A importância do silêncio no ambiente de retiro

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Só quem conhece a beleza do silêncio, dentro e fora de si, é capaz de viajar por seu próprio mundo interior. (Frei Betto)

Há dois silêncios que se completam: o silêncio exterior e o silêncio íntimo.

O primeiro é a ausência de rumor físico. Vivemos em nossos dias e na vida das grandes cidades cercados de barulho, num desperdício de sons. Se vivemos com os ouvidos continuamente solicitados por essa polifonia enlouquecida, só podemos criar, dentro de nós, a confusão, a desordem e o entorpecimento.

A mais diabólica conseqüência do barulho é a passividade do espírito. Solicitado a cada momento pelo ruído de fora, o nosso espírito se vai acomodando a não sentir, a não reagir e a não pensar.

Assim, o silêncio exterior é a primeira condição para a vida interior, sendo também condição essencial para a atividade da inteligência e da vontade.

Muito mais importante é o segundo, o silêncio interior. O silêncio interior embebe-se na noite, na solidão, na leitura, na meditação e, acima de tudo, na graça. O silêncio interior é o que nos leva a deixar viver o espírito em nós. Quando enchemos a nossa vida de sensações ou de sons, continuamente absorvidos pelo nosso contato exagerado com o mundo de fora, a vida do espírito começa a decair. É preciso fazer silêncio em nós, para que o espírito comece a viver.

À medida que nos retiramos ao centro de nós mesmos, à medida que cresce esse silêncio profundo da alma, vão se delineando as formas do pensamento, o passado ressurge mais claro do esquecimento, cresce a agudeza dos juízos, os sentidos interiores ganham forma à medida que se tornam mais discretos os sentidos exteriores, a luz da inteligência se toma mais viva, o calor do espírito se torna mais ardente e a vontade mais firme. Começamos a sentir o nosso eu, o que fica tantas vezes escondido em nós, por falta de silêncio. É no silêncio que ouvimos a voz das coisas (da natureza), a voz do próprio eu e a voz de Deus. Ouvimos a voz dos animais, ouvimos o sentido que têm as árvores e os rios, o mar e os passarinhos. O silêncio apura em nós a acuidade dos sentidos e da inteligência.

Deus fala pelas coisas (da natureza) quando nos cercamos de silêncio. O silêncio nos torna sensíveis ao segredo das coisas (da natureza), permitindo ouvir a voz de Deus. Com o silêncio, as coisas (da natureza, do mundo circundante) começam a falar, começam a contar-nos histórias maravilhosas que não estão apenas em nossa imaginação, mas que estão contidas nelas, trancadas em sua imobilidade de pedra, em sua versatilidade de águas, em sua mudez de pássaros, precisamente porque são criaturas de Deus. O silêncio em que contemplamos as coisas (a natureza) nos traz a voz de Deus e a voz dos homens do tempo e da eternidade, como nos traz também o segredo das próprias almas, o mistério do outro. Só em silêncio podemos chegar à compreensão.

É na medida em que fazemos em nós a depuração pelo silêncio, que podemos vencer um pouco das barreiras que nos separam uns dos outros. O amor nasce do silêncio e só ele o leva de novo à plenitude. O silêncio é o que aproxima os homens que o ruído separa, como também é o caminho da nossa própria compreensão interior. É pelo silêncio que nos encontramos a nós mesmos. Quem não sabe silenciar não se encontra jamais. Há pessoas que vivem divorciadas de si mesmas porque nunca fazem em si o silêncio. Pois o silêncio não é apenas a ausência de palavras ou ruído, uma ausência, um valor negativo, mas, ao contrário, um valor positivo, edifica o nosso mundo interior, encontramos o caminho para a paz, para a sabedoria, para perdoar e esquecer e, acima de tudo, para amar.

A nossa alma precisa de silêncio como o nosso corpo precisa de alimento.


Texto extraído do livro: “Meditação sobre o mundo Interior” de Alceu de Amorosa Lima

Texto bíblico: Mt 6, 5-15

No Evangelho, Jesus recomenda não multiplicarmos as palavras na oração. O Pai sabe de que necessitamos. Todavia somos desatentos ao conselho. Falamos de Deus, a Deus, sobre Deus. Quase nunca deixamos Deus falar em nós.