baixos.

Essas motivações, junto com a baixa produtividade das plantações, levaram muitos trabalhadores japoneses a fugir das fazendas para dedicar-se a outras profissões autônomas. Já em 1910 começaram a surgir as primeiras colônias agrícolas de japoneses, junto com as primeiras escolas, pensadas para fornecer uma instrução primária aos filhos dos imigrados e transmitir a eles um forte sentido de identidade linguística e cultural. Com as gerações posteriores, a crescente necessidade de integração com a realidade local foi inevitável, e assim começou o processo de inserção na sociedade brasileira, sobretudo através dos casamentos, que até a esse ponto tinham encontrado muitas resistências no interior das famílias dos primeiros imigrados.

Durante a Segunda Guerra Mundial o fluxo imigratório de japoneses para o Brasil e a vida das comunidades de imigrados já presentes no país sofreram os efeitos das restrições aplicadas aos países da Aliança Roma-Berlim-Tóquio. Entre os anos 50 e 60, depois da normalização das relações entre os dois países, teve-se uma grande onda imigratória de trabalhadores japoneses que vieram orientados para as colônias já existentes, dando inicio de verdade ao processo de radicação e integração dos ¨nikkeijin¨ na sociedade brasileira.

Hoje os ¨nikkeijin¨ de segunda, terça e quarta geração (ou seja, respectivamente os filhos, netos e bisnetos, descendentes dos primeiros imigrados, estimulados a voltar para o Japão nos anos 90 pelos favorecimentos previstos nas novas regras de imigração) são aqueles que experimentam o grande choque cultural em relação ao Brasil; tendo que confrontar-se com uma cultura e mentalidade muito diferente daquela da sociedade brasileira onde nasceram e cresceram.

Embora tenham a mesma fisionomia dos japoneses, por causa da pobreza em dominar a língua (somente 10% cerca dos ¨nikkeijin¨ nipo-brasileiros falam corretamente o japonês), junto com outras particularidades como o modo de relacionar-se, a evidente gestualidade e os vestidos, estes continuam sendo considerados como ¨gaijin¨, ou seja, estrangeiros em todos os efeitos. A adaptação à cultura japonesa fica ainda mais árdua se pensarmos na consideração da qual são objetos os ¨nikkeijin¨ nipo-brasileiros no plano do trabalho e social. Estes são empregados em atividade definidas perigosas, sujas e pesadas, geralmente rejeitadas pelos japoneses.

Muitas vezes são os próprios fatores ligados à discriminação sutil e dificuldade linguística que levam os ¨nikkeijin¨ a reforçar a própria identidade de brasileiros e o próprio sentido de distância em relação aos japoneses. Por outro lado, o sentido de alteridade vem também percebido pelos brasileiros nativos de origem não japonesa (nesse caso por não possuir traços asiáticos).

Acredito que um bom percurso para um Japão multiétnico e uma nação de imigração passe, antes de tudo, através uma revisão profunda e gradual das infraestruturas educativas, sociais e politicas, destruindo aos poucos a mentalidade discriminatória que pode entrar nos contextos da escola, do trabalho e nas relações sociais.

No meu serviço missionário junto à Pastoral nipo-brasileira da Diocese de Osaka, celebro missas em português todos os domingos em uma igreja diferente da Diocese e também na catequese em preparação aos sacramentos. A celebração eucarística é um momento de encontro muito importante com Cristo e com os irmãos. Muitos brasileiros dizem que foi só vindo ao Japão que descobriram o valor da Eucaristia. A função principal da nossa assistência como missionários é aquela de criar um espaço dentro das comunidades eclesiais para o encontro, a integração e a socialização dos brasileiros imigrantes onde cada um possa se sentir ¨em casa¨. No meu trabalho pastoral, posso testemunhar que os brasileiros estão se integrando nas comunidades eclesiais e estão levando toda a energia e alegria que possuem. Existe uma grande simpatia por parte dos japoneses católicos pelo Brasil, pela sua música e pelo modo de fazer festa. Depois da missa em português, a comunidade brasileira se reúne no salão da Igreja onde cada um leva um prato de doce o salgado para ser compartilhado. É um momento muito bom para escutar a história de vida de cada um, saber dos problemas e também das alegrias.

Na tradição cristã, a imigração foi uma constante e a própria situação de serem refugiados incentivou os primeiros cristãos a anunciar o evangelho no meio de outros povos. Nesse sentido, as imigrações são um ¨sinal dos tempos¨ que nos desafia, mas ao mesmo tempo nos abre horizontes para a realização plena do sonho do Apocalipse 7,9: a formação de uma única imensa multidão de todas as nações, tribos, povos e línguas no Reino de Deus.

Pe. Michel Luciano Augustinho da Rocha.