“Cultivar e guardar a criação" (Gn 2,15)

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“Cultivar e guardar a criação” é a Palavra de Deus que ilumina o tema da C.F. 2017: Biomas brasileiros e defesa da vida. Palavra que nos convida a deter nossos olhares sobre a porção da ‘casa comum’ que é nosso país: a riqueza de seus biomas.

Cultivar e cuidar são dois verbos inspiradores, significativos, que geram uma espiritualidade que nos leva a uma postura transformadora de nossa relação com o universo.

“Como se pode comprar o céu, o calor da terra? Tal ideia nos é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água. Como podes então comprá-los de nós?” Essas palavras, escritas em 1855, pelo Cacique Seatlhe, do povo Duwamish, ao presidente dos Estados Unidos, são atuais e refletem a Tradição Sagrada da Terra Mãe, do Universo como o grande útero que abriga a humanidade e lhe garante a vida.

“Estamos diante de um momento critico da história da terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. A escolha é esta: ou formar uma aliança global para cuidar da Terra e cuidar um dos outros ou arriscar a nossa destruição e a devastação da diversidade da vida.”, adverte-nos a Carta da Terra.

“A terra não será vendida perpetuamente, pois a terra me pertence, e vós sois para mim estrangeiros e hóspedes.” (Lv 25,23). “De Iahweh é a terra e tudo o que nela existe, o mundo e os seus habitantes...” (Sl 24,1). “...eu sou forasteiro junto a ti, um inquilino como todos os meus pais...” (Sl 39,13b). “...eu sou estrangeiro na terra...” (Sl 11,9a). “...Diante de ti, não passamos de estrangeiros e peregrinos como todos os nossos pais; nossos dias na terra passam como sombra e não há esperança. Iahweh, nosso Deus, tudo quanto ajuntamos para construção de uma Casa para teu santo nome provém de tua mão e tudo te pertence.” (1Cr 29,15-16). Esses são pensamentos que encontramos no Primeiro Testamento, os quais nos revelam a atitude do povo de Israel em relação à criação.

Nas palavras do Cacique Seatlhe, sentimos uma vibração profunda de amor, sintonia, intimidade, reciprocidade e gratidão com o universo e os biomas que o compõem.

A relação estabelecida com a casa comum é de filiação, familiaridade, irmandade, amizade, pois é nela que existe a vida: da natureza e de seu povo. As palavras do texto bíblico testemunham que Iahweh é  criador e proprietário do universo, que permite à humanidade ser hóspede, inquilina, estrangeira, podendo desfrutar das riquezas que a diversidade dos biomas oferecem.

Cultivar e Cuidar são dois verbos que encontramos nos relatos da criação: Gênesis 1 e 2. Embora os dois relatos apresentem verbos diferentes e aparentemente em oposição, eles evidenciam, ante nossos olhos, o papel do ser humano no universo. É importante perceber que um é o complemento do outro, um esclarece o outro. Gn 1,28 traz os verbos ‘kabash’ = pisar na terra, subjugar, ‘radah’ = dominar. Por sua vez, Gn 2,15 nos fala que o ser humano deve cultivar = ‘abad’ e guardar o solo = ‘shamar’. A vocação humana, ao ser imagem e semelhança de Deus, é de cuidar, cultivar o solo para vida se multiplicar e ser fecunda: “Iahweh Deus tomou a humanidade e a colocou no jardim das delícias para cultivá-lo e cuidá-lo”.

Nossa tradição teológica latinoamericana se enraíza na escuta do grito do oprimido, tornando-o sujeito da história e lugar a partir do qual é possível entender melhor Deus, como Deus na Vida; a missão de Jesus, como promotor da Vida em abundância; e as igrejas, como sacramento de libertação integral. Mas não grita somente o empobrecido, gritam as águas, as florestas, os animais, os biomas  enfim o ecossistema.

O encontro com o pobre nos permitiu uma experiência espiritual originária, numa prática libertadora. Da mesma forma, a escuta do grito da natureza, a mãe terra, o paradigma ecológico nos proporcionará uma nova experiência do Sagrado e de consequência “motivações importantes para cuidar da natureza e dos irmãos e irmãs mais frágeis” (L.S. n. 64).

Precisamos de um novo paradigma que estabeleça uma aliança de paz duradoura com a criação, que estabeleça o shalom.

Ele vem sob o paradigma ecológico.  Ele exige um novo olhar sobre a natureza: não existe ‘meio ambiente’, mas um ‘ambiente inteiro, uma grande comunidade de vida’, da qual nós somos membros uns dos outros. Exige superar a concepção de que a natureza e os biomas são inertes, um baú de recursos ilimitados. É necessária a convicção de que são realidade viva.

Cuidar e Cultivar, vislumbramos nesses  dois verbos o sonho de Deus: o Universo é Casa Comum para a Família Humana, para que todos os seres viventes, todas as formas de vida possam ter vida e vida em abundância (João 10,10).

Tea Frigerio.