Vocação: ato misericordioso de Deus

  • Elena Conforto
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“Aprendei o que significa: Misericórdia é que eu quero, e não sacrifício. Com efeito, eu não vim chamar justos, mas pecadores” (Mt 9,13), é a mensagem central da missão do Messias. Jesus veio buscar o que estava perdido, curar os doentes, libertar os cativos, proclamar o ano de graça de misericórdia do Senhor! (cf Lc 4,18-19).

Na bula Misericoridae Vulos que proclama o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, Papa Francisco relembra as palavras de São Beda, o Venerável, a respeito da vocação de São Mateus: “Miserando atque eligendo” (Ato de compaixão misericordioso).

Na Mensagem do 53º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, Papa Francisco afirma: “A ação misericordiosa do Senhor perdoa os nossos pecados e abre-nos a uma vida nova que se concretiza na chamada ao discipulado e à missão. Toda a vocação na Igreja tem a sua origem no olhar compassivo de Jesus. A conversão e a vocação são como que duas faces da mesma medalha, interdependentes continuamente em toda a vida do discípulo missionário”.

O coração erra inquieto enquanto não descansar em Deus, diz Santo Agostinho. A morada divina é para o ser humano o que o mar é para o peixe. De fato, toda pessoa vive e sofre certa dispersão. O pecado nos afasta dos “átrios do Senhor”, como insistem os Salmos.

Vocação-retorno-conversão:  é refazer com sabedoria o caminho que reconduz à casa de Deus! Várias e distintas são as sendas do retorno. Em todas, repete-se o chamado que nos leva ao encontro com o Senhor Jesus. Há diversos empregos, serviços e ministérios, mas todos eles são caminhos que podem apontar para a morada de Deus, Pai e Mãe. Essa familiaridade e intimidade com Deus é talvez a maior sede que sofre o mundo de hoje.

Jesus vem inaugurar e comunicar com sua vida, morte e ressurreição o Reino que é vida e abundância para todos (Jo 10,10)! E para ser partícipes e, mais ainda, colaboradores na dilatação deste Reino, todos, sem exceção, somos convidados, de uma maneira ternamente pessoal, quebrando qualquer norma ou preconceito que deixe alguém fora do mesmo Reino. A misericórdia de Deus opera de tal forma na pessoa que ela possa corresponder ao chamado.

Portanto, se perguntava Padre Tiago fundador das Missionárias de Maria – Xaverianas, contemplando com maravilha a ação da Graça e o brotar das vocações: “E as vocações, como superação das dificuldades insuperáveis, devidas principalmente à rebeldia das vontades humanas contra as maiores graças, não exigem, porventura, a intervenção da Onipotência e da Misericórdia divinas? ”

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Voltando para a vocação de Mateus e olhando para ele se pode afirmar, com certeza, que era uma das pessoas que, na época de Jesus, sofriam a exclusão: era um publicano, ou seja, cobrador de impostos, uma classe muito odiada, não aceita pelo povo por causa do trabalho ganancioso; sua colaboração com o poder estrangeiro não era tolerada pelos membros do povo que os considerava ladrões e agiotas.

Eram considerados impuros por parte das autoridades religiosas judaicas e, para o império romano, não eram mais que um dos últimos degraus na escada da opressão que exerciam sobre o povo.

Por esse motivo, é ruidoso para os judeus e também para os discípulos que Jesus escolha Mateus para ser um dos seus seguidores! E, como se isso não bastasse, vai à sua casa e se senta à mesa com ele e seus amigos.

Se considerarmos a casa como símbolo da história pessoal e sua mesa como a sua intimidade, podemos entender que o evangelista está mostrando que Jesus, quando chama Mateus, o faz dentro de sua própria história com suas luzes e sombras.

A resposta de Jesus aos fariseus revela seu conhecimento da vida de Mateus, que o faz “merecedor” de uma atenção privilegiada por parte dele: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes” (Mt 9,12). Essa maneira de olhar de Jesus é revolucionária, porque está carregada de compaixão, ternura e misericórdia: ele não julga nem condena o cobrador de impostos, mas o convida para uma vida diferente que brota da amizade com Ele; cura suas feridas e perdoa os pecados, amando-o incondicionalmente. Jesus tem uma queda para os pecadores! Talvez porque eles, à diferença dos fariseus, sabem que não podem se salvar sozinhos e percebem, no encontro com Jesus, a possibilidade de se resgatarem.

O chamado de Mateus acontece de um jeito rápido e imediato, em um piscar de olhos; é imprevisto porque caracterizado pela total gratuidade. Entra na fidelidade de Deus que escolhe não em virtude dela aptidão, mas porque ama (cf Dt 7,7-8a). Na hora em que Jesus diz para Mateus: “Segue-me!” (Mt 9,9), ele se levanta porque percebe a novidade que o impulsiona a mudar de rumo; abre-se diante dele a possibilidade de um caminho novo, impensável até esse momento. Com efeito, seguir Jesus quer dizer para ele dar um corte a uma situação de injustiça que caracteriza sua conduta de vida até então. É convidado a ser íntimo colaborador na construção de um reino de liberdade, justiça e solidariedade, deixando de ser uma engrenagem do império opressor.

Madre Celestina, fundadora, juntamente com o Pe. Tiago, das Missionarias, perguntava-se: “Não é talvez um grande exercício de fé acreditar que o Senhor nos escolheu, nos deu e nos dá as graças necessárias para a vocação à qual nos chamou e fará grandes coisas, servindo-se do nosso nada se nós tivermos fé n’Ele, mesmo se as forças físicas diminuírem, mesmo se a santidade permanece sempre tão longe do ideal, mesmo se nos sentimos carentes de dons naturais?”.

Jesus continua a passar pelas nossas cidades e vilas: deixemos que nos olhe no nosso dia a dia e, como Mateus, tenhamos a coragem de acolher esse olhar de ternura e a proposta que dele brota.

A existência se tornará diferente e seremos parte desse círculo aberto, inclusivo e integrador de amigos de Jesus, unidos pela sua mesma paixão: o ser humano, sua vida e a casa que ele habita!

Elena Conforto mmx.