Uma avaliação do CAM 5

  • Estêvão Raschietti
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Animada pelo impulso missionário do Papa Francisco, a Igreja em América realizou o seu V Congresso Americano Missionário (CAM 5) em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), de 10-14 julho de 2018. Com o lema “América em Missão, o Evangelho é alegria” e o tema geral “A alegria do Evangelho, coração da missão profética, fonte de reconciliação e comunhão”, o objetivo deste evento foi: “fortalecer, nas Igrejas das Américas, a identidade e compromisso missionário ad gentes, anunciando a alegria do Evangelho a todos os povos, com particular atenção as periferias do mundo de hoje, a serviço de uma sociedade mais justa, solidária e fraterna”. Participaram delegações de 24 países, 95 bispos, 450 presbíteros, 130 seminaristas, 120 religiosos e religiosas e muitos leigos e leigas comprometidos, por um total de 3177 inscritos, mais de 700 pessoas envolvidas na organização, na acolhida e na infraestrutura.

O evento

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Celebrações solenes de inauguração e de encerramento abriram e fecharam o primeiro e o último dia do Congresso, respectivamente na Praça da Catedral e na Praça do Cristo Redentor de Santa Cruz de la Sierra. Os dias de trabalho das delegações foram de 11 a 13 de julho, nas amplas instalações do Colégio Dom Bosco. No sábado 14 de julho, houve uma missão de visita pelas ruas da periferia da cidade, junto às paróquias onde os participantes foram acolhidos.

O CAM 5 começou com as colocações iniciais do Prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, o Cardeal Fernando Filoni, do Presidente Internacional das Pontifícias Obras, Dom Giovanni Dal Toso, do Presidente da Conferência Episcopal Boliviana, Dom Ricardo Ernesto Centellas Guzmán. Em seguida, foram ministradas cinco conferência centrais na parte da manhã dos três dias de trabalho: “A alegria apaixonante do Evangelho”, por Dom Guido Charbonneau (Honduras), das Missões Estrangeiras de Quebec; “Anunciar o Evangelho ao mundo de hoje”, por Dom Santiago Silva Retamales, Presidente da Conferência Episcopal do Chile; “Discípulos testemunhos da comunhão e da reconciliação”, pelo Pe. Sérgio Montes, jesuíta, Diretor Geral da Agência de Notícias Fides; “Profetismo e missão”, por Dom Luis Augusto Castro (Colômbia), missionário da Consolata; enfim, “Missão ad gentes em América e a partir da América”, por Dom Vittorino Girardi (Costa Rica), missionário comboniano.

Na parte da tarde houve cinco miniassembleias, que tinham a tarefa de aprofundar os conteúdos das conferências com algumas perguntas para a reflexão, 12 oficinas temáticas e 4 grupos de debate. As oficinas abordaram os seguintes assuntos específicos: laicato, diálogo inter-religioso e ecumenismo, diversas culturas, reconciliação, missão ad gentes, ecologia, família missionária, catequese, cooperação missionária, jovens, migrantes e formação presbiteral. Os grupos de debate foram sobre as novas perspectivas da missiologia, a comunicação, a infância e adolescência missionária e a pastoral universitária.

Cada oficina e cada grupo elaborou seus aportes por escrito e finalizou suas conclusões. Terminados os trabalhos, por volta das 17h30, os participantes encaminhavam-se para os ônibus das respectivas paróquias, onde aguardavam as famílias que hospedavam os missionários em sua casa. Recepções, celebrações e confraternizações continuavam nos diversos lugares, momentos fortes, significativos e extremamente marcantes de todos os congressos missionários continentais celebrados até agora. Na Bolívia não foi diferente: o espirito acolhedor dos povos latino-americanos é algo profundamente tocante que sempre acaba surpreendendo e comovendo a todos.

Os aportes à caminhada missionária latino-americana

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O evento como um todo foi muito bem organizado. As pessoas envolvidas estavam motivadas, as infraestruturas deram conta do recado, mobilização e articulação dos vários setores não deram a perceber irreparáveis lacunas, animação e programação foram cumpridas a dever, talvez com alguns contratempos.

A Comissão Teológica preparou o conteúdo deste Congresso ao longo de cinco anos, durante os quais houve dois Simpósios Internacionais em Porto Rico (2015) e Uruguai (2016), respectivamente, assim como muitos outros congressos missionários nacionais em cada país. Foram publicados dois livros sobre os eixos temáticos do Congresso, que foram os seguintes: Evangelho, alegria, comunhão e reconciliação, missão e profetismo.

A partir desses trabalhos, a Conferência Episcopal da Bolívia e as Pontifícias Obras Missionárias elaboraram um Texto-base (Instrumentum Laboris) do CAM 5 para a animação e a reflexão das comunidades em toda a América. Junto a este, foi realizada uma pesquisa de opinião sobre vários temas da vida eclesial e social, que recolheu quase dez mil contribuições, especialmente da Bolívia, como também de outros países do continente.

Para o Pe. Pepe Cervantes, membro da Comissão Teológica do CAM 5, “a realização do congresso foi, sem dúvida, um momento de graça para a Igreja na América, que reaviva seu espírito missionário e que a impulsiona a estar presente em todas as realidades do mundo com a força transformadora e a alegria do Evangelho, abrindo caminhos de comunhão e reconciliação nos âmbitos sociais e políticos, inter-religiosos e eclesiais” Com certo otimismo ele aposta em seu comunicado final que “este Congresso promoverá, desde já, mudanças nas atividades e nas estruturas eclesiais, para que esta Igreja ‘em saída´ responda fielmente a Deus em sua missão aberta ad gentes”.

As propostas finais do Congresso apresentaram uma série de linhas de ação a serem tomadas para a renovação missionária da Igreja na América: educar na alegria do Ressuscitado e das Bem-aventuranças; sair às periferias do mundo para ir ao encontro dos “outros”; fomentar o conhecimento da Bíblia e dos Evangelhos; promover Comunidades de Vida Missionária; promover a comunhão de bens na Igreja e com os pobres; promover a reconciliação em todos os âmbitos da vida; fomentar a consciência da missão profética e libertadora em todas os âmbitos sociais; considerar a evangelização da família como uma chave cristã para a transformação social e cultural; potenciar uma Igreja missionária mais ministerial e laical; promover e cuidar das vocações à vida sacerdotal e religiosa; celebrar a fé e a religiosidade popular em chave missionária.

Das 11 proposições, 5 retomam à letra o resumo do Texto-base, incluído na apostila do CAM 5 distribuída na abertura do congresso (cf. p. 152-153); outras dois foram ajustadas segundo alguns pontos deste mesmo resumo; enfim, 4 proposições parecem ter sido elaboradas a partir dos aportes dos participantes: sair às periferias, a evangelização da família, uma Igreja mais ministerial e laical, a promoção das vocações.

Considerações sobre o conteúdo

CAM04Aqui, na proposta temática, conteudista e, em parte, metodológica, está o maior ponto fraco do CAM 5. A Comissão Teológica desenvolveu um trabalho louvável pelo esforço e pela dedicação, porém, absolutamente aquém das expectativas. Nossas observações, talvez, não façam jus a todo empenho e processo de preparação. Todavia, olhando para os resultados, não podemos omitir algumas considerações.

Há um costumeiro desacerto em entender o objetivo e a finalidade de um congresso promovido pelas Pontifícias Obras Missionárias: esses eventos devem necessariamente ter como enfoque a missão ad gentes, ad intra e ad extra, com suas implicações na pastoral missionária e na ação evangelização. Podemos até discutir o que significa ad gentes hoje, mas isso não significa, de forma alguma, abrir concessões para tratar de tudo e de todas as dimensões missionárias das Igrejas do Continente.

Da maneira que têm congressos sobre liturgia, catequese, família, meio de comunicação, pastorais sociais, etc., têm também congressos sobre a missão especificamente ad gentes e a cooperação intereclesial da América para com o mundo. Parece-me elementar entender isso. Todavia, não é o que acontece. Certamente, é necessário falar também da missionariedade como paradigma de toda Igreja, sem, porém, perder de vista o elemento caraterístico da proximidade e do encontro dos discípulos missionários com os “outros” povos, as “outras” culturas e as “outras” situações.

Esse desacerto deu origem no CAM 5 a um Texto-base muito confuso, a uma pesquisa regionalista não confiável e por demais abrangente nas questões, e mais uma vez, a um olhar introspectivo da América Latina sobre si mesma, como “objeto” e não “sujeito” de missão. O tema ad gentes, apropriado e domesticado por não especialistas, convenientemente ao gosto da Igreja local, acaba com toda sua força provocadora. Em nenhum momento se falou do compromisso da América com os outros continentes, ou com a própria Amazônia, ou com os indígenas, ou com os afro-americanos. Essas questões foram deixadas marginalmente de lado, aos cuidados de algumas oficinas, que não tinham a pujança de elevar suas reflexões à atenção de toda assembleia.

As conferências gerais, proferidas só por bispos e um padre, tiveram conteúdos espirituais, doutrinárias, exegéticos, conjunturais até bem-intencionados, mas regulares, pouco centrados no objetivo geral do CAM, sem mensagens ousadas e perspectivas concretas de ação. Houve uma falta total de testemunhos missionários impactantes, assim como intervenções de mulheres, leigos, indígenas, missiólogos (apesar de existir uma ótima escola de missiologia em Cochabamba). Não obstante os repetidos apelos para uma maior participação desses agentes, seguidos de incômodos aplausos um tanto complacentes, a imagem que o CAM 5 ofereceu ao Continente foi a de uma Igreja perfeitamente hierarquizada, pouco propensa a promover processos sinodais e, portanto, resistente a autênticas saídas missionárias.

Repensar os CAMs

CAM05Por falar a verdade, o CAM 5 reproduziu essencialmente os limites de outros CAM-COMLA: congressos regionais, organizados pelo país sede, nos quais as delegações dos outros países não passam de meros convidados. Foi assim, em distintos graus e modos – quem mais, quem menos –, no Brasil (1995), na Argentina (1999), na Guatemala (2003), no Equador (2008), na Venezuela (2013) e agora na Bolívia. Não se pode delegar uma Conferência Episcopal para ser a expressão missionária de toda América. Talvez esteja na hora de repensar radicalmente esses eventos e confiar a um comitê internacional sua articulação temática. Atualmente, esse comitê figura apenas como consultor, não se sabe bem ao certo com que papel deliberativo e organizativo.

Não há nenhuma ligação entre um CAM e outro. Organizam-se os Congressos como se fossem o começo esplendoroso de uma caminhada, sem nenhuma memória do que já foi realizado. Concluem-se os trabalhos com uma lista de apelos e compromissos logo esquecidos, jamais retomados e repetidos no evento sucessivo. Algumas vezes, não há uma mensagem vigorosa para levar para casa, a não ser a generosidade e o carinho do povo simples que acolhe, o encontro e o intercâmbio entre os participantes.

As coisas podem ser pensadas e realizadas de maneira melhor, em consideração também aos significativos investimentos que um acontecimento desta envergadura requer. A presunção de João Paulo II de transformar o Congressos Missionários Latino-Americanos (COMLA) em Congressos Americanos Missionários (CAM), só trouxe muitas complicações e nenhum resultado em 20 anos, como era de se prever. Contudo, que tal começar a usar nesses acontecimentos as quatro línguas francas do Continente (espanhol, português, inglês, francês)? Que tal promover a participação de todos os idiomas nas celebrações, nas conferências, nas oficinas? Que tal distribuir tarefas consistentes entre as várias delegações? Que tal propor um modelo de encontro mais inclusivo e sinodal, onde exercer a nossa integração e a saída de nossas culturas?

Avaliação da caminhada, analise de conjuntura mundial, testemunhos das igrejas de outros continentes, temáticas específicas de aprofundamento relacionada à missão ad gentes, perspectivas de animação missionária para os diversos países, implicações para a pastoral missionária e a ação evangelizadora, são todos aspectos que não podem faltar – nenhum deles! – num congresso que verdadeiramente quer expressar a alma missionária além-fronteiras da nossa querida América Latina (porque é, sempre foi e não há nenhuma razão para não ser, um congresso latino-americano de fato).

Temos cinco anos para frente até o próximo CAM em Porto Rico (2023): tempo para repensar certas atuações, tempo para ser muito bem aproveitado, “tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares” (Fernando Teixeira de Andrade).