Viver a missão até testemunhar com a própria vida

  • Elena Loi
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O termo profecia vem da língua grega: ‘propheteia’ dom de interpretar a vontade de Deus, de anunciar o seu Reinado; refere-se, sobretudo, à linguagem bíblica.

Se no Antigo Testamento a missão de profetizar era reservada a algumas pessoas, escolhidas por Deus, para ajudar o povo a retomar o Projeto do Êxodos, trilhar nos seus caminhos, acalentando a esperança de uma salvação a ser realizada no futuro por meio de um Salvador ungido por Deus, no Novo Testamento as profecias são realizadas em Jesus. São os apóstolos e as mulheres que viveram com Jesus e andaram com Ele por toda a Palestina “fazendo o bem”, depois de ter experimentado sua vida transformadora em suas vidas, a levar, cheios de alegria, até os confins do mundo o anuncio da Boa Nova.

Um significativo exemplo de processo profético o encontramos no Evangelho de João (4, 1-42) na pessoa da Samaritana. Ela vai com sei cântaro vazio, sob o sol do meio dia, sozinha, para tirar agua do poço de Jacó que se encontrava fora da cidade. E’ fácil imaginar quais pensamentos rodeavam sua cabeça, sabendo que era costume nesse tempo as mulheres irem todas juntas buscar agua, no entardecer para evitar o calor e bater um papo colocando em dia as noticias do lugarejo. Quem sabe quantas vezes teve que aguentar o olhar inquisidor das pessoas julgando sua vida “leviana”. Melhor evitar tudo isso e ir sozinha ao poço com o calor do meio dia.

2873 1161Jesus está lá, à sua espera. Conhece sua vida e os desvios de sua caminhada. Revela-se. E’ tão forte a experiência desse encontro que ela deixa até o cântaro e volta para a cidade para anunciar aos seus cidadãos a presença de Jesus no meio deles.

Os samaritanos acreditam na palavra da mulher, vão ao encontro de Jesus, e eles mesmos lhe declaram: “Antes nos convenceste pela historia que nos contaste, mas agora nós mesmos experimentamos e acreditamos que Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo”. Com certeza esse povo também, por sua vez, foi espalhando na redondeza o testemunho de Jesus, contagiando com a alegria experimentada as pessoas que os escutavam.

O Concilio Vaticano II, particularmente na constituição dogmática sobre a Igreja Lumen Gentium, explica que cada pessoa batizada, por ser unida a Cristo, participa da sua missão profética. Cada cristão, então, é profeta, no sentido que se torna capaz, com a força do Espirito Santo de espalhar em todo canto o testemunho de Cristo, sobretudo por meio de uma vida de fé, esperança, caridade, anunciando assim novo céu e nova terra, onde Deus reina.

Se a missão profética é de todo batizado, a maior razão o é da vida consagrada.

Alias, ela faz parte do seu carisma, do seu dom, da sua maneira de ser. Na historia da vida consagrada, desde o sua alvorada até os dias de hoje, na multiplicidade de suas famílias religiosas, encontramos dois eixos: o anuncio da Boa Nova e a escolha de servir Jesus nos pobres. Isto se tornou evidente depois do Concilio Vaticano II e para nós da América Latina com Medellín, quando muitos religiosos (as) deixaram os centros das cidades e foram para as periferias para viver com os pobres e a partir dessa dura realidade, à luz da Palavra, entender qual é o Projeto de Deus para nós hoje. “É da alegria do encontro com o Senhor e do seu chamado que brota o serviço na Igreja, a missão: levar aos homens e às mulheres do nosso tempo a consolação de Deus, testemunhar a Sua misericórdia” (papa Francisco).

Esta missão profética é vivida e realizada pelos religiosos até os confins do nosso planeta, com uma criatividade que só o Espirito pode suscitar. Eles não fazem barulho, não estão nas primeiras paginas dos jornais, a TV não há interesse a falar deles, a propô-los como modelos de vida, mas eles estão lá, no meio do povo das periferias geográficas e existenciais, consolando e dando esperança, não temem pela própria vida, lutam enfrentando muitas dificuldades para que todos tenham vida digna, ensaiando o Reino de Deus já nesta terra.

Como não se lembrar de Olga, Lucia e Bernardetta, três irmãs xaverianas da Itália, que em setembro de 2014 foram barbaramente assassinadas no país do Burundi (Centro África), pois viveram profundamente a missão profética até o martírio. Elas podiam ter ficado na Itália, pois tinham dado muitos anos à missão no Congo e no Burundi, apesar de suas vidas frágeis devido à idade avançada e problemas de saúde, que não mais lhe permitiam de desenvolver suas atividades no campo pastoral, sanitário e de formação da mulher, como fizeram por tantos anos. Tinham participado às alegrias e sofrimentos do povo, sobretudo nos terríveis anos da guerra, onde de 1993 a 2003 foram realizadas cerca de 600 chacinas de massa contra os refugiados e a população civil congolesa.

Elas não saíram do país. Elas ficaram juntamente com as outras irmãs e os padres para dar força e esperança para o povo.

Lucia, antes de voltar no Congo em 2001, assim escrevia: “Sofre-se em missão, porém é a nossa vocação, a nossa vida. Não temo por minha vida, já avisei que quando morrer me deixem lá. Desde sempre desejei morrer na África para ressurgir no ultimo dia com o povo africano, o povo ao qual o Senhor me enviou. Estou pedindo a Deus um dom: que me ensine a amar, a entrar na mentalidade do pobre, que eu seja como o samaritano da parábola. E’ necessário, por dom do Espirito Santo, que eu faça experiência da minha pobreza interior. Então saberei entender os pobres aos quais irei ao encontro”.

Bernardetta, depois ter desenvolvido um serviço na Itália de uns anos, voltando para Luvungi no Congo em 1997, e quando lhe perguntavam o porquê voltar em um país em guerra, com uma situação difícil e precária, respondia: “Volto pelo mesmo ideal de quando fui a primeira vez. Volto pelo meu povo, para ser soliária e partilhar a minha vida com eles, para testemunhar a bondade e a misericórdia de Deus, para ajudar os irmãos a crescer no perdão, na fraternidade e na esperança. Saio serena, porque coloco a minha confiança no Senhor, nas suas promessas... E’ belo, seguindo as pegadas de Jesus, gastar a vida para colaborar a construir juntos paz e fraternidade”.

Olga em Natal de 2009 assim escreveu aos seus familiares: “As dificuldades não faltam, mas o desejo de fazer conhecer que Deus é Pai, que Jesus morreu e ressuscitou por nós, é mais forte. Nenhuma circunstância o acontecimento pode impedir-nos de sermos testemunhas do amor de Deus”.

Também a Olga, Bernardetta, Lucia e a todas as religiosas e religiosos o povo que foi contagiado pelo seu testemunho, diz: “Antes nos convenceste pela historia que nos contaste, mas agora nós mesmos experimentamos e acreditamos que Jesus é verdadeiramente o Salvador do mundo”. E’ assim que a missão profética anda solta pelo Brasil e pelo mundo afora, pelo testemunho, pela vida doada, pelo martírio de tantos religiosos (as)... de geração em geração.

Elena Loi, mmx.