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O que vimos e ouvimos...

  • Luiz Toledo
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 “Não nos podemos calar sobre o que vimos e ouvimos” (At 4,20), assim falou Pedro diante das autoridades judaicas no Livro dos Atos quando ainda está no início o anuncio da Boa Noticia do Reino de Deus.

Fundamentado nesta passagem bíblica, quero tentar expor por meio destas linhas aquilo que vi, ouvi e senti neste tempo rico de experiência de dois meses na Região amazônica, mais especificamente na diocese do Alto Solimões.

Penso seja bom me apresentar, pois assim quem for ler este relato saberá melhor de onde vem e a cabeça de quem saiu este escrito. Eu sou Pe Luiz Toledo, membro da congregação dos Missionários Xaverianos, que no ano 2016 está vivenciando um ano sabático.

Pe ToledoNeste espaço e com firme propósito de aproveitar bem este tempo de parada dos compromissos paroquiais, destinei um tempo para conhecer melhor a maneira de fazer pastoral sobre as águas do amazonas.

Dois fatores importantes favoreceram esta experiência desejada há muito tempo.

1º. A aceitação do Conselho Regional do meu pedido de um Ano Sabático;

2º. O fato de Dom Adolfo se tornar o bispo daquela diocese onde se pratica aquela experiência de equipes mistas, inter-congregacional e leigos; um trabalho que há tempo me desperta curiosidade e desejo de conhecer. Graças a Deus e à ajuda de amigos, isso aconteceu, não em plenitude, mas em parte; e me sinto contente com o acontecimento.

Sinto que posso dividir estes dois meses do meu ano sabático em três momentos diferenciados de contatar a realidade percebida.

Primeiro momento, vivenciado numa realidade do mundo globalizado: este período foi de oito dias que passei em Manaus. Tudo fantástico com a fantasia de todas as capitais ou cidade de grande e médio porte. Não posso dizer que foi um tempo perdido. A grande influencia dos meios de comunicação, os monumentos históricos, a vida das famílias no contexto urbano... nos trazem momentos importante de reflexão.

Segundo momento: foi os 41 dias que vivi numa aldeia indígena, localizada na beira do Rio Solimões distante 4 horas de voadeira da cidade de Tabatinga. Esta é uma aldeia dos índios Ticuna onde moram mais de duas mil pessoas. Neste povoado vive uma comunidade de religiosas, orientada e sustentada pelo Regional da CNBB Sul 1 e a CRB Sul 1. As irmãs chegaram no povoado em 2014 com 3 religiosas, mas após um tempo uma delas sentiu que era melhor deixar a equipe e tomou outro rumo. As duas irmãs que por ali permanecem e querem ficar até o fim do contrato, que deve acontecer na primeira metade de 2017, têm experiência missionária diferente e também carismas diferentes.

A Ir. Isabel vem de um longo trabalho na China, onde ficou 13 anos; a irmã Luiza vem de uma experiência urbana nas periferias de São Paulo. Além das diferentes experiências e carismas, tem também a diferença de cultura familiar, que ajuda a formar uma comunidade adequada para exercitar a humildade, compreensão, dialogo, perdão e outras virtudes mais, que são necessárias para testemunhar a unidade e o espirito de família.

Com a minha chegada alguma mudança teve que acontecer. O trabalho aumentou, a vida comunitária e religiosa foi enriquecida com as celebrações da eucaristia diária; também as celebrações de missas nas comunidades... foi algo de positivo para a comunidade local.

Como foi o meu dia a dia nesta temporada? Diz o livro do Eclesiastes que nada há de novo na face da terra. Tudo o que se faz hoje já aconteceu no passado. Se isso corresponde plenamente a verdade ou não, eu não sei. Porem esta experiência eu nunca tinha experimentado e nem acredito que se vai repetir em um futuro. Foi um retiro longo, pregado pelo Espírito Santo, iluminado pela palavra de Deus.

A primeira atividade do dia era a celebração da eucaristia acompanhado das laudas; isso acontecia as 6:30 da manhã; e logo após tomávamos o café. Após o café, eu pegava a Bíblia e me dirigia a um salão de encontros chamado “Chapéu de palha” e lá eu contemplava a palavra de Deus e a vida que manifestava em minha frente; vida das pessoas que passavam por ali para ir ao rio tomar a canoa para o trabalho, ou lavar a roupa e as louças da cozinha. Também tomar banho: vidas das crianças nuas ou seminuas indo no rio se banhar e brincar na água; vidas de crianças que subiam nas árvores colher os frutos, outras que subiam em açaizeiros muitos altos com uma rapidez incrível, crianças de cinco anos correndo, outras de três anos... Tudo acontecia num pequeno lugar geográfico onde a vida transborda.

solimoes 2Tudo isso era o material oferecido para minha meditação. Confesso que falei muito pouco e também ouvi pouco, porque a população que ali vive tem grande dificuldade a entender o português com exceção dos adultos que trabalham no comércio e mais alguns outros, adultos e jovens.

Senti na pele os limites de muitos missionários que desanimam diante das dificuldades de uma língua diferente e uma cultura estranha.

O que me dava razão para levar avante o projeto de permanecer ali até a data que estava programada, foram as palavras e a vida de Jesus que observou e viveu a vida do seu povo até chegar o momento de anunciar o Reino como realizador do projeto de Deus Pai.

Examinando o período do meu retiro pude perceber que foi mais longo que o retiro de Elias que focou 40 dias no monte Carmelo e também o retiro de Jesus que ficou 40 dias no deserto se preparando para a missão.

Todos estes pensamentos e meditações me davam tranquilidade e satisfação.

Nestes 41 dias na comunidade de Vendaval do povo Ticuna fez questionamentos que só o tempo e a história vão responder. O questionamento mais angustiante procedia da proposta de evangelização. O que o cristianismo oferece como proposta de vida, que possa ser cativante para os povos nativos? No cristianismo somos convidados a amar a vida, defender a vida, promover a vida, não somente a vida humana, mas a diversidade da vida que nos cerca e que vive em relação e parceria conosco. Sinto que isso tudo “ou quase tudo” já é vivenciado pelo povo indígena como cultura e religião que caminham juntas, fundamentado pela união e direção provindo de um único Deus.

Tive a sensação de que falta para este povo a dimensão de vida eterna, e a preparação de que esta vida começa a ser preparada aqui. Não conversei com lideranças deles sobre este assunto e por isso pode acontecer que meu raciocínio seja preconceituoso e não corresponda à verdade. Com isso não quero dizer que a presença da Igreja no meio deles seja inútil ou desnecessária; não tenho nenhuma dúvida da eficácia do Evangelho e da importância do conhecimento de Cristo que se da pelo anuncio.

Outra pergunta que me fiz mais de uma vez foi: esta cultura chamada de tradicional ou primitiva terá suficiente resistência para vencer as propostas do mundo globalizado?

A tristeza maior dos anciãos desta comunidade é a constatação que seus filhos não têm a preocupação de conservar isso tudo e muitos têm até vergonha de se apresentarem como descendentes de índios. O que será deste povo com sua cultura daqui a 20 anos? Por isso tudo, volto a afirmar que estes 41 dias de presença na aldeia foi rica e cheia de questionamentos. Assim foi meu retiro sem pregador nem programas preestabelecidos, mas valeu a pena!

Passarei agora ao terceiro momento: o período que teve duração de treze dias, fiquei hospedado na Casa do Bispo na cidade de Tabatinga. Lá vive uma comunidade mista muito alegre e acolhedora. Durante este período aconteceu em Tabatinga um grande Encontro Internacional de Lideranças dos Povos Indígenas e outras lideranças Religiosas e Agentes de Pastoral que trabalham com diferentes projetos na Região. Eu participei como ouvinte e convidado especial do Bispo. Foram quatro dias de partilha, troca de experiências, lançamento de propostas, busca de soluções aos problemas, manifestação de solidariedade... em fim, quatro dias ricos de propostas de vida, dede ação, até união de forças para combater o mal.

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Escutando com atenção as colocações dos caciques ou dos professores da cultura indígena, percebi a intencionalidade de questões por eles apresentadas. A primeira questão tratava do desrespeito à sua cultura, de destruição da biodiversidade, da exploração do solo que era deles, maltrato da terra, os preconceitos e os maus tratos sofridos pelo povo. Estas constatações eram uma denuncia do passado, mas continuam se repetindo ainda com alguns povos.

Percebi, também, uma preocupação manifestada por eles com o futuro de suas tribos e suas culturas.

Diziam eles que os jovens, “seus filhos”, não mais se preocupam com suas tradições e costumes, estando imbuídos do mundo globalizado. Um bom número deles vem estudar na cidade e não voltam mais nas aldeias.

Uma segunda colocação foi o reconhecimento da atuação da Igreja atualmente no meio deles. Falou-se da importância e do desejo deles de uma presença mais frequente e atuante da Igreja. Eles acreditam que a Igreja tem facilidade para unificar e coordenar forças de atuação com maior eficácia. Fizeram elogios a REPAM - Rede Eclesial da Panamazônia - por ser um órgão de reconhecimento internacional com capacidade de unir forças no trabalho do bem comum.

Outros dias que passei em Tabatinga foi para conhecer o que me era possível no pouco tempo que me restava. Dom Adolfo gentilmente me levou conhecer as comunidades da cidade. Visitamos quase todas, Fui convidado a celebrar em algumas delas. Tive uma boa impressão delas; boas construções de alvenaria, bem cuidada e tudo bem encaminhado. Na diocese tem sete municípios e oito paróquias. Tive o tempo de visitar quatro municípios e cinco paróquias. Todas as paróquias tem padre, quase todas com mais de um, sobretudo onde estão os Freis Capuchinhos.

De todas as paróquias e municípios visitados uma foi a mais esperada e aguardada com muita expectativa, pois dela era dito que havia algo de especial, diferente. Esta localidade é Atalaia do Norte.

Atalaia do Norte fica à beira do rio Javari e demora mais ou menos uma hora e meia ou duas horas para chegar lá de voadeira. Nós chegamos lá pelas 09:00 horas da manhã do dia 15/06. Nossa caravana era composta de cinco pessoas: o Bispo, dois padres, um irmão marista e o motorista. Foi uma viagem encantadora que é impossível descrever; é preciso mesmo viver.

Mas o que vi, ouvi e senti em Atalaia do Norte?

“Vi” de longe uma cidade construída numa região um pouco montanhosa, com uma igreja situada num dos pontos mais altos da cidade. Vi também na beira do rio - onde ficam os pontos e lugares de desembarque de canoas - um reflexo de pobreza: mulheres indígenas em suas canoas cuidando de seus filhos; tive a sensação que eram pessoas carentes. A rua na beira do rio semeada de casas simples de pessoas que lutam para ganhar o pão de cada dia.

“Ouvi” o bispo dizer que Atalaia tem 76 mil quilômetros quadrados; que é o munícipio maior da diocese e maior que alguns dos países do mundo como Serra Leoa com cerca de 65.000Km². Disse também o bispo de que Atalaia e mais da metade do território da diocese. Ouvi do pároco da cidade Pe Otaviano dizer que o munícipio tem 17 mil habitantes; disse também que 10.000 moram na cidade e 7.000 na zona rural ribeirinhos e aldeanos. Disse ainda o pároco que a Paróquia tem 56 comunidades. Destas comunidades 17 são dos ribeirinhos e todas as outras são aldeias indígenas. Afirmou ainda que estas comunidades algumas são visitadas de vez em quando e muitas nunca tiveram a presença do padre. Disse que os meios de comunicação e transporte são extremamente difíceis. O transporte por água é muito lento e que o trabalho na paróquia é grande e precisa de alguns auxiliares.

Disse, ainda que o trabalho na cidade concentra-se na igreja matriz. Não tem comunidades nas periferias e somente tem celebrações na matriz e nas casas. Diz que tem uma boa participação nas missas e que a Igreja tem lugar para 480 pessoas sentadas e são quase todos ocupados. Vi também que na paroquia tem uma comunidade de religiosas que ajuda nos trabalhos paroquiais; e que é uma comunidade de três irmãs Filhas de Santa Ana. Irmãs muito alegres e acolhedoras. Em fim vi e ouvi muita coisa boa e também muitos desafios; é uma grande messe a espera de operários.

“Senti”, em Atalaia, diante de tudo isso, a dimensão do desafio que se apresenta, pois é uma realidade com muito por fazer.

Falando em “tem muito por fazer”, percebi a presença de quatro janelas abertas que esperam por alguém que queira fazer algo.

Primeira janela: Pastoral Urbana; não é concebível que numa cidade com 10.000 habitantes não hajam comunidades nos bairros periféricos, quando as igrejas evangélicas crescem como filhos de coelhos.

Segunda janela: Pastoral Ribeirinha: há 17 comunidades na beira do Rio javari e dos seus afluentes, carentes de formação de lideranças e de presença da Igreja para trabalhar na evangelização.

Terceira janela: Pastoral nas Aldeias Indígenas: creio ser este o desafio maior; as dificuldades são tantas, mas a necessidade não é menos. Existe aí um povo aguardando alguém que seja portador de uma boa noticia para as suas famílias.

Quarta janela: Pastoral Social: trata-se de um campo aberto com possibilidades de um trabalho frutuoso, em parceria com outras tantas entidades que já atuam na região.

“Ouvi” ainda... e não uma ó vez, pela voz de Dom Adolfo a expressão do seu desejo de ter uma equipe de missionários para atuar na área num trabalho em conjunto, buscando soluções para estes inúmeros problemas. Na fala de Dom Adolfo percebe-se facilmente o seu desejo de uma equipe com missionários que tenha carisma de primeiro anuncio, realizando atividades missionárias para animar, formar e multiplicar comunidades como já se está fazendo na imensidade da Amazônia.

“Senti” ainda que os desafios que estão presentes neste campo de missão de Atalaia do Norte nos convidam a uma reflexão sobre como estamos vivendo nosso carisma, onde estamos investindo as nossas forças... Tenho presentes os apelos do Papa Francisco que pede uma igreja em saída, uma igreja suja de lama, molhada de água e suor, uma igreja de pastores com cheiro de ovelhas, uma igreja preocupada com o cuidado da casa comum; comprometida com a vida humana e com o meio ambiente, com a vida do planeta em seu todo.

Creio que tudo nos convida a uma seria reflexão e uma tomada de decisão corajosa no sentido de responder aos apelos do Reino de Deus. Tomada de decisão como esta não se faz sobre influxo de euforia ou empolgação momentânea. Para responder a estes desafios precisa-se de paixão pelo Reino, saúde e força para enfrentá-los.

Um apelo eclesial que representa um sinal dos tempos; e continuará sendo apelo até quando não houver resposta.

  • Pe Luiz Toledo.