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Missiologia

Três alegorias bíblicas missionárias


A missão tem a sua raiz na atração de Deus. É do Deus amor que brota a missão. Deste modo, a natureza missionária da Igreja está em Deus. A missão, que nasce de Deus, precede a Igreja que nasce do envio trinitário.

A Igreja não tem uma missão, ela é própria missão. Se as raízes da natureza missionária da Igreja se encontram na essência de Deus, não faz sentido distinguir ‘atividades missionárias' de atividades que quase clandestinamente se emanciparam de Deus sem serem atividades missionárias. Nesse sentido, o Documento Ad Gentes afirma que "a atividade missionária entre as nações se distingue da ação pastoral exercida entre os fiéis e das iniciativas empreendidas para restaurar a unidade dos cristãos (...), porém, que tanto a ação pastoral como a ação ecumênica estão intimamente ligadas ao esforço missionário da Igreja" (AG 6). Enfim, o texto desenvolve a figura do missionário e da missão através de três alegorias bíblicas: o pastor, o pescador e semeador.

O missionário como pastor

A alegoria do missionário como pastor nos remete para a parábola do Bom Pastor (Jo 10, 1-6), que se baseia no texto do profeta Ezequiel (cf Ez 34). Os pas­tores em tempo de Jesus eram donos de um punhado de ovelhas, as conheciam pelo nome e características, reuni­am, à noitinha, num único curral, suas criações. O curral era cercado por uma taipa de pedras, com uma porta, onde ficava o vigia noturno. De manhã, cada pastor se apresentava, chamava as ovelhas pelo nome; estas reconheciam a voz do seu pastor e saíam. Cada um deles caminhava à frente delas, conduzindo-as às pastagens.

A parábola contrapõe o pastor e o ladrão assaltante. O ladrão pula o muro para roubar, ao passo que o pastor entra pela porta. As inten­ções e ações do pastor e do ladrão são diametral­mente opostas entre si. A atividade do pastor consiste em cha­mar, conduzir para fora e caminhar à frente. A porta é o lugar da entrada e da saída. Entra-se em casa para se ter seguran­ça, sai-se dela para a liberdade. Decla­rando-se a porta, Jesus tor­na-se o ponto de referência para tudo o que o ser humano sonha e realiza. Entrar por ela é salvar-se, pois é aderir a ele, fugindo da morte. Sair dessa porta é caminhar para a liberdade, ao en­contro da vida ou pastagens.

O pastor vive dos produtos do rebanho. Ele usufrui dos bens como lã, leite e carne para sua subsistência. A prática de Jesus mostra que ele jamais se serviu do povo, explorando-o, pelo contrário, ele se tornou o próprio alimento e força do seu povo, na conquis­ta de sua liberdade. Não só não se serviu dele, mas doou-se completamente, entregando sua vida.

Contudo, a delimitação do espaço em seu próprio território indica que essa missão permanece de caráter pastoral: é uma missão no redil, que se baseia numa relação pessoal, íntima, com seus destinatários. O Bom Pastor "chama", as ovelhas "ouvem a sua voz", ele as conhece pelo nome, as acompanha fora do redil, caminha à frente delas, corre atrás delas quando se perdem, dá a vida por elas e ao mesmo tempo tem uma preocupação quase maternal com outras ovelhas que "não são deste aprisco" (cf. Jo 10,1-18). A missão aqui é movida pela caridade pastoral.

Em outro texto, Jesus tem compaixão do povo por serem ovelhas sem pastor (Mt 9, 36). O missionário ao ter compaixão demonstra ser o verdadeiro pastor, que age com a compaixão própria de Deus para com o povo. A compaixão de Jesus é sua profunda comoção por um povo desrespeitado, maltratado, oprimido, sem vida. Ter compaixão significa "sofrer junto" com o povo.

O missionário Pastor deve ter o compromisso de "sair ao encontro dos afastados, interessa-se por sua situação, a fim de reencantá-los com a Igreja e convidá-los a novamente se envolverem com ela" (DA 226). Ir ao encontro dos católicos afastados, que não professam a fé, pois estes seriam os mais vulneráveis ao proselitismo (Cf EG 24). A Boa Nova é a alegria dum Pai que não quer que se perca nenhum dos seus pequeninos. A alegria do Pastor é encontrar a ovelha perdida e a reintegra no rebanho. (Cf EG 237).

Ao missionário pastor cabe o esforço da retomada da missão, do mandato de anunciar o Evangelho através da "missão continental" para que cada cristão se comprometa a ser discípulo e missionário (DAp 362), de uma Igreja em estado permanente de missão (DAp 144). De um afã e anúncio missionários passando de pessoa a pessoa, de casa em casa, de comunidade a comunidade, porque o povo necessita sentir a proximidade da Igreja (Cf. DAp 550). O projeto do missionário pastor é uma proposta de missão ad intra, isto é, para dentro da igreja, preocupado em manter as ovelhas no próprio curral. Entre tanto, o perigo deste modelo é esquecer a missão ad gentes, fora de sua casa e de seus quintais.

O missionário como semeador

A alegoria do missionário como semeador nos remete para a parábola do semeador (Mt 13, 3-9), que apresente a semente possui em si todos os germes de vida. Jesus é o semeador generoso que não esconde a semente (Palavra). A parábola do semeador apresenta forças contrárias que abafam o poder de vida da semente como os pássaros, o terreno pedregoso e os espinhos, mas Jesus é como o experiente lavrador, sabe que, ao semear, um pouco se perde. Mas isso não conta diante do sucesso da colheita. Assim como Jesus o missionário deve ser o semeador.

A explicação da parábola do semeador (Mt 13, 18-22) desloca a atenção da semente para o tipo de terreno. O primeiro obstáculo do missionário para obter frutos é a superficialidade ou a insensibilidade, pois na estrada de chão batido, onde a semente não nasce; não atingiu a profundidade, ficou só na superfície. O Maligno rouba e leva embora.O segundo obstáculo do missionário são as perseguições. Diante delas surge facilmente o desânimo. Não se trata, todavia, de qualquer tipo de perseguição. São as perseguições "por causa da Palavra e da missão". É o testemunho que provoca conflito e rejeição. O terceiro obstáculo do missionário é caracterizado como "as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza". As estruturas políticas e econômicas fascinam e seduzem e têm poder de sufocar, de tornar estéril e ineficaz o poder da missão. O tipo da missão ideal é identificado com o terreno bom que produz frutos abundantes.

A parábola do joio no meio do trigo (Mt 13, 24-30) mostra que a sociedade é um campo de semeaduras diferentes e contrastantes. O missionário semeador cumpre o dever de semear boa semente: é o discípulo missionário. Contudo, no meio do terreno cresce também o joio. Isso não é fruto do dualismo absoluto da missão, pois o inimigo também semeia. Apenas a Deus cabe fazer a triagem. Essa triagem não acontece agora para não correr o perigo de arrancar o trigo junto com o joio pois, quando pequenos, são muito parecidos, mas no momento da espiga, a diferença fica evidente. Ao missionário acabe apenas semear transmitir a mensagem.

Com efeito, a nova evangelização encontra na figura do semeador uma sua possível alegoria. O lugar não é o redil do Bom Pastor. Agora o "campo é o mundo" (Mt 13,48), lugar aberto, de risco e de insegurança, onde o semeador sai para semear. Ele lança a semente em todo tipo de terreno, mas não é ele rega (cf. 1Cor 3,7) menos ainda aquele que faz crescer (cf. Mc 4,26-29). A ação do missionário semeador é marcada por uma gratuidade radical: ele somente lança a Palavra de Deus, talvez pequena como semente de mostarda (cf. Mc 4,30-32) e não se preocupa nem de arrancar o joio (cf. Mt 13,29). Mas é animado por uma profunda esperança de que algo possa dar fruto.

O missionário é chamado a ser o portador das "Sementes do Verbo" (AG, 11), a prepararam o terreno e descobrir os valores presentes na cultura e na vida do povo. As Sementes do Verbo são os valores presentes na justiça, na fraternidade, na vida comunitária, entre outros (Cf EG 68).

O missionário como pescador

Outra alegoria do missionário é do pescador que lança as redes. O próprio Jesus convida: "Sigam-me, e eu farei de vocês pescadores de homens". Os discípulos deixam suas atividades e o pai (Mt 4, 19-22) e seguem a Jesus. O chamado tem como objetivo atrair as pessoas a Jesus, isto é, serem pescadores de homens. Os discípulos deixam tudo, a única coisa que possuem e levam consigo é a fraternidade que deverá alargar os horizontes estreitos da família.

O estado de uma Igreja em situação de missão ad gentes pode ser associada à figura evangélica do pescador. O pescador não exerce sua profissão num curral pastoral. Ele está totalmente perdido em alto mar. Não tem também a mesma expectativa do agricultor em relação à semente que em algum lugar deverá oferecer seu fruto. A pesca depende do acaso, da sorte, e está sujeita a todo tipo de imprevistos e de riscos. É uma missão na qual a Igreja descobre sua verdadeira vocação em deixar-se conduzir somente pela Palavra.

A missão ad gentes é uma atividade marcada pela pura fé. O missionário pescador não deve trabalhar apenas para uma Igreja voltada para si mesma, ad intra, mas estar também presente nas decisões do mundo, ad extra. Por esta razão a missão deve estar voltada também para os "novos areópagos". Nessa arena estão o mundo da mídia, dos construtores da paz, dos que lutam pelo desenvolvimento e libertação dos povos, sobretudo das minorias, pela promoção da mulher e das crianças, pela ecologia e proteção da natureza. Incluem também os areópagos da cultura, da ciência, das relações internacionais (DAp 491).

Os discípulos missionários são chamados a fazer outros discípulos missionários, isto é, a lançar as redes. É a missão universal, sem fronteiras no alto mar, é "ir onde a Igreja ainda não está presente" (DAp 376). A missão, não é fechada em si mesma, aos adeptos, mas é aberta ao mundo, no envio além-fronteiras. "Aqui descobrimos outra profunda lei da realidade: Que a vida se alcança e amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros. Isso é definitivamente a missão" (DAp 360). É o critério da universalidade, próprio da dinâmica do Evangelho, dado que o Pai quer que todos os homens se salvem. O mandato é: "Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda criatura" (Mc 16, 15), porque toda "a criação se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus" (Rm 8, 19).

Considerações finais

 Os textos bíblicos nos apresentam três maneiras de ser missionário. O Pastor como a figura do missionário que está mais preocupado com o próprio curral, com uma missão para dentro da Igreja, chamado para ser o bom pastor e dar a vida pelas ovelhas. O Pescador apresenta a figura do missionário que não se acomoda, a pesar dos perigos de alto mar, vai para águas profundas lançando as redes a procura de peixes. O Semeador corresponde ao missionário que semeia a palavra sem se importar com o tipo de terreno, nem com a colheita. Ele semeia simplesmente na estrada de chão batido, onde a semente não nasce; no terreno pedregoso que tem pouca terra, onde surge facilmente o desânimo; na terra nos meios dos espinhos que tem dificuldades em produzir por se afogar; mas também a semente é semeada na terra boa que produz frutos abundantes.

Enfim, esta visão de missionário nos mostra que a Igreja não faz proselitismo, ela apenas cuida das ovelhas, lança as redes e semeia a palavra através do trabalho missionário, para crescer por atração. Neste sentido, a migração de fiéis para outras denominações, a perda do sentido da missão, nos faz admitir, que existe a falta de atratividade missionária da Igreja ou, às vezes, substituída por uma atratividade alienada. A atratividade é a marca registrada do nosso Deus. Por tanto, o essencial da natureza missionária é sua atratividade, em outras palavras, atrair como Deus atrai.

Rafael Lopez Villasenor, sx


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