São Guido, um apaixonado por Jesus Cristo

  • Felipe Garcia
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No contexto da celebração dos 150 anos do nascimento de São Guido Maria Conforti, este homem que se apaixonou por Jesus Cristo, e do ano da Vida Consagrada proclamado pelo Papa Francisco, da qual nós temos a alegria de pertencer, se apresenta esta pequena reflexão sobre a espiritualidade Cristocêntrica de São Guido e as implicações da mesma na sua vida.

“Eu estou apaixonado por você” é comum escutar em músicas ou disser entre os jovens. Mas como saber quando uma pessoa se apaixona? Ninguém se apaixona por alguém ou por algo sem antes não o conhecer, é preciso ter um encontro, não só um, vários encontros que lhe permitam descobrir, conhecer, entender, gostar e amar o que lhe apaixona.

Na vida dos cristãos este encontro começa com o chamado de Deus à vida, à vocação; é um encontro entre o Criador e sua criatura, entre o Pai e seu filho; caracteriza-se por ter um movimento dialético, a iniciativa do Pai e a resposta do filho, é nesta dinâmica que o cristão se apaixona por Deus. Isso mesmo aconteceu com Guido Ma. Conforti, que quando criança todos os dias no caminho para a escola entrava no oratório da “Paz”, ele era chamado por Deus para ter esse encontro cheio de amor, que marcará sua vida.

São Guido disse do seu encontro com o Cristo no oratório da Paz: “eu olhava para Ele e Ele olhava para mim e parecia que me dissesse tantas coisas”[1]. Parece uma frase de criança, mas nos mostra uma contemplação profunda daquele que deu tudo por nos salvar, por mostrar-nos que Deus é amor e nEle nos movemos.

Conforti começa a se apaixonar de Cristo nesse encontro, ao longo da sua vida ele vai continuar encontrando-se com Jesus Cristo, fazendo viva essa mesma contemplação, porém quando se fala de Conforti e sua obra, não se pode deixar de mencionar sua espiritualidade Cristocêntrica, espiritualidade que surge de seu olhar Cristo e de sua resposta que coloca Ele no centro de tudo.

Pode-se afirmar que este encontro vai moldar sua personalidade, alguns rasgos são: quando seminarista ele era exemplar, aceito por todos. Ele tinha uma confiança grande em Deus: era um homem que vivia da fé e via a mão de Deus em cada acontecimento. Em todas as circunstâncias, inclusive as mais dolorosas, reconhecia um traço do amor previdente do Pai.

Tinha uma ilimitada fé na divina Providência. Costumava dizer: “Ele (Deus Pai) vela continuamente por nós, ampara-nos docemente, da mesma maneira que a mãe ampara a criança incapaz de caminhar.”[2]  Esta confiança em Deus se exprime quando por problemas de uma doença não foi ordenado, mas sua oração e a interseção da Virgem consegue curar-se.

A humildade estava presente em sua vida, assim como o bom trato para todos, possuía uma calma inalterável, o sorriso era constante, algumas pessoas falavam que era a amabilidade personificada. Outras ainda diziam que se parecia a São Francisco de Sales.[3]

Foi um homem perseverante o homem do recomeçar, porque além dos problemas sempre encontrava a maneira de continuar caminhando para chegar ao objetivo. Essa foi sua atitude diante de problemas seja na enfermidade, seja nas dificuldades econômicas no início da congregação, seja nos conflitos com a diocese de Cheng chou, na China, entre outros.

Talvez escutar que alguém é apaixonado por Jesus Cristo dá para pensar em grandes milagres, coisas extraordinárias, mas podemos dizer que São Guido não realizou obras extraordinárias, no sentido de grandes feitos, de gestos impressionantes ou de atos espetaculares de heroísmo, mas fez tudo com grande perfeição e amor. Seu heroísmo consistiu em cumprir sempre com fidelidade e amor a vontade de Deus, da maneira que ela se manifestasse, a ponto de deixar admirados os que estavam próximos a Ele.

Como disse ao início para apaixonar-se por alguém o por algo é preciso conhece-lo, São Guido chegou a ser um experto em Jesus Cristo; na sua contemplação vai conhecer cada dia mais o Mestre divino, Ele era o pensamento constante e a inspiração de sua alma, alguns de seus lemas deixam enxergar que Jesus Cristo estava em seu pensar e em seu atuar:

“In Omnibus Christus”, a frase foi tirada da carta aos Colossenses, onde o Apóstolo fala do homem novo, restaurado à imagem de seu criador (Cl 3,11). O apaixonado por Cristo é capaz de ver Ele em todo, especialmente em aqueles que são rejeitados pela sociedade, é capaz de atuar como Ele com amor, gentileza, servindo aos outros, lutando pela sua salvação. “Minha palavra de ordem a qual teve querido marcar sobre meu escudo episcopal: ‘In ommnibus Christus’, em todas as coisas Cristo, porque com sublime brevidade, resume a missão do bispo, que é aquela de fazer conhecer e amar  Jesus Cristo e a sua obra.”[4]

 “Ver, buscar e amar a Deus em tudo.” Esta frase é deixada por São Guido como máxima para seus filhos missionários. Ela nos permite entender como aquele olhar contemplativo de criança chega à maturidade, agora ele vai entendendo o que Cristo parecia disser, ver com os olhos de Deus todas as pessoas, buscar a vontade de Deus em todas as coisas inclusive nas dificuldades, amar a Deus nos pequenos, nos necessitados, nos sofredores, nos pobres.

 “Seja por todos conhecido e amado, nosso Senhor Jesus Cristo.” Este lema foi colocado por São Guido ao início de algumas de suas cartas, e mostra o desejo, o fim de sua vida nesta terra, compartilhar com todos a oportunidade de ter esse encontro de amor com Cristo, salvador do mundo. Em toda sua vida seja na diocese, seja na missão, o trabalho a realizar é parte de seu carisma.

“Caritas Christi Urget Nos” (2ª Cor 5, 14) será para seus missionários o convite para levar o evangelho a todas as gentes. Assim, aqueles que se apaixonam por Cristo não podem deixar de compartilha-lo com todos, é esse amor de Cristo que levou a São Guido a entregar tudo.

O Papa Francisco pedia que a igreja for uma “igreja em saída” uma igreja que vai ao encontro dos outros, é parte do ser missionário do povo de Deus, e com estas frases São Guido demonstra como aquele que se apaixona por Jesus Cristo não pode ficar com tanto amor para si, é preciso sair ao encontro com os outros em especial aqueles que são pobres “os pobres em maior necessidade são aqueles que não possuem o dom inestimável da fé”. [5] Estas frases são fruto de uma vida de contemplação, de escuta, de conhecimento, de um homem que se apaixonou por Deus.

Em suas reflexões e cartas esta espiritualidade se faz presente; a contemplação do crucifixo é uma constante na sua vida. Para ele o crucifixo é um compêndio da obra da salvação, é a demonstração de amor mais sublime, que convida os cristãos a seguir Jesus em qualquer circunstância: “O sinal, compêndio, síntese da obra do resgate humano é a cruz. A cruz, que é altar de holocausto, estandarte de triunfo no mundo corrompido, cátedra de moral puríssima, tálamo de onde saiu a filha e a esposa de uma dor divina, a Igreja, à qual temos a ventura incomparável de pertencer [...] Devemos segui-lo não só entre as palmas e os hosanas, mas também entre os gritos descompostos do “crucifica-o”; não só na subida do Tabor, mas também naquela do Calvário.”[6]

O crucifixo é considerado por são Guido como o livro onde se encontram reunidos todos os ensinamentos do evangelho, também é nele onde os santos se formaram; assim dele obtemos eloquência, humildade, pureza, mansidão, desapego das coisas, conformidade com a vida divina, mas sobretudo caridade para com Deus e os irmãos. Além disso o crucifixo é a única arma que os missionários recebem antes de ir para missão, “Por isso, ao Missionário que parte aos lugares remotos para anunciar a Boa Nova, não se lhe entrega outra arma que o Crucifixo, porque este possui a força de Deus e por meio dele triunfará sobretudo e sobre todos, despois de ter triunfado sobre si mesmo”.[7] Por tanto, o crucifixo é parte de sua vida, o centro da sua espiritualidade, virtude que herda a seus filhos, eles devem ter sempre presente sua imagem, não importa se estão no trabalho ou no lazer, Cristo sempre tem que estar presente, para lembrar sempre que é por Ele, com Ele e para Ele que nós vivemos e nos movemos.

images“Crucifixo por toda parte. Sobre o altar, onde se renova cada dia o sacrifício do Calvário. No púlpito, porque o Sacerdote deve buscar inspiração não na sabedoria humana, mas na divina, da qual o Crucificado é a síntese, deve anunciar aquelas verdades seladas por Cristo com seu sangue divino. No confessionário, porque é lá que continua a espalhar o sangue da Vítima divina, para remissão dos pecados. No leito dos moribundos, porque, naquelas horas extremas, somente o Crucificado poderá dar esperança e conforto.

A Cruz, por fim, será posta sobre a tumba do sacerdote, como que para recordar a missão por ele exercida por força divina da Cruz, penhor do resgate humano. Aquela Cruz, para o padre santo, soará como bênção; ao mesmo tempo em que eliminará o pranto, fará crescer os louvores das fiéis testemunhas sobreviventes de suas virtudes. Para o sacerdote que viveu esquecido da santidade de seu estado soará, pelo contrário, como desaprovação.”[8]

CONCLUSÃO

Por tanto, aquele encontro de são Guido com o Cristo da Paz, foi o detonante para que sua vida ficasse toda ela cheia de Deus, respondendo com amor e entrega aquela proposta do Mestre divino, de fazer deste mundo, um mundo de irmãos que vem, buscam e amam a Deus em tudo e em todos.

Podemos resumir São Guido como aquele que escutou o chamado, respondeu, teve o encontro com seu criador, conheceu-O, amou-O e se apaixonou por Ele; doando toda sua vida para o serviço do Reino de Deus. Com Jesus Cristo no centro de sua vida, entregou para Ele “todo seu olhar (capacidade contemplativa), sua espiritualidade (capacidade de amar), reflexão teológica (capacidade de identidade com o mistério), ação pastoral (capacidade missionária), seus trabalhos de fundador e formador de missionários (capacidade generativa).”[9]

Pe Felipe Garcia.


[1] GARELLO, S., São Guido Maria Conforti uma página das maravilhas de Deus, Parma, CSCS, 2000, pág. 10.
[2] LUCA, A., São Guido Maria Conforti, Paulinas, São Paulo, 2011, pág. 272
[3] Cfr. Ibídem, pág. 276-277.
[4] Carta pastoral programática para o início da atividade como responsável da Dissesse de Parma, 4 /03/ 1908.
[5] LUCA, A., São Guido Maria Conforti, Paulinas, São Paulo, 2011, pág. 275.
[6] CERESOLI, A., FERRO, E., Antologia degli scritti di Guido M. Conforti, CSCS, Parma, 2007, pág. 177-178.
[7] Ibidem, pág. 180.
[8] Ibidem, pág. 179.
[9] Flores O., A., Tratti di spiritualità saveriana sulle orme dell’esperienza spirituale del B. Guido Ma. Conforti, Roma, 2006, pág. 5