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Ano celebrativo

O legado formativo com os Missionários Xaverianos


A celebração dos 70 anos de presença xaveriana no Brasil nos move a um sentimento de plena gratidão. Sinto-me privilegiado por ter conhecido de perto esta congregação missionária, convivido com membros desta família por cerca de 15 anos da minha vida.  

doriva9Sou Dorival, oriundo de uma família de imigrantes nordestinos radicados no Norte do Paraná. Bebi na fonte do catolicismo popular. Do meu pai, que era “rezador de terço'' e participava ativamente das comunidades eclesiais católicas, em localidades rurais, onde a família residiu durante os anos da minha infância, aprendi o apreço pela formação cristã, o respeito e cultivo da amizade com os vigários paroquiais e admiração pelo trabalho dos padres missionários. Ainda enquanto criança tive uma experiência de ser coroinha. 

O meu primeiro contato com os missionários xaverianos coincidiu com o êxodo da minha família do campo para a cidade, quando viemos morar em Londrina-PR, no final dos anos 70, mais propriamente em 1978. A porta de entrada deste encontro foi o encantamento pelo trabalho de duas grandes figuras missionárias: Pe. Emilio Paloschi e Pe. Jorge Gagliani. O primeiro era Pároco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, dono de uma personalidade ímpar, marcada pelo testemunho e pelo profetismo. O segundo se destacava pelo trabalho fervoroso junto às crianças e adolescentes. Foi através de uma palestra vocacional proferida pelo Pe. Jorge, na escola pública onde eu estudava em Londrina/PR, que me inscrevi para um estágio vocacional no Seminário de Jaguapitã/PR. doriva12

Assim, em janeiro de 1980 teve início a minha trajetória formativa junto aos missionários xaverianos, uma experiência que classifico como intensa e profunda.  Este ciclo, em sentido institucional, se encerrou no final de 1994, quando por opção, fiz mudanças no meu projeto de vida. De qualquer forma, como costuma dizer um amigo xaveriano, o Pe. Alberto Panichella:  “uma vez xaveriano, sempre xaveriano”.  Talvez o que ele quer dizer com isto é que há algo mais profundo no significado de “ser xaveriano”, fruto de uma convivência que não nos deixa ilesos, que nos forja, de alguma forma, no carisma da querida congregação. 

Cada missionário xaveriano, com os quais eu convivi, me deixaram grandes ensinamentos e independentemente das personalidades, e a despeito das diferentes perspectivas ideológicas e das linhas pastorais diversas, todos deixaram suas influências. Quando citamos nomes há sempre o risco de cometermos injustiças, mas tomo a liberdade de fazer referência àqueles que foram meus formadores diretos, que são representativos de tantos outros, e que muitos contribuíram para a minha formação humana, enquanto pessoa. Pe. Giuliani Sincini (in memorian) [Jaguapitã/Pr], Pe. Giovanni Murazzo  [Londrina/PR], Pe. Roberto doriva4Fransolin [Pinhais/PR], Pe. Décio Valdevino  Marques  [Santa Luzia/MG], Pe. Giancarlo Coruzzi (in memorian) [Santa Luzia/MG], Pe.  Mario Menin [São Paulo/PR].  Também contribuíram enormemente para a minha formação intelectual e humanística, nomes como o dos professores Aldo Antolli, Pe. Mario Riccó, Pe. Domenico Costela, e o já citado Pe. Mario Menin. 

Mas a convivência com os missionários xaverianos me proporcionaram tantas outras experiências formativas, que foram muito além dos muros dos seminários e dos bancos dos colégios e faculdades nos quais realizei meus estudos.

Ao longo dos 70 anos de presença missionária, a família xaveriana se destacou também por ser uma congregação engajada, atuando principalmente nas periferias das grandes cidades e em diversas frentes de trabalho pastoral. A atuação missionária acompanhou o movimento da Igreja latino-americana na sua opção preferencial pelos pobres.  Deste engajamento surgiu a proximidade dos seus membros com os movimentos sociais. 

Durante os meus anos de seminário, especialmente nas etapas de Filosofia e Teologia, os xaverianos eram conhecidos externamente, à época, como uma congregação “aberta”. O que para alguns poderia representardoriva1 uma crítica, para outros, o atributo era um “elogio”. O fato é que a proposta formativa dos missionários xaverianos permitia aos seus estudantes uma gama de experiências junto à luta dos menos favorecidos e em prol de uma sociedade mais justa.

Particularmente, o envolvimento com movimentos e pastorais sociais me propiciaram muita aprendizagem. Os meus anos de formação junto aos xaverianos decorreram entre o início dos anos 80 e meados dos anos 90; anos que coincidiram com a luta pela construção de uma nova ordem democrática no Brasil, e lutas por direitos civis e pela cidadania. Cito aqui alguns destes movimentos dos quais participei e são caros à minha memória afetiva.  

Em Londrina-PR, ainda enquanto estudante secundarista (“Ensino Médio”), juntamente com outros colegas, participamos das manifestações do Movimento “Diretas Já”, apenas para citar um exemplo do espírito que movia a época. 

Nas periferias da região metropolitana de Curitiba, enquanto cursava Filosofia, participei do Movimento de Alfabetização de Adultos, que aplicava o método Paulo Freire, experiência que me foi muito rica e muito útil ao longo da minha atuação profissional posteriormente no campo do magistério, no serviço público de assistência social e na gestão de políticas culturais.  Participei da Pastoral Operária e estive envolvido nas discussões de propostas populares para a elaboração da Constituição de 1988. 

doriva10Na região metropolitana de Belo Horizonte, onde fiz experiência pastoral e noviciado, os xaverianos prestavam assessoria a diversos movimentos sociais. A título de ilustração cito alguns movimentos nos quais estive envolvimento: Movimento dos Moradores de Aluguel de Santa Luzia/MG, Movimento de Comunicação Popular (Jornal Popular), Projeto de Alfabetização de Adultos, entre outros. 

Fiz os meus estudos teológicos em São Paulo/SP. Nesta etapa da formação também não foram poucas as experiências junto aos movimentos populares, principalmente na região da então Favela Heliópolis, onde os estudantes desenvolviam atividades pastorais. Trago boas lembranças de trabalhos prestados ao Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos, criado na gestão do famoso educador Paulo Freire, quando este esteve à frente da Secretaria Municipal de Educação. 

Todas estas experiências marcaram minha trajetória junto aos missionários xaverianos e o legado deste aprendizado, de alguma forma, se faz presente nas atividades que desenvolvo até os dias atuais, enquanto leigo, pai de família, e profissional.  Vida longa aos missionários xaverianos! Eternamente grato.

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Dorival Aparecido de Santana


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