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Em que sentido a missio ad gentes (aos não cristãos) pode ser entendida como desafio e compromisso de identidade do xaveriano chamado a dar uma resposta qualificada, individual e como família, hoje? O que é a missão ad gentes? Quem são nossos interlocutores? Quem somos nós, como nos entendemos e para que serviço somos chamados?

1. A missão ad gentes é a missão colonial.

O termo “missão” nasceu no século XVI com a conquista das Américas, no início de uma era moderna que não surgiu de fatores intra-europeus, como muitos argumentam, mas de um processo de dominação extra-europeu. Portanto, quando falamos de "missão" não nos referimos idealmente ao mandato missionário de Mateus, que tinha como objetivo preparar a comunidade judaica para acolher não-judeus, mas à "missão moderna", o braço espiritual do colonialismo, a quintessência da conquista do resto do mundo por parte do Ocidente. Se por um lado os missionários lutaram para denunciar os inúmeros e graves crimes dos colonizadores contra as populações originárias dos vários continentes, por outro lado nunca questionaram as intenções, consideradas boas, da obra colonial.

chinaQuando dizemos "missão ad gentes", dizemos "missão colonial", do superior ao inferior, do civilizado ao bárbaro, do branco ao índio e do negro, do rico ao pobre, do cristão ao pagão, que sem dúvida possui alma e razão, mas não sabe como usá-las adequadamente. Como subordinado, o outro é sempre alguém a ser educado, a ser civilizado, a ser cristianizado, para tornar-se "igual a nós".

Essa colonialidade não é algo relacionado a tempos passados, mas é intrínseca ao Ocidente, à modernidade e à missão e sobrevive ao colonialismo histórico. Então, de alguma forma, continuamos visceralmente coloniais em nosso modo de ser, de pensar, de agir que consideramos absolutamente naturais, quando ao invés não fazemos nada além de revelar nosso etnocentrismo.

Descolonizar a missão não é um processo fácil e imediato, sobretudo porque não depende apenas de uma parte dos sujeitos envolvidos numa relação de dominação. Isso pode levar gerações. Mas é bom perceber isso desde já, sem celebrar demasiadamente a missão ad gentes: isso seria já um bom primeiro passo para uma reconfiguração descolonial da missão.

2. Os nossos "interlocutores".

Sempre foi um problema para a missão definir seus “interlocutores” (não destinatários). Nós os chamamos de: pagãos, infiéis, bárbaros, não-cristãos. "Gentes" indicava as etnias que não pertenciam ao "populus". Definir o outro como diferente de mim ainda é uma operação bastante delicada. Em todos os casos, pode-se também tentar encontrar termos que convidem mais positivamente ao encontro, desmontando pressupostos etnocêntricos.

Mas a questão que mais nos assombra é: quem são esses não-cristãos hoje? Quando se havia como referência o regime de cristandade, era bastante claro. Mas hoje que a cristandade não existe mais, como nos movemos? Podemos realmente ficar satisfeitos com a definição do não-cristão "cultural" como aquele "nunca ouviu falar de Jesus Cristo"?chia1

Quando Medellín fala da "evangelização dos batizados" (DM VIII, 9), fala de um paradoxo: a lógica dita que se evangelize para batizar; em vez disso, aqui na América Latina aqueles que já foram batizados devem ser ainda evangelizados. Porque com a colonização houve uma cristianização forçada, nunca uma verdadeira evangelização: onde havia opressão não havia evangelização. E, de fato, a Conferência de Santo Domingo foi obrigada a afirmar que a maioria dos batizados na América Latina nunca deram sua adesão pessoal a Jesus Cristo (DSD 33b): então, quem são os não-cristãos?

Daqui entendemos que a missão hoje é multifacetada e não existem territórios, povos ou pessoas que não sejam sujeitos de um diálogo missionário profundo e fundamental: porém, e aqui deveríamos refletir um pouco mais, há espaços, situações, contextos, fronteiras, periferias, fora do âmbito de ação das Igrejas locais, que deveriam tornar-se objeto de interesse para os institutos missionários.

3. O primeiro anúncio.

Nós nos definimos como missionários a partir do primeiro anúncio do Evangelho a quem não o conhece. As Constituições quase nunca falam do primeiro anúncio. Afirmam de forma mais clara e substancial: “A nossa missão pede-nos a anunciar o Reino onde ainda não é reconhecido, a denunciar o que a ele se opõe é, a aponta-lo já está presente nos sinais, a colaborar com a sua vinda (LG 5.16; AG 11; GS 39; RH 11)” (C 7).

O Papa Ratzinger na Encíclica Spe Salvi observa que o Cristianismo não é uma comunicação de conteúdos até então desconhecidos: a mensagem cristã não é "informativa", mas "performativa" (SS 2). Isso significa que o evangelho não é apenas uma comunicação de coisas que podem ser conhecidas, mas é uma comunicação que produz fatos e transforma vidas.

O XVI Capítulo Geral dos Missionários Xaverianos tratou do primeiro anúncio em um sentido claramente "performativo" (46-55). O XVII Capítulo retomou e confirmou os trechos do anterior. A Evangelii Gaudium lembra que o primeiro anúncio “não significa que esteja no início e depois seja esquecido ou substituído por outros conteúdos. É o primeiro no sentido qualitativo, porque é o anúncio principal, aquele que deve ser ouvido sempre de diferentes maneiras” (EG 164).

china copyNeste sentido, o primeiro anúncio diz respeito não só aos chamados "não-cristãos", mas também à própria Igreja porque, como diz a Conferência de Aparecida, “para nos convertermos numa Igreja cheia de entusiasmo evangelizador e de audácia evangelizadora, devemos ser evangelizados novamente” (DAp 549).

Portanto, o anúncio querigmático é chamado a permear toda a relação comunicativa do encontro com o outro em termos de reciprocidade: não se trata de modo algum de "ardor, método e expressão sem alterar ou modificar o conteúdo da mensagem evangélica" (DSD, Discurso Inaugural, 10) como queria João Paulo II, mas ao contrário, o primeiro anúncio convida-nos a uma abertura sempre nova e surpreendente na busca e descoberta do rosto de Deus a partir do encontro com o outro. O primeiro anúncio é sempre algo que comunicamos e que nos é comunicado: caso contrário, reduz-se a uma interação hegemónica.

Estêvão Raschiett, sx


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