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Missiologia

Entrevista com o Pe. Adriano Cunha, missionário xaveriano no Chade


Os leigos xaverianos de Hortolândia fizeram a seguinte entrevista com o Pe. Adriano Cunha, Missionário Xaveriano no Chade (África) natural de Sumaré (SP).

Qual a maior motivação do missionário?

chadePe. Adriano: Primeiramente, um grande abraço cheio de saudades para todos vocês da nossa querida paróquia São Guido Maria Conforti. Começo respondendo a essa pergunta com uma belíssima frase do Documento de Aparecida: “Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é uma alegria” (DA 29). Essa é a motivação “primeira” do missionário: se saber filho de um Deus que o ama e que incansavelmente busca sua salvação e a da humanidade inteira; filho de um Deus que luta constantemente para diminuir a distância que ainda existe entre o seu coração e o nosso; filho de um Deus que se fez pequeno e próximo de cada um de nós pela Encarnação de Jesus Cristo, e que por ela nos revela a plenitude do seu projeto de amor que é felicidade e vida plena e abundante para todos os filhos seus. Filho que descobrindo Jesus como missionário do Pai se descobre irmão universal!

São Guido fundou nossa Família Missionária tendo como fundamento sua contemplação do Crucificado. Na cruz descobrimos o que significa o “amor sem medidas”, amor que quer abraçar a humanidade inteira. São Guido vê o missionário como aquele que contemplando Jesus o vê enviando seus apóstolos à anunciarem aos confins do mundo a grandeza do amor de Deus. E por isso ele era consciente de que não existe vocação mais sublime que a vocação do missionário, pois ela é uma imitação da vida escolhida por Jesus e por seus apóstolos.chade3

Se o motor da vida missionária é um encontro profundo com Deus, seu combustível é o amor pela humanidade. O missionário é aquele que busca olhar cada pessoa com os olhos de Deus e assim descobrir nela um filho amado do Pai, um irmão de caminhada. Jesus traça o caminho da vida plena deixando-nos um mandamento novo que se resume em um amor sem medidas voltado para Deus e para o irmão. Não existe pessoa tocada pelo amor de Deus que não descubra que o sentido da vida está no amar ao próximo.

São Guido gostava muito da palavra italiana “riverbero” que poderíamos traduzir, de maneira simplória, por “ressonância” ou “reflexo”. Essa palavra forte, presente nos escritos de São Guido, sempre apresentam o missionário, ou mesmo de cada pessoa, como um “reflexo” de Deus. O missionário só é missionário quando ele se deixa iluminar e aquecer pela presença divina para se tornar então uma nova fonte de calor e luz...  Mas não somente, o missionário é também aquele que percebe em cada irmão e irmã, uma nova fonte de luz e calor que vêm de Deus.

Quais são os desafios da missão ad gentes? E como superá-los?

Pe. Adriano: Falando da missão ad gentes, eu convidaria que cada um de vocês lessem, neste mês missionário, um texto maravilho de São João Paulo II sobre a missão chamado Redemptoris Missio. Gostaria de responder a esta pergunta com algumas ideias desta encíclica dizendo que o maior desafio da missão ad gentes é fazer com que ela não seja esquecida. Cada vez mais, providencialmente, as palavras missão e missionário estão ligadas a todos os cristãos. De Aparecida à Evangelium Gaudium aprendemos que cada batizado é “discípulo-missionário”. Anunciar a presença de um Deus vivo no coração da humanidade é parte integrante da vida de um discípulo de Jesus, pois ou a Igreja é missionária ou ela não é Igreja

chade8Entretanto, o Papa nos ensina que quando falamos de missão falamos de três realidades que são interdependentes, mas que precisam ser identificadas: a primeira é a missão ad gentes, essa expressão latina que significa “às nações”, “aos povos” é o nome que damos à missão da Igreja que é o anúncio de Jesus e do seu Reino àqueles que ainda não os conhecem, missão do “primeiro anúncio”. Depois temos a missão “pastoral” da Igreja que é o anúncio e o cuidado daqueles que são cristãos que que vivem ligados à comunidade cristã; e a terceira seria a missão da “nova evangelização”, que abraça todo cuidado da Igreja para com as pessoas que foram batizadas, mas que por uma razão ou outra abandonaram a fé.

Nós percebemos que a missão é definida de acordo com os destinatários do anúncio: os cristãos batizados “praticantes” (missão pastoral), os cristãos que abandonaram a fé (nova evangelização) e aqueles que não conhecem a Jesus e que vivem longe da fé (missão ad gentes). A missão ad gentes é a mãe de toda atividade missionária, pois foi a primeira missão de Jesus confiada aos apóstolos. São João Paulo II apresenta a missão ad gentes como o modelo, o paradigma, de toda a atividade missionária da Igreja. A Igreja sempre se preocupou com nossos inúmeros irmãos e irmãs que ainda não tiveram a graça de se aproximarem da presença de Jesus.

Neste mês missionário a missão ad gentes deve estar no centro das nossas reflexões, orações e ações. Somos ou não uma Igreja que ama, acolhe e que se aproxima do irmão que não partilha nossa fé em Jesus Cristo? Qual é a porcentagem dos cuidados das nossas paróquias para com aqueles que não frequentam os nossos muros? Qual a nossa relação com os membros de outras confissões religiosas? Essa é a missão ad gentes: o carinho, o amor, atenção, o zelo para com aqueles que ainda não fazem parte da grande família sonhada por Jesus. A missão ad gentes acontece sempre quando a Igreja se faz diálogo e comunhão entre os cristãos e o grande mundo que existe fora dos muros da Igreja.

chade9A missão ad gentes é fruto do esforço de se fazer “próximo”, “irmão”, daquele que não partilha a nossa fé, não tanto para “convertê-lo”, mas sobretudo para realizar a bonita missão de ser “reflexo”, “riverbero”, da presença divina do Cristo e do seu Reino na sua vida e para descobrir nele o rosto divino que nele se manifesta. Por isso dizemos que a primeira atividade do missionário ad gentes é ser um testemunho alegre do amor cristão no coração da humanidade, ser um arauto do Reino e da sua justiça, ser uma presença humilde da Igreja que é mãe e sacramento de salvação para todos os filhos do Pai.

Qual o conselho que você daria a alguém que deseja sair em missão?

Pe. Adriano: Se me sinto filho de Deus me sinto irmão da humanidade! A primeira dica para alguém que sente o desejo de participar desta missão é que tenha sempre em vista os bilhões de irmãos espalhados pelo mundo, e entre eles uma multidão que tem direito de conhecer e se aproximar do amor de Deus revelado por Jesus. O coração do missionário é dilatado pois vê em cada pessoa um irmão.

Mas é importante saber que anunciar a fraternidade é uma loucura em um mundo que constrói muros e privilegia nacionalismos. O missionário parte para ser irmão sendo estrangeiro, estrangeiro significa aquilo que vem de fora. A primeira força do missionário é sua fraqueza, ele imita o Cristo que de Deus se fez homem, quando aceita se tornar em terras estrangeiras, ou em uma cultura estrangeira, uma criança que deve tudo aprender novamente, andar, falar comer. O missionário é hospede, e deve saber acolher o novo como um dom, um presente.chade7

Sem paixão a vida não tem sentido! O missionário é aquele que se deixa cativar pelo diferente. Até mesmo por uma religião diferente. O missionário não vê o não-cristão como um inimigo, um adversário, mas pelo contrário, o vê como o centro da sua doação missionária, a razão da sua vocação, da sua partida.

O missionário não leva Deus na mochila, ele o encontra lá na terra que Deus escolheu para ser seu lugar de missão e santificação. Feliz mês missionário! Um forte abraço! Termino com outras palavras do Documento de Aparecida: “Conhecer Jesus Cristo pela fé é nossa alegria; segui-lo é uma graça, e transmitir este tesouro aos demais é uma tarefa que o Senhor nos confiou ao nos chamar e nos escolher” (DA 18).

 


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