Uma visão humana a respeito dos smartphones

  • Massimiliano Padula
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Querido Diretor do jornal católico Avvenire, o debate sobre a influencia dos smartphones se faz cada vez mais consistente: isso é um sinal de uma tomada de consciência da sociedade e da quebra de alguns mitos culturais que muitas vezes que enquadravam (e enquadram) a relação entre o ser humano e a tecnologia numa forma exclusivamente conflitante.

Aquilo que gostaria de tentar compartilhar é mesmo um começo de reflexão isenta de batalhas intelectuais  e capaz de traduzir aquilo que podemos definir como uma verdadeira mudança de paradigma que levaria a tecnologia a evaporar para deixar o lugar principal – até que enfim – à nossa humanidade.

O desafio está em educarmos para o uso correto da nossa própria existência, hoje vivenciada também na comunicação digital. É isso o repto mais difícil a ser enfrentado e que muitos não conseguem entender.

Uma ferramenta digital, mesma conectada em rede, é simplesmente um meio. E como todos os recursos não tem capacidade de agir, de ter intenções, não é uma cilada que nos faz cair em tentação, mas é simplesmente um objeto técnico complexo dentro do qual o ser humano projeta a si mesmo. Esta projeção possui uma etimologia relevante: a palavra tem a ver com  ‘proiectus’, ou seja revela aquela dimensão de projeto que está dentro do ser humano como ser social.

Cada um de nós possui desejos legítimos, luta para realizar os próprios objetivos, comunica a própria personalidade seja pelo bem seja pelo mal. Tudo isso leva o ser humano a ser criativo e livre, pessoa que regozija, sente emoções, ajuda o outro, realiza o bem, espalha beleza.

Entretanto o ser humano pode realizar o oposto de tudo isso e cair num circulo não virtuoso e sim maldoso. Dentro deste circulo é suficiente citar, como exemplo, a listinha comprida que o pedagogo Novara escreveu (Avvenire, 10 janeiro de 2018): a pornografia, a violência, a fragilidade, a incapacidade de foco, a insônia, a manipulação; e tudo isso se torna um relato, um desenho de um quadro que representa somente a parte negativa da realidade e não exclusivamente da realidade digital: aquela realidade que independentemente de ficarmos off-line ou online é simplesmente um reflexo da nossa qualidade ética.

Uma criança – afirma Novara – “entre 8 e 10 anos que encontra no bolso um aparelho com livre acesso à Rede” vive esta situação porque não possui alternativas e porque não foi educado a vivenciar processos autênticos de relacionamento que podem concretizar – se na proximidade ‘olho no olho’ mas também pela tecnologia digital.

Tudo acontece porque o pai e a mãe estão distraídos, cansados e não capazes de assumirem a responsabilidade de pais verdadeiro construindo um tipo de família definida por alguns ‘família que liberou geral’ ou seja uma família que renuncia a intermediar o uso que os filhos fazem das tecnologias digitais. Todas estas dificuldades têm a ver não somente com os familiares e sim com todas as categorias de educadores que todos os dias enfrentam o desafio da educação nos lugares clássicos da formação humana. (…)

São sempre bem vindas regras quase de decálogos formativos e percursos de formação eficazes, mas tem que permanecer prioritário a referência aos valores essenciais do ser humano (de justiça, de verdade, de respeito); valores que necessitam sempre de aprofundamento, meditação, discussão, encarnação; valores que podem tornar o ser humano uma pessoa maravilhosa.

Sinto um pouco de alergia aos ‘pratos prontos’: mesmo assim me sinto de indicar alguma sugestão: poderíamos começar a olhar para  cultura digital (da qual os smartphones são uma simples expressão técnica) de uma forma positiva e propositiva deixando de lado clichês pessimistas (as palavras na pedagogia possuem força construtiva ou destrutiva) e procurando mudar a perspectiva de uma ideia patológica, alienante, defensiva para uma visão simplesmente humana.

Portanto, uma visão aberta à possibilidade de erro, imperfeita, mas aperfeiçoável. Somente com e dentro esta nova perspectiva podemos nos defender (e defender as crianças) não dos smartphones e sim daqueles comportamentos errados que, por causa das nossas fragilidades humanas, podemos escolher.


  • Fonte: Giornale Avvenire, 20 de janeiro de 2018
  • Tradução: Gabriel Guarnieri.