Cuidar da casa comum, uma missão integral

  • Estevão Raschietti
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Por que falamos ainda de ecologia? Por que esse tema deveria tocar tão de perto a consciência missionária? Não deveríamos nos dirigir para outras urgências e apelos que dizem respeito ao nosso carisma de anunciar o Reino de Deus a todas as nações?

Afinal, não deveríamos deixar esse problema aos ambientalistas que gostam de preservar florestas – o que também é importante – e fazer campanhas para salvar algumas espécies de animais? Por que a missão deve priorizar tanto esse assunto?

A pergunta vem à tona quando vemos a Igreja no Brasil promover, em 2017, outra Campanha da Fraternidade sobre a ecologia: “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”. Talvez, numa ótica mais missionária, pudéssemos falar de “biomas do mundo inteiro”, acostumando-nos a olhar um pouco mais para fora do nosso quintal, para o desmatamento da floresta amazônica como também o degelo do Ártico.

Contudo, não há como negar que o Brasil detém grande parte dos principais e dos mais influentes biomas do mundo, e por isso temos de cuidar começando pelo nosso chão para o bem de todos: pensar mundialmente e agir localmente.

A palavra “bioma”, como explica o texto-base da CF 2017, vem do grego “bio” que quer dizer “vida”, e “oma” que quer dizer “massa, grupo ou estrutura de vida”. Um bioma é um sistema de vida constituído pelos tipos de vegetação e por todos os seres vivos de uma região.

No Brasil, temos seis biomas: a Mata Atlântica, a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal, a Caatinga e o Pampa. Bioma, portanto, é vida e a vida a ser cuidada, protegida, promovida ... simplesmente, porque também nós fazemos parte dela.

A vida ameaçada

Essa vida está sendo ameaçada pelo modelo de desenvolvimento, pela sociedade capitalista, exploradora e consumista promovida pela ação humana. O Papa Francisco fala disso em sua Carta Encíclica Laudato Si: “os recursos da terra estão sendo depredados também por causa de formas imediatistas de entender a economia e a atividade comercial e produtiva” (LS 32). A depredação da natureza é devoradora, porque “a aliança entre economia e tecnologia acaba por deixar de fora tudo o que não faz parte dos seus interesses imediatos” (LS 54).

Com efeito, vivemos num mundo onde “a economia assume todo o desenvolvimento tecnológico em função do lucro, sem prestar atenção a eventuais consequências negativas para o ser humano” (LS 109). E acaba que “o ritmo de consumo, desperdício e alteração do meio ambiente superou de tal maneira as possibilidades do planeta, que o estilo de vida atual – por ser insustentável – só pode desembocar em catástrofes, como aliás já está a acontecer periodicamente em várias regiões” (LS 161).

Não há motivo para acreditar que o mercado, por si mesmo, garantirá o desenvolvimento humano integral e a inclusão social, e que a economia atual e a tecnologia resolverão todos os problemas ambientais: pelo contrário, “o mundo do consumo exacerbado é, simultaneamente, o mundo que maltrata a vida em todas as suas formas” (LS 230).

A vida no planeta Terra tornou-se insustentável: hoje precisamos de cinco planetas para garantir um padrão de consumo de classe média para sete bilhões de habitantes ... e temos apenas um.

O Evangelho da Criação

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Nós, missionários e missionárias, somos chamados por vocação a anunciar o Deus da vida que nos fala através da sua criação: “o solo, a água, as montanhas: tudo é carícia de Deus” (LS 84). A criação é fruto do transbordar do amor divino que nos chama a participar de sua vida doada. A experiência espiritual saboreada na natureza, sedimentada na sabedoria dos povos, contemplada no silêncio e no encanto, é encontro com Deus que continuamente se revela, que nos chama e nos envia para promover e espalhar a sua Vida para todos.

A criação nos chama também à comunhão universal com todos os seres vivos: “O fim último das restantes criaturas não somos nós. Mas todas avançam, juntamente conosco e através de nós, para a meta comum, que é Deus, numa plenitude transcendente onde Cristo ressuscitado tudo abraça e ilumina” (LS 83).

Ecologia integral para uma missão integral

Nós, missionários e missionárias, somos chamados, portanto, a cuidar muito bem da vida e a lutar contra o mal. O grito dos pobres vem associado ao grito da terra. A mesma lógica perversa que submete os pobres também depreda e espolia a terra. Hoje se recupera o sentido profundo do Deus cristão que redime não somente o ser humano, mas todo o universo. Abraçando a Deus, abraçamos o mundo em sua totalidade. O grito pela vida no planeta tornou-se uma crítica violenta ao modelo de civilização que estamos construindo. A terra não é para ser explorada e destruída, em vista do lucro, mas respeitada e amada.

Por isso, Papa Francisco fala de promover uma ecologia integral “que inclua claramente as dimensões humanas e sociais” (LS 137), a natureza e os seres humanos, pois “tudo está interligado, e isto convida-nos a maturar uma espiritualidade da solidariedade global que brota do mistério da Trindade” (LS 240).

Apontar para outro estilo de vida

Para isso, como missionários e missionárias, somos chamados a apontar para outro estilo de vida, pois “o tema da degradação ambiental põe em questão os comportamentos de cada um de nós” (LS 206). “A espiritualidade cristã – diz o Papa – propõe um crescimento na sobriedade e uma capacidade de se alegrar com pouco. É um regresso à simplicidade que nos permite parar a saborear as pequenas coisas, agradecer as possibilidades que a vida oferece sem nos apegarmos ao que temos nem entristecermos por aquilo que não possuímos. Isto exige evitar a dinâmica do domínio e da mera acumulação de prazeres” (LS 222). “A crise ecológica é um apelo a uma profunda conversão interior” (LS 217), que, por sua vez,  torna-se gesto político, econômico e social na medida em que afeta o mercado.

Aqui vai um apelo para a nossa Quaresma: um tempo de graça e de conversão missionária feita de simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a lógica da violência, da exploração, do egoísmo, voltando a sentir que precisamos ter responsabilidade com os outros e com o mundo. Essa conversão implica gratidão e gratuidade, um reconhecimento por todos os dons recebidos do Pai, que, consequentemente, provoca disposições gratuitas de renúncia e gestos generosos.

Pe. Estevão Raschietti, sx.