As quatro janelas abertas do Concílio Vaticano II

  • Stefano Raschietti
  • Artigos
0
0
0
s2smodern
0
0
0
s2smodern
powered by social2s

 Ao jornalista que lhe perguntou sobre o que esperava do Concílio Ecumênico Vaticano II, o papa João XXIII respondeu que não sabia muito bem. Porém, abrindo a janela, acrescentou: “pelo menos um pouco de ar fresco!”.

Há tempo, muitas instâncias esperavam ser acolhidas como “ar fresco” pela Igreja Católica. Particularmente, os fermentos surgidos com as novas experiências apostólicas no mundo operário, o contato com a teologia protestante, os apelos ao ecumenismo, os estímulos recebidos por algumas correntes filosóficas, a evolução da exegese bíblica e a redescoberta das fontes cristãs, foram abrindo caminhos criativos para a reflexão cristã no seio de sociedades sempre mais secularizadas.

O padre José Comblin, que estudou em Lovaina, na Bélgica, uma vez disse que o Vaticano II não foi novidade para ele: “era o que tínhamos aprendido quinze anos antes; a novidade foi que a hierarquia começou a dizer o que pensávamos quinze anos antes. Isso nunca tínhamos imaginado”.

Com o anúncio do Concílio Vaticano II começam a convergir grandes expectativas, que encontrarão expressão nos textos e nas decisões finais. Quatro aspectos podem ser considerados como que quatro grandes janelas abertas pelas quais passaram os ares de renovação: a centralidade da palavra de Deus e do mistério trinitário, uma nova concepção da Igreja, a questão ecumênica e o diálogo com o mundo moderno.

A dimensão do mistério vivo

Vaticano

O primeiro aspecto retoma com força a dimensão vivado mistério trinitário, núcleo da mensagem cristã, com forte acento bíblico e teológico.

Com efeito, ao longo do tempo, a Igreja conferiu uma importância sempre maior à “verdade” entendida como conjunto abstrato de conceitos, chamados “dogmas”. A perspectiva bíblica, ao contrário, mostra a verdade cristã como mistério, revelado pelo Pai na pessoa concretamente humana de Jesus e na ação do Espírito: um mistério vivo, inexaurível, surpreendente, que sempre nos diz alguma coisa de novo, que esquenta o coração, que convoca para uma adesão e um seguimento incondicional, que não se contenta consigo mesmo, mas transborda, se comunica, sai de si, cria comunhão e gera a missão. Pode-se resumir esse mistério com as palavras de São João: “Deus é amor” (1Jo 4,16)

“O caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6) é, portanto, a pessoa de Jesus não mais conceituada somente com formulações doutrinais, mas resgatada com a inspiração das imagens, das histórias, dos testemunhos, da experiência viva e envolvente de apóstolos, santos, mártires e missionários. Não se trata apenas de uma ideia, mas de uma pessoa que se contempla, se saboreia, se toca, se vê. Jesus anuncia uma visão surpreendentemente nova de Deus: um Deus com um rosto profundamente humano, na aproximação a qualquer condição humana. Desta maneira, o mistério de Deus se torna acessível a todas as pessoas.

A natureza da Igreja

A segunda janela aberta diz respeito à natureza da Igreja concebida como “sacramento, sinal, instrumento” do Reino de Deus, e não mais como o próprio Reino de Deus. A nova perspectiva vai além de uma visão da Igreja apenas como instituição, para apelar, antes de mais nada, para as dimensões mais profundas da fé que a constituem. A natureza da Igreja não está em suas representações históricas. A Igreja, antes de ser uma instituição, é um mistério que tem origem no coração de Deus e abraça por vocação toda a humanidade.

A aplicação da imagem bíblica do “Povo de Deus” à Igreja, supera uma concepção monolítica, fixada unicamente na hierarquia, apresentando a dinâmica de um povo a caminho e em contínua conversão diante do mistério de sua vocação. Ganham espaço temas como o sacerdócio comum, o valor da fé de todos os fiéis, a importância do batismoe a comunhão entre igrejas.

Os padres conciliares tinham plena consciência de que essa noção de Povo de Deus ia causar uma profunda renovação. Não foi inadvertência: o Concílio queria inaugurar nova época. Todos sabiam muito bem que durante 700 anos a Igreja se concentrou de tal modo na hierarquia que o povo parecia objeto passivo e esquecido. Era justamente isso que precisava mudar: a Igreja não é constituída por duas categorias de cristãos, o clero e os leigos, mas de um único povo formado por membros com a mesma dignidade, a mesma pertença, a mesma participação ao mistério de Cristo.

 O ecumenismo

Um terceiro aspecto que confluiu com força no evento conciliar é a questão ecumênica. O primeiro anúncio oficial do Concílio Vaticano II foi pronunciado, não por acaso, na conclusão da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 1959. Desde então já se falava de “concílio ecumênico” como “um convite às comunidades separadas para a busca da unidade, pela qual tantas almas hoje anelam de todas as partes da terra”.

No primeiro comentário de L’Osservatore Romano, o jornal do Vaticano,se afirmava que esse Concílio não seria o “Concílio do medo” mas o “Concílio da unidade”.

Por sua vez, João XXIII, fazendo referência ao Conselho Mundial de Igrejas, afirma: “sabemos que a maior parte dos cristãos, ainda que separados de nós e entre si, têm realizado congressos e organizado conselhos para se unirem: tudo isto mostra o veemente desejo que os impele a chegarem ao menos a certa unidade”.

A dimensão ecumênica foi aquela que, desde o começo, causou as maiores reações e resistências entre os eclesiásticos. Mas para João XXIII, esta questão conjugava-se substancialmente com sua postura pastoral e com seu apelo incessante para a unidade da família humana: não é possível dar testemunho de comunhão ao mundo, se as próprias igrejas estão divididas e brigando entre si.

O diálogo com o mundo moderno

Enfim, a quarta janela representa o anseio maior: a urgente e profunda disposição a querer dialogar com o mundo moderno.

Desde a convocação do Concílio, João XXIII chama à atenção para uma humanidade no limiar de uma nova era. As conquistas no campo técnico e científico prometem “um grande progresso material ao qual não corresponde igual avanço em campo moral”. Mas isso leva as pessoas a “tornarem-se pensativas, mais cientes de seus limites, desejosas de paz, atentas à importância dos valores espirituais”, e acelera “aquele processo de estrita colaboração e recíproca interação entre indivíduos, classes e nações. Tudo isso facilita sem dúvidas o apostolado da Igreja”.

Para o Papa, esse é um “sinal dos tempos”. Na Encíclica Pacem in terris, ele fala de outros três “sinais dos tempos” que caracterizam a época moderna: a ascensão econômico-social das classes trabalhadoras, a entrada da mulher na vida pública e a igualdade entre todos os povos. Mas é a este último aspecto que o João XXIII dedica mais atenção, assim como, ao convocar o concílio, insiste particularmente sobre a paz, a justiça e a fraternidade na humanidade mundial.

A questão social, refletida no desejo de paz e de justiça para todos, representa o grande pano de fundo e a motivação interior do Vaticano II. Uma nova ordem mundial é o objetivo principal: um sinal providencial de esperança “que fazem esperar melhor sobre o destino da Igreja e do gênero humano”.

Stefano Raschietti.