Campanha da Fraternidade 2017: Cultivar e guardar a criação (Gn 2,15)

  • Rafael Lopez Villasenor
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Bioma é um conjunto de vida constituído por agrupamento de tipos de vegetação contíguos e identificáveis em uma escala regional, com condições geoclimáticas similares e história compartilhada de mudanças.

No Brasil temos seis biomas: a Mata Atlântica, a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal, a Caatinga e o Pampa. Nesses biomas vivem pessoas, povos, resultantes da imensa miscigenação brasileira.

Objetivo Geral:  Cuidar da criação, de modo especial dos biomas brasileiros, dons de Deus, e promover relações fraternas com a vida e a cultura dos povos, à luz do Evangelho.

I – VER – OS BIOMAS BRASILEIROS

1. A Amazônia é o maior bioma do Brasil, ocupa 61% do território nacional. Maior hidrográfica de água doce do mundo, a bacia amazônica. O principal rio, o Amazonas, lança no Oceano Atlântico cerca de 175 milhões de litros d´água a cada segundo. O bioma Amazônia é de árvores altas, abrigue mais da metade das espécies vivas do Brasil. Nesta região vivem aproximadamente 24 milhões de pessoas, sendo que 80% delas nas áreas urbanas, sem saneamento básico e outras mazelas.

Os conflitos e a violência contra os trabalhadores do campo e o trabalho escravo se concentram na Amazônia, além do desmatamento, da construção de grandes hidrelétricas e da mineração que destroem o bioma. Existem as lutas indígenas, de ribeirinhos, de quilombolas para manter os seus territórios.

A Igreja Católica na Amazônia Legal vive na sabedoria tradicional e na piedade popular que mantém viva a fé e a espiritualidade do povo da floresta. Terra de muitos mártires em pró da justiça e do Reino.

2.A Caatinga nome de origem indígena, que significa “mata clara e aberta”, é própria do clima semiárido entre a estreita faixa da Mata Atlântica e o Cerrado.  Bioma exclusivo brasileiro, onde vivem 27 milhões de pessoas. A seca, a luminosidade e o calor resultam numa vegetação de savana estépica, espinhosa e decidual. Há também áreas serranas, brejos e outros tipos de bolsão climático mais ameno. 40% da população da Caatinga estão no meio rural.

A vegetação baixa favorece a criação de animais de pequeno e médio porte como cabras, ovelhas... O desmatamento gera a desertificação provocada pela economia irresponsável e predadora. Há pouca infraestrutura da saúde, violência no campo e a presença das drogas nas cidades interioranas.

As festas juninas entre outras são marcas da religiosidade popular da caatinga. A vida de fé das comunidades cristãs é marcada pela piedade popular, pela devoção e pelas romarias nos expressivos santuários da região. A Campanha da Fraternidade e CEBs, surgiram na região Nordeste.

3. O Cerrado tem duas estações climáticas bem definidas: chuvosa e seca. Nesta área vivem 22 milhões de pessoas. No Cerrado nascem as três maiores bacias da América do Sul (Amazônica/Tocantins São Francisco e Prata). O bioma abriga mais de 6,5 mil espécies de plantas já catalogadas. No Cerrado predominam formações da savana e clima tropical quente subúmido. Acumula as águas das chuvas em seu subsolo poroso, nas vindas dos “rios aéreos”. Os seres vivos do bioma representam 5% da fauna mundial.

Os indígenas são os guardiões do patrimônio ecológico e cultural deste bioma. O Cerrado abastece a bacia do Rio São Francisco. Por sua vez o agronegócio produz desmatamento, sequestram a terra dos povos e comunidades tradicionais.

4.A Mata Atlântica estendia-se originalmente por 17 estados. Hoje apenas temos 12,5% da área original. Desde o descobrimento do Brasil a Mata Atlântica vem sendo destruída. A concentração urbana neste bioma abriga a maioria das capitais litorâneas e regiões metropolitanas.  A vegetação é floresta de árvores altas e com um clima quente e úmido. Atualmente é o bioma brasileiro mais descaracterizado. Vivem mais de 220 mil espécies de plantas, 992 espécies de aves; 197 répteis; 372 anfíbios; 350 peixes.

A destruição da Mata Atlântica começa com a extração do pau-brasil, passa por vários ciclos econômicos de cana de açúcar, café, ouro, fumo. Os povos indígenas foram os primeiros a sofrerem com os colonizadores. Das 633 espécies de animais ameaçados de extinção no Brasil, 383 ocorrem neste bioma. A concentração populacional na área urbana leva à ocupação em áreas de risco, de mananciais e encostas de morros com o aumento a degradação do ambiente.  Os jesuítas, Manoel da Nóbrega, José de Anchieta iniciaram o processo de aldeamento, a construção de conventos e colégios. Logo vieram franciscanos, beneditinos, carmelitas...

5. O Pantanal uma das maiores extensões úmidas contínuas do planeta. Caracterizado por inundações de longa duração, que ocorrem anualmente na planície, provocando alterações no ambiente, na vida silvestre e no cotidiano das populações locais. A vegetação predominante é a savana. A cobertura vegetal original de áreas que circundam o Pantanal foi em grande parte substituída por lavouras e pastos.

Durante a chuva a água do pantanal alaga grande parte da planície, rios, lagos e riachos ficam interligados por canais e lacunas permitindo o deslocamento de espécies. Quando acaba o volume d’água e retornam para os seus leitos, tudo muda, a vegetação e os animais precisam adequar-se à movimentação das águas.

Na época da seca formam-se lagoas e corixos isolados, os quais retêm grandes quantidades de peixes e plantas aquáticas. O Pantanal é uma das áreas mais importantes para aves aquáticas e espécies migratórias, como abrigo, fonte de alimentação e reprodução. A agropecuária e mineração ativa afetam os lençóis freáticos que abastecem os rios, córregos e poços, contaminando a água.

6. O bioma pampa presente no Rio Grande do Sul, no Uruguai e na Argentina classificado de Estepe. Marcado por clima chuvoso, sem período seco regular e com frentes polares e temperaturas negativas no inverno. Por causa do clima frio e seco a vegetação não se desenvolve. A vegetação é constituída de ervas e arbustos. Influenciado pelo clima subtropical, constituído por planícies. O vento é uma das características do cenário.

cf 2017 ilustracao 650x423A introdução e expansão das monoculturas e das pastagens com espécies exóticas levaram a degradação e descaracterização das paisagens naturais. A principal atividade é a criação do gado bovino. O chimarrão, o churrasco, a música de fronteira, são riquezas culturais. Região latifundiária, ganadeira e de monocultura. Os missionários jesuítas na colonização fundaram “As Missões dos Sete Povos”.

II - JULGAR: A SAGRADA ESCRITURA E O MAGISTÉRIO

O primeiro relato da criação é realizado em sete dias (Gn 1,1-2,4a). Cada um dos seis primeiros dias Deus vai criando um elemento da natureza (Gn 1,3-24). O sétimo dia é descanso divino.  O segundo relato destaca Deus providenciando a chuva e para a fecundação da terra, cria o homem e o coloca como guardião. A criação é obra prima das mãos de Deus (Salmo 8).

O Papa Francisco na encíclica Laudato Si’ explica que “cultivar” quer dizer proteger, cuidar, preservar, velar. Implica uma relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza. A criação pertence a Deus  (Sl 24; Lv 25,23). O homem, que é imagem e semelhança de Deus, recebeu a vocação de cuidar e guardar com atenção dos seres que dela fazem parte.

O relato do pecado do homem provoca ruptura nas relações (Gn 3,6) com Deus e interpessoais (Gn 3,12-13).  O que inclui o mundo criado (Gn 19; Ex 8-11; 2 Sm 24). A consequência da queda é a hostilidade da terra ao homem (Gn 3,19). Os profetas denunciam o pecado (Am 5,4;. Os 14; Jr 3,12; Is 55,7; 57,15; Ez 18,23). Eles têm consciência de que as relações serão restauradas (Is 2,4; Is 60,18-19).

A iniciativa é sempre de Deus (Gl, 4,4-5; 2 Cor 5,18; Rm 5,10; Mt 6,9-13; Jo 20,17). Jesus utiliza dos elementos da criação para anunciar o Reino (Jo 4,10-14; Mt 5,45; Jo 15;; Mc 4,1-20; Mt 6, 28-34). Deus age e coloca fim no sofrimento, fazendo surgir um novo céu e uma nova terra (Ap 21,1) e faz novas todas as coisas (Ap 21,5).

Paulo VI iniciou a reflexão do magistério sobre ecologia em Octogesima Adveniens (AO 21). João Paulo II, na encíclica Centesimus Annus, pede atenção à preservação dos habitat naturais das diversas espécies animais ameaçadas de extinção deve ir de mãos dadas com o respeito pela estrutura natural e moral, da qual o homem foi dotado. Bento XVI apresenta a preocupação com ecologia humana e social. Em Caritas in Veritate recordou a urgência de uma solidariedade que leve a uma redistribuição mundial dos recursos energéticos, de modo que os próprios países desprovidos possam ter acesso a eles. Francisco na exortação apostólica Evangelii Gaudium afirma: Nós, seres humanos, não somos meramente beneficiários, mas guardiões das outras criaturas. Ele escreveu a primeira encíclica ecológica: Laudato Si’ que pede uma ecologia integral para vida do planeta (LS, 64; 222), dirigida para toda a humanidade.

 III- AGIR: DEFENDER A DIVERSIDADE ECOLÓGICA
  • Superar a ideia da Amazônia como terra a ser explorada. É preciso igualmente fortalecer as cooperativas, baseadas no agro-extrativismo que gera renda para muitas famílias. Fortalecer as políticas públicas por saneamento básico e transporte público de qualidade.
  • A Caatinga é um bioma frágil. Melhorar o esgotamento sanitário. Ampliar o uso de cisternas para captação das águas da chuva e desenvolver a captação da energia solar e uso da energia eólica.
  • No Cerrado fortalecer a agricultura familiar e a preservação e recuperação das frutas e das ervas medicinais. Reforçar a campanha: Cerrado, berço das águas: sem Cerrado, sem água, sem vida. Exigir controle mais rígido sobre o licenciamento de novos projetos de irrigação.
  • Na Mata Atlântica exigir a recuperação das áreas degradadas do bioma, como as matas ciliares e nascentes. Pedir que as políticas de saneamento básico sejam implantadas em toda a área urbanizada e rural do bioma. Cuidar das nascentes e dos rios. Denunciar os projetos econômicos imobiliários em áreas de Preservação Permanente (APP). Incentivar o consumo de produtos agroecológicos e sustentáveis da Economia Solidária.
  • No Pantanal apoiar os povos indígenas para garantir que as terras sejam demarcadas, afastando os fazendeiros gananciosos da região. Preservar os rios, lagos e igarapés. Promover a integração das lideranças indígenas e das populações tradicionais na luta pelas causas comuns. Assegurar a presença efetiva da Igreja na assistência espiritual às comunidades católicas indígenas.
  • Nos Pampas incentivar ações que promovam o direito à vida e a cultura dos povos tradicionais que habitam o bioma. Conscientizar da necessidade de defender a biodiversidade animal e vegetal do bioma.
  • Propor novos métodos de produção das áreas ocupadas pelo agronegócio através da recomposição da vegetação original e de cultivo agroecológico. Motivar a recuperação das fontes de água potável, rios, lagoas e banhados através de políticas de despoluição, replantio das matas ciliares e redefinição de seu uso. Exigir políticas públicas para o controle de exploração e comercialização da água, com incentivo ao controle social.

Pe Rafael Lopez Villasenor.