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Missiologia

Sonho realizado entre os Kayapó


Olá, sou o Irmão Raymundo Camacho, Missionário Xaveriano.  Membro do Conselho Indigenista Missionário CIMI. E há mais de 25 anos convivendo com os povos indígenas do Sul do Pará, particularmente com o povo Kayapó. Cheguei à região amazônica na segunda metade da década de 1990 ou seja, no início de 1996.  Fui envido pela Região Xaveriana do Brasil Sul onde cursei os estudos teológicos, para fazer uma experiência pastoral e missionária na Região Xaveriana do Brasil Norte, como complemento da formação académica que concluirá no ano anterior.

O envio foi a resposta da Direção Regional a um pedido que eu tinha feito anteriormente.  Sendo que eu tinha decidido não receber os ‘ministérios ordenados’, e conhecendo já um pouco da região amazônica, na época achei muito mais viável a realização do ‘sonho missionário’ como Irmão Religioso Consagrado, na região amazônica de Brasil Norte, seja pelas enormes dimensões das dioceses ou prelazias como pela carência de agentes de pastoral para cobrir as dimensões enormes das Igrejas locais.

Naqueles anos as duas Regiões Xaverianas, tanto a do Brasil Sul quanto a do Brasil Norte contavam com números de missionários baste expressivos e com uma meia de idade cheia de juventude.  As atividades por eles desenvolvidos a serviço das Igrejas locais eram diversas, todas essenciais e importantes para criação e formação das jovens Igrejas ainda em formação; orientados por um lado pelas normas e princípios da Igreja como um todo, e de outro tendo sempre como horizonte o próprio Carisma dos Xaverianos,  Isto é, “Levar o Evangelho a todos aqueles que ainda não o conhecem Cont... ”

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Tendo como base esses princípios, e de acordo com as necessidades mais urgentes das Igrejas locais, os Xaverianos da Região Norte escolhiam duas ou três atividades pastorais às quais se dedicava atenção especial ou prioritária durante um período de três ou mais anos. Uma destas prioridades logo chamou a minha atenção, a Pastoral Indigenista, pois desde que cheguei, ela nunca deixou de ser uma das prioridades pastorais da Região.  Talvez por ser esta a que mais se aproxima com essência do Carisma Xaveriano.  No entanto, o grupo dos Xaverianos que se orientou pela missão junto aos povos indígenas na região, é muito pequeno em relação ao número de missionários que por aqui passaram.

Eu tive a graça de fazer parte desse seleto ou pequeno grupo.  Mesmo sem ter manifestado explicitamente os meus sonhos e desejos, estes foram acontecendo e se realizando de forma tão simples e natural, que até hoje nunca tinha revelado que a motivação principal de ter pedido de ser destinado à região amazônica de Brasil Norte era a de poder conviver com os povos e comunidades indígenas dessa região.

Sonho realizado...!  E lá se vão mais de 25 anos de convivência e vida na missão junto ao povo Me-be-ngô-krê ou Kayapó como é mais conhecido. Tudo para mim aconteceu de forma muito natural, mas sempre que penso nisso me vem à mente a frase do Evangelho que diz: “muitos são os chamados e poucos os escolhidos Mt 22,14”.  No mesmo ano de experiência em missão fui destinado de forma definitiva à Região do Brasil Norte; e no início do ano seguinte, estando de férias com mi família recebi o seguinte comunicado do Superior regional em curso: “Assim que voltar das férias, você não fará mais parte de comunidade onde esteve até agora, de hoje em diante passa a formar parte da equipe da Pastoral Indigenista”.

Uns dois anos antes a equipe dos missionários Xaverianos e professores que atuavam junto aos Kayapó tinham sido expulsos da aldeia, por um desentendimento com uma liderança.  Sendo assim a nova equipe tinha a tarefa de abrir novos caminhos e ‘construir as pontes’ do relacionamento e convivência com esse povo indígena hegemônico na região do Alto Xingu onde atuavam os missionários Xaverianos.

Depois de alguns ajustes e mudanças nas comunidade xaverianas, o Pe. Pino Leone e eu saímos rumo a uma nova aldeia do povo Kayapó, que estava sendo construída nas imediações  do Riozinho, afluente do Rio Fresco, no município de São Félix do Xingu no Pará.  Fomos bem recebidos pelos moradores da aldeia ainda em construção já que a maioria deles conhecia os missionários, colegas nossos nas visitas destes nas aldeias. A nova comunidade era formada por dois grupos dissidentes de outras duas grandes aldeias, e foi chamada Moxkàràkô em referência a um tipo de árvore da família do jatobá, que era abundante no lugar onde foi construída a nova aldeia e onde eu passei mis primeiros anos de missionário com o povo indígena Kayapó.

Os primeiros tempos foram um pouco difíceis, não tanto pela convivência com os indígenas ou entre nós mesmos, e sim pelo choque psicológico e cultural.  Para mim, que há pouco tinha terminado a faculdade de Teologia, com o conceito intelectual ainda na cabeça, retornar para um tipo de vida culturalmente semelhante com as minhas próprias origens,  parecia-me um retrocesso inconcebível; uma década de anos de estudos para retornar a pegar na enxada e no facão que tanto calejaram as minhas mãos na infância, inconcebível...!

Mas graças às boas reflexões teológicas de ‘pés no chão’ ou se quiserem, gastando literalmente o chinelo de dedo até a alcinha arrebentar, as coisas mudaram e o equívoco conceito da intelectualidade esfumou-se mata adentro deixando espaço livre para convivência fraterna com aquela nascente comunidade indígena que logo se tornaria uma grande família para mim.

Nessa minha primeira experiência missionária foram sete 07 anos morando com eles na convivência fraterna e, no meio deles como filho, como irmão e como amigo e inclusive como pai, segundo os princípios culturais, das várias crianças meninos e meninas que nasceram durante a minha com eles.

Alguém pode dizer, até aqui foi a convivência.  E a missão, evangelização e o Carisma: “Levar o Evangelho aos que ainda não o Conhecem” onde ficaram.  Pois é, essa e a tarefa essencial dos Missionários Xaverianos, ora, as maneiras de realizar essa tarefa, fazer chega o Evangelho aos povos são diversas e variadas: pode ser através da Palavra, do conhecimento do ‘outro’, da sua cultura, na presença, na solidariedade, no ‘estar com’, na convivência fraterna e por fim no diálogo entre iguais.

As tentações da doutrinação ou catequização, da cristianização através do batismo não são poucas, influenciados por vários sentimentos, incluindo o de superioridade mas, ao se defrontar com uma cultura totalmente desconhecida, porém, estruturada sob seus próprios princípios culturais, políticos, morais e religiosos, aparecem como possibilidade diversas maneiras de apresentar  e vivenciar o Evangelho com e entre os  ‘outros’.  Nessa caminhada nós escolhemos por em prática a ‘Evangelização implícita’, isto e, viver os valores do Evangelho no meio e entre, através da fraternidade o serviço e solidariedade no meio deles.

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Raymundo Camacho, sx


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