Vocação: Além de todas as fronteiras

  • Marcelo Ávila
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A vida na África não deixa de ser o começo de um novo caminho, talvez uma vida nova que traz consigo diferentes sentimentos: ser estrangeiro, o encanto e o desafio de viver em uma cultura diferente, aprender novas línguas e relativizar, em determinados momentos, a própria cultura.

É uma caminhada que exige tempo, sacrifícios e uma grande vontade de vivenciar os encantos e as belezas do continente africano, bem como de seu povo. É o voltar a ser criança e reaprender tudo outra vez: comer comidas diferentes e com a mão; construir um relacionamento fora dos nossos padrões; uma nova língua; enfim, aqui estou sempre aprendendo, não vim para ensinar.

yaunde

Atualmente vivo na capital dos Camarões, Yaoundé. Isso ja foi o bastante para me deixar em crise no começo. A cidade tem mais de 2.400.000 habitantes, totalmente diferente da Africa dos filmes, dos leões, elefantes, girafas que eu esperava encontrar. Temos outras missões nos lugares mais distantes onde podemos encontrar aquilo que eu esperava. De tempos em tempos visitamos essas comunidades, mas, por esse momento, minha missão é vivida no meio do povo, o bastante para ser profética e libertadora.

A República de Camarões é definida como uma África em miniatura, pois apresenta todos os tipos de ambientes e climas do continente. No país, 230 grupos étnicos falam 250 línguas e dialetos nativos. As línguas oficiais são o Francês e Inglês. No extremo norte dos Camarões, só 54% da população é alfabetizada. O sistema educacional é frágil e o ensino fundamental é garantido apenas em municípios maiores. Aproximadamente 50% das crianças não frequentam a escola, e nas áreas rurais, esse número chega a 70% para as meninas. Aqui, mesmo na escola publica, é preciso pagar para estudar. É triste demais saber que muitas crianças estão crescendo sem uma perspectiva de vida para o futuro.

Foi em meio a um momento de crise que descobri que a árvore deve dar frutos onde foi plantada. Sendo assim, começo a sentir a alegria e a profundidade da minha missão em Yaoundé. Aqui minha prioridade pastoral são as crianças, pois através delas posso chegar até suas famílias e partilhar as alegrias e esperanças, dores e sofrimentos de um povo que tem me ensinado um novo jeito de amar e compreender o mundo. A miséria assusta! Muitas famílias tem somente uma refeição por dia e chega a partir o coração quando uma criança me diz: tenho fome!

Nossa paróquia esta localizada na periferia da cidade, em um bairro chamado Oyom-Abang. Aqui, mesmo com a falta de recursos, conseguimos realizar muitos trabalhos, sobretudo, no diálogo com o mundo mulçumano, justiça e paz, comunidades eclesiais de base e um serviço de caridade que ajuda a dar mais vida para o nosso povo. Outro grande desafio que enfrentamos por aqui é o medo e a insegurança com o terrorismo do grupo Boko Haran.

O país já sofreu vários ataques e o último, em junho deste ano, matou mais de 30 pessoas. As vezes saímos de casa e não sabemos se retornaremos. Mas, existe algo mais forte do que o medo e que move nosso trabalho missionário:

o anúncio do Evangelho, que traz na sua essência uma mensagem de paz e fraternidade, que é bem mais forte do que a morte e a guerra.

marcelo

Depois de dois anos, posso dizer que estou muito feliz. Aqui, alegria e lágrimas caminham juntas. Alegria por viver no meio de um povo feliz, acolhedor e que tem esperança. Lágrimas pela injustiça, pela miséria, fruto de uma colonização exploradora, e por ver as crianças crescerem sem uma oportunidade para o futuro. As vezes, quando chego em casa triste ou chateado pelas coisas que vejo, tenho logo uma reação: quero voltar ao Brasil! No dia seguinte, quando as crianças correm ao meu encontro para me abra

çar ou quando escuto alguém me dizer obrigado por você estar aqui conosco, começo a refletir e a pensar que minha presença aqui faz alguma diferença, mesmo que seja pequena.

Eu acredito muito no potencial que as pessoas têm para fazerem o bem. Tenho muita esperança, sobretudo com o fim das guerras e do terrorismo. Em breve tudo isso será uma página virada da nossa história. Uma página que poderemos até mesmo arrancá-la.

O importante é começar a escrever uma nova história, uma história cheia de vida, de paz e de amor.

Enfim, vejo a vida na África depois de dois anos como uma continuidade, continuidade de um trabalho missionário que é na verdade a realização de um sonho. Sempre acreditei que um sonho conduzido pela fé pode se tornar realidade.

Um grande abraço a todos. Marcelo Ávila.

Bafoussan