Japão: um futuro sem filhos?

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O Japão pode se orgulhar da maior expectativa de vida no planeta – em média, os japoneses vivem por 81,9 anos. No entanto...

...isso pode ser mais um problema do que um objetivo se as taxas de natalidade do mesmo país estiverem entre as mais baixas do mundo, com apenas 1,25 nascimentos por mulher.

Quem apoiará as legiões crescentes dos aposentados?

Com o número de mortes por ano excedendo o número de nascimentos no Japão, a porcentagem de pessoas idosas cresceu mais rapidamente do que em qualquer outro país do mundo, enquanto a taxa de natalidade atingiu níveis históricos para dizer, no mínimo, preocupantes.

O número de nascimentos no Japão aumentou um pouco em 2008 [1], para cair novamente em 22 mil pessoas no ano seguinte. O número total de filhos nascidos foi de 1.069 milhões, enquanto o número de óbitos registrados no mesmo período foi de 1.144 milhões de pessoas.

Uma leve recuperação foi registrada em 2010 (com uma taxa de natalidade de 1,37), mas o número de nascimentos de crianças ainda é baixo, porque, embora a porcentagem de crianças pelo número de mulheres em idade fértil tenha aumentado um pouco, o número de jovens japoneses diminuiu. Isso significa que, a menos que haja uma recuperação notável na taxa de natalidade, a população japonesa continuará a diminuir.

Os números oferecidos pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-estar não são nada encorajadores: a perspectiva é que, em 2050, nascerá menos de 500 mil crianças em um ano e a população total do Japão cairá abaixo de 90 milhões de pessoas, enquanto atualmente a população do país é de 125.831 milhões de habitantes.

Em 1925, a taxa de fertilidade foi de 5.11 crianças por mulher. Este número diminuiu gradualmente, caindo abaixo da taxa de substituição (2,1 crianças por mulher) pela primeira vez em 1957. No entanto, esses números não alarmaram o governo ou a sociedade porque, ao mesmo tempo, no país cresceu a expectativa de vida. Mas atualmente, com uma população de pessoas com mais de setenta anos que atinge mais de dois milhões de pessoas, o nascimento de crianças não é mais só um problema para os casais: a baixa taxa de substituição da população põe em perigo a própria sociedade japonesa, tendo come consequência que no futuro haverá menos jovens para apoiar as pessoas mais velhas.

Os especialistas demográficos mundiais parecem incertos sobre o que está acontecendo exatamente com o Japão, e isso se deve ao fato de que, no momento, não há precedentes para ter como referimento. O único dado que parece certo e seguro é que, até 2050, o Japão perderá quase 40 milhões de habitantes, (quase um terço da população atual) e que esse cenário afetará drasticamente os hábitos sociais do país, em geral, e o comportamento das mulheres, em particular.

O que acontece com uma sociedade próspera e pacífica, cujas mulheres parecem relutantes em ter filhos?

Ninguém sabe com certeza a resposta a esta pergunta, mesmo que o Japão descobrirá em breve. As jovens do país encontram-se desfrutando de uma liberdade pessoal e profissional sem precedentes. No entanto, a dinâmica familiar parece estar ainda ligada aos laços tradicionais da sociedade, causando quase uma rejeição coletiva das mulheres ao pensamento de construir uma família e ter filhos.

De outro ponto de vista, os ambientalistas dizem que a diminuição da população para uma nação superlotada e dependente das importações, como o Japão, é de fato uma vantagem, especialmente porque a população mundial aumentará de 6,1 bilhões hoje para 9,3 bilhões no ano de 2050.

Os economistas, por outro lado, advertem que a escassez de crianças poderia levar o Japão a uma recessão semipermanente. A crescente relação entre aposentados e trabalhadores trará grandes desafios aos sistemas de aposentadoria, saúde e social, práticas trabalhistas, mercado de ações e talvez até a rentabilidade do sistema financeiro [2].

Por mais de uma década, os políticos japoneses tentaram convencer as mulheres a ter bebês, mas enquanto os homens continuarem a colocar o trabalho como prioridade em seus hábitos de estilo de vida e não decidirem participar ativamente da educação de seus filhos e compartilhar o trabalho das tarefas domésticas, as mulheres se recusarão cada vez mais a trocar as carreiras para ter filhos [3].

O Japão não está sozinho ao enfrentar esses difíceis problemas sociais e econômicos. Um fenômeno semelhante afetará a maioria dos principais países industrializados.

jap

De acordo com algumas previsões, nos próximos 50 anos, nos Estados Unidos, as taxas de fertilidade devem cair abaixo do chamado nível de substituição. No entanto, de acordo com as projeções da Divisão de População das Nações Unidas, em meados deste século, cerca de 39 países terão populações menores do que hoje. Estima-se que até 2050, por exemplo, a Rússia, a Geórgia, a Ucrânia, a Bulgária, a Itália, a Hungria, a Estónia, a Letônia e Cuba perderão cerca de um quarto das suas populações.

Nunca as taxas de natalidade caíram tão drasticamente e rapidamente no mundo, especialmente no Japão. Estamos no início de um fenômeno do qual muito pouco é realmente conhecido, e mesmo os analistas só podem avançar hipóteses ou conjecturas.

Possíveis causas desse fenômeno

Uma análise superficial do fenômeno pode levar à conclusão de que a baixa taxa de natalidade no Japão está ligada à participação das mulheres no mercado de trabalho. E, de fato, nas últimas décadas, enquanto o número de mulheres trabalhadoras aumentou, a taxa de fertilidade no Japão caiu. No entanto, muitos indicadores sugerem que os motivos são mais complexos do que o mencionado.

Os números do governo [4] mostram claramente que o número de filhos por casal permaneceu inalterado desde 1972: cada unidade familiar continua com cerca de dois filhos. O mesmo pode ser dito para o número de crianças que, idealmente, as famílias gostariam de ter: em 1977, os casais consideravam que o número ideal de crianças era de 2,61 por família, enquanto que em 2015 a porcentagem caiu ligeiramente para 2,48 de média.

O que parece ter modificado drasticamente, no entanto, é a porcentagem de pessoas que permaneceram (ou decidiram permanecer) solteiros e a idade em que um indivíduo decide se casar: em 1970 os homens se casavam com a idade igual a 27,46, enquanto que mulheres com 24,65; em 2015, no entanto, a média subiu para 31,14 e 29,42, respectivamente. Em 1970, o número de pessoas solteiras aos 50 anos ou mais era de 1,7% para os homens e 3,34% para as mulheres. Em 2005, as mulheres solteiras com mais de 50 anos representavam 7,25% da população total, enquanto a porcentagem de homens era próxima de 16%: isto significa que o número de homens não casados aos 50 anos aumentou bem nove vezes em 45 anos.

Esse aumento nas pessoas não casadas e sozinhas pode ser associado a políticas neoliberais (adotadas e promovidas pelo primeiro-ministro Koizumi Jun’ichirō em 2001), para tentar sair da chamada “década perdida” [5]. Um dos elementos mais importantes desta nova política econômica foi a intensa desregulamentação das práticas de emprego nas empresas e a abolição dos benefícios que caracterizaram as políticas sociais pós-guerra (especialmente as relativas aos subsídios à compra de imóveis).

As várias empresas logo se livraram do antigo sistema de contrapartida que caracterizava as relações de trabalho entre empregado e empregador, um sistema que se baseava em dois aspectos de considerável importância: a garantia de emprego vitalício e o sistema de evolução de carreira e salário por tempo de serviço. Devido a esta situação alterada, durante os anos de 1982 a 2006, a taxa de trabalhadores com emprego irregular aumentou de 15,8% para 30,6%, com um aumento significativo na porcentagem de jovens de 20 a 24 anos (de 11, 4% a 42,2%) [6].

Esses dados são confirmados por uma pesquisa publicada pelo governo em março de 2017 que descobriu que os homens que trabalham como empregados temporários tendem a se casar menos do que os trabalhadores com contrato efetivo. O Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, entre 2012 e 2016, contatou mais de 2.600 homens com idades compreendidas entre os 20 e os 34 anos e observou que entre aqueles que têm contrato temporário, apenas 17,2% se casaram, enquanto 32,2% das pessoas com uma condição de trabalho mais estável constituíram uma família. E o casamento, é claro, está intimamente ligado ao nascimento de crianças (no Japão, em 2015, apenas 2,2% dos nascimentos ocorreram fora do casamento).

Recentemente, o governo Abe anunciou algumas orientações para incentivar a população a ter mais filhos.

Entre os vários pontos indicados, é dada especial atenção à revisão do mundo do trabalho e à criação de um ambiente social em que as pessoas (homens e mulheres) possam equilibrar o desejo de carreira com a formação de um núcleo familiar [7]. Os objetivos que o governo estabeleceu a este respeito são bastante ambiciosos: aumentar o número de centros infantis dos atuais 2,15 para 2,41 milhões de unidades e aumentar o número de creches de 358 para mais de 2.000 estruturas.

Uma atenção especial é dada para o emprego masculino: a porcentagem de trabalhadores que optam pela licença de paternidade deve aumentar de 1,23 (porcentagem registrada em 2012) para 10% até 2020. Além disso, o governo também pretende aumentar o número de pessoas que trabalham em casa, usando o sistema do tele trabalho: 3,3 milhões de pessoas atualmente se beneficiam dessa possibilidade, mas esse número deve em breve exceder os sete milhões, expandindo para cerca de 20% dos trabalhadores japoneses.

Diante desses novos cenários sociais e de emprego, também estão ocorrendo alguns debates que tentam enfrentar o problema da escassez de mão-de-obra no mercado de trabalho. Um relatório da ONU de 2000, por exemplo, recomendou a introdução de trabalhadores estrangeiros no Japão [8], mesmo que por enquanto não pareça haver consenso entre os membros do governo qual política adotar.

No entanto, enquanto as políticas governamentais estão lutando para produzir resultados tangíveis, a sociedade japonesa parece estar se movendo para oferecer soluções alternativas de forma totalmente autônoma: algumas universidades públicas japonesas como Tóquio, Osaka e Kyushu, por exemplo, decidiram ajudar os pesquisadores com filhos, fornecendo-lhes creches que funcionam até às 21 horas, para que esses estudiosos possam dedicar-se ao trabalho sem se preocupar com o bem-estar das crianças.

Serão as gerações de hoje que decidirão qual direção a sociedade japonesa tomará no futuro,

mesmo que acreditemos que mudanças significativas poderiam ocorrer se a sociedade conseguisse se concentrar em questões de bem-estar, declínio na taxa de natalidade e envelhecimento da população (bem como sua relação com a prosperidade econômica) sem afetar o próprio conceito de família e a sua harmonia interna [9].

  • Pe. Michel da Rocha (Missionário Xaveriano).

[1] Statistical Handbook of Japan, 2009.

[2] Y. Fujino, “Japão ainda dificulta a carreira de mulheres. Jornal Nippo-Brasil” in http://www.nippobrasil.com.br/especial/561.shtml

[3] S. Norht, “Limited Regular Employment and the Reform of Japan’s Division of Labor” in The Asia-Pacific Journal: Japan Focus, 2014, 15/1.

[4] National Institute of Population and Social Security Research in Japan, in http://www.ipss.go.jp/index-e.asp

[5] O termo é usado para descrever uma situação de bloqueio e estagnação durante o período 1991-2001, na qual a economia japonesa cresceu muito lentamente após a explosão de bolhas financeiras, ou seja, a avaliação exaustiva de títulos de bolsa que não tinham nenhuma relação com a economia real.

[6] Cabinet Office, Statistics Bureau, Ministry of Internal Affairs and Communications. Population Census, 2008, in http://www.stat.go.jp/english/index.htm

[7] S. Mori, “Gender Equality Policy in Japan: Current Difficulties and Signs of Change” in Global Ethnographic Journal, 7 June 2014.

[8] C. Burgess “Celebrating ‘Multicultural Japan’: Writings on ‘Minorities’ and the Discourse on ‘Difference’” in Electronic Journal of Contemporary Japanese Studies, 5 December 2008.

[9] O Pe. Michel da Rocha é um missionário Xaveriano no Japão que atualmente trabalha nas comunidades de Izumisano e Kumatori (Arquidiocese de Osaka). Ele também está envolvido na pastoral com os brasileiros residentes em Osaka.